30.12.14

Sócrates: um caso de polícia e muito mais

Muita gente se mobilizou pela internet, pelas opiniões em cafés e com amigos, à volta da prisão de Sócrates. Nada de surpreendente. O que surpreende, os mais desatentos, é o cortejo de figuras que o vão visitar ao calabouço (talvez o seu merecido lugar desde sempre).

Sócrates possui muita informação e segredo sobre muita gente, por ter facilitado, ajudado e patrocinado uma linha de corrupção que envolve muitos dos que agora o visitam. É preciso, é fundamental ir beijar a mão "al Padrino". Quanto a isto fico por aqui, já disse tudo. Aliás, estou tão cheio desta estupidez à volta de um criminoso, que me apetece decidir não mais escrever sobre o energúmeno. Mas não iria fazer essa vontade aos seus cegos e burros seguidores, lamento.

Sobre este caso e criatura, vejo dois grupos de pessoas. As que insistem utopicamente na sua impoluta pessoa, num grande político que, à maneira de Estaline, querem branquear, reescrevendo a história, e até pretendem condenar a própria Justiça, essa fim fonte de todos os males. A Justiça é agora fascista, pidesca, malvada e mentirosa. A Justiça, que antes Sócrates defendeu, quando manipulou o anterior Procurador Geral e o Presidente do Supremo, é uma ameaça à Democracia. Aos direitos humanos, veja-se bem. Quando ela pretende é precisamente defender os direitos humanos, consubstanciados no direito às mesmas oportunidades de carreira, de vida, que precisamente gente como Sócrates arrestou e limitou aos amigos dessa seita odiosa e conspiradora que é a Maçonaria. A Maçonaria e os seus simpatizantes próximos, os que não pertencendo a ela, andam em bando, como abutres, em alerta sobre os restos mortais que ela vai deixando.

Outro grupo é o dos que pensam como eu, e é bem maior e maioritário. De pessoa que têm a certeza da culpa de Sócrates, não apenas do que agora pode vir a ser acusado (ainda não foi), e já é investigado, mas também da casas da Covilhã, do aterro, do Monte Branco, da Face Oculta, do Freeport, da Universidade Moderna e da sua falsa licenciatura. Mas este grupo só o condenou social e politicamente. A condenação efectiva, a acontecer, é competência e trabalho da Justiça, que nada tem de pidesca e é, efectvamente, neste momento, a única oportunidade de se fazer em Portugal o que há muito é esperado: reformar o Regime, expurgando-o de vermes que o têm corroído por via da política e dos empresários corruptos (estes ainda em maior número).

O que me espanta, me arrepia até e provoca um estremecer do consciente, é o que andam a fazer tantas pessoas que desejam o mesmo que eu, esta purga fundamental na Democracia, que pode começar precisamente por este ser inferior de nome Sócrates, e continuar por tantos processos e indivíduos, alguns até arquivados de momento (mas ainda não totalmente isentos de alguma investigação como em breve saberemos...). Surpreende-me que pessoa inteligentes e íntegras se preocupem tanto com a justiça da Justiça, com segredos de justiça e outras menoridades, quando o valor maior da Verdade e Transparência pode ter agora encontrado a última oportunidade de representar a determinante reforma deste Regime, desta Democracia, corroída de tanta corrupção.

Pois por mim mantenho-me na mesma linha: não abro mão de uma só pessoa, suspeita e processo, atinja quem atingir! Sócrates pode representar um exemplo e um início de uma purga que a Democracia exige. Mas nada termina com ele. Claro que não. Mas se, de cada vez que ele vem à baila, se vão buscar outros processos, parece-me que o serviço que se faz é o de dar o jeito à corrupta Maçonaria e aos amigos de Sócrates e a ele mesmo. Os amigos que o têm visitado, e os que nem para isso têm coragem, mas que arriscam muito, quando ele começar a falar.

O que as pessoa não parecem ver é a absoluta necessidade da investigação mais profunda sobre a vida do estafermo. Sem obstáculos e sem este movimento asqueroso e conspirador dos maçons e seus comparsas. O que interessa à Democracia é prosseguir com este processo e chegar ao fim, eventualmente condenando Sócrates ou, se tal não acontecer, por erros processuais, como é costume num sistema judicial refém de regras e leis que o minam, fruto do grande trabalho efectuado durante dezenas de anos pelos amigos da corrupção, instalados na advogacia e nos legisladores, que pelo menos nos reste a sua condenação social e política definitiva. Menos do que isto é um perigo que uma Democracia que se pretende civilizada e europeia, não conseguirá suportar e ficará refém de movimentos perversos, conspiradores e corruptos, como os que já sabemos (em parte, apenas).

Estes processos, demonstrativos de uma mudança fundamental na Justiça portuguesa, mas também europeia, pois em diversos países, parece finalmente haver uma clarividência quanto à absoluta necessidade de se salvarem regimes democráticos, antes que populistas e corruptos os estrangulem definitivamente, sem remissão, têm de continuar. Sócrates é apenas um, mas o mais representativo e mais necessário no momento. Mas a corrupção e as redes de tráfico de influências e o enriquecimento ilícito têm de ser combatidos, sem trégua alguma.

Estou certo da absoluta necessidade de denúncia da Maçonaria, do seu desmascarar, da perseguição judicial aos seus maiores mentores, que para si asseguraram modos de vida imerecidos, por via de amizades inimigas de uma Democracia transparente e justa para todos. É o que espero com este processo de Sócrates, muito mais do que a sua condenação, necessária mas não suficiente. O polvo conspirador é bem maior do que esse ser menor.

29.12.14

Reflexões sobre os povos e as suas inexplicáveis (faltas de) atitudes

Há algum tempo que me tem dado esta vertigem de reler e rebuscar na memória os acontecimentos que conduziram às duas Grandes Guerras Mundiais, na Europa originadas e desenvolvidas. Estes caminhos devem-me ter sido sugeridos pelo lado "peste" da minha mente vacilante- o Inconsciente (ou serve isto de pretexto, apenas).

Quando me interrogo sobre as razões que (não) assistem a um povo para não tomar uma atitude, organizar-se num dado momento, ou durante uma época relativamente longa...como aconteceu com Portugal durante os anos do Estado Novo (sempre me irritou este epíteto sobre época tão retrógrada), como aconteceu em Espanha, durante os anos de Franco, como aconteceu na Europa da Primeira Guerra, quando povos enlouqueceram, em nome de uma dita (ditosa) honra que diziam defender, como voltou a suceder na Segunda Guerra, em que um povo evidentemente de cultura superior a tantos outros europeus, se deixou convencer, subjugar e conduzir por um louco mentiroso, de inteligência direccionada, a seu serviço pessoal e do seu grupo de embriagados pelo racismo (mais pelo interesse financeiro e sede de poder).

Porque a memória do que li na minha adolescência me podia trair, fui de novo indagar. E de facto, confirma-se. Os alemães que hoje perversamente lideram uma Europa (derivante...talvez o não pretendessem ou lograssem se este fosse um espaço geográfico e político, económico e social forte, de países menos desiguais, mais parceiros, mais participativos num equilíbrio de forças distinto do actual), foram forjados na mesma cultura, língua e país que cegamente se verificou seguidista, por ...afinal tão poucos anos, mas tão violentos e consequentes, tão poucos, quanto a vontade com que logo após a entrada dos "Aliados" no seu país, os fez não apenas aceitar uma nova realidade, como negar a anterior, de semanas, ou poucos meses, como alguém que um dia ama e dias depois já não sente amar, ou vice-versa, a mesmíssima pessoa. Tanta fé e o seu contrário são difíceis de entender, e, talvez por isso, todos os outros povos antes seus indignados opositores os tenham, também com a celeridade de escassos anos, deixado de os julgar.

Impressionante, face mesmo a uma entrada violenta, dos libertadores Aliados, outra faceta rápida e intrigantemente apagada da história. Quando os Aliados entraram e ocuparam a Alemanha vencida e rendida, novos actos de violência se perpetraram, com a humilhação nova do povo que antes havia violentado a Europa. Talvez legítima, pela raiva. Indesculpável, pelos mesmos princípios, que diziam os libertadores defenderem.

Mas como foi este povo tão fácil e universalmente subjugado e controlado? Como ...Portugal em tantas épocas? E Itália? E Espanha.

Na Alemanha de Hitler, a mesma que hoje julga saber o que é melhor para si e para toda a Europa, tão cheia de certezas hoje, como outrora, logo traduzidas em profundas dúvidas, a resistência e oposição ao ditador foi frouxa, desorganizada e dispersa, nunca eficaz. Estranha-se, aos olhos de hoje, pelo menos. Mas por cá, o mesmo povo que abraçou o fim de um regime e o início do seu contrario, de uma Democracia, também se contradiz nos termos e nos actos. Também se estranha.

Não está na proximidade cultural a explicação, como se compreende, sem grande reflexão. Não está na diferença da mesma, eventualmente. Estará em algum implícito sociológico, ainda por se entender e explicar?

Um dia um povo se indigna, se manifesta e revolta e provoca uma reviravolta, tumultuosa ou não, na sua história. Noutro, aceita passiva e tacitamente, tudo o que nega no dia anterior. E o seu contrario também.

Factos e momentos diferentes, evidentemente. Mas talvez as atitudes estejam mais próximas, entre épocas distantes de setenta anos, e regiões, de mais de dois mil quilómetros, do que se poderia supor.

22.12.14

2014+1

Juntaram-se uns algarismos. Formaram um número. E não sabiam o quanto de perverso continham. 2, 0, 1 e 4. Apenas por que eram parte de uma sequência. E as sequências não têm vontade própria, mas podem trazer muito de impróprio, inadequado.

2014 foi um ano terrível. Para mim. E para os meus. Os meus desgraçados conterrâneos, compatriotas, como já nem é uso chamar-se a um povo, mesmo a este povo antigo, com sulcos de dor e miséria na cara. Há quase um ano se elaboraram promessas, de nós para nós mesmos. E para os nossos mais queridos. O ano...trouxe tanta surpresa. Confesso que algumas foram boas. Por caminhos certos, por caminhos ínvios, e por caminhos inesperados, como tal, desconhecidos.

O meu tão saudoso pai, que sempre recordo com tristeza por estes malditos dias "de festa", sempre acreditava a cada ano, num recomeço melhor. Era um homem de esperança, tanta quanta a força moral e intelectual que o caracterizava. A cada batida da meia-noite, no nosso terraço no Funchal, olhando o ano que se resumia já apenas a um número, fugaz por segundos, iluminado e gigante, nas encostas da "montanha" esse lugar de um culto de minutos para os madeirenses, onde todos os anos, os do Funchal se voltam como islâmicos para Meca, e esperam que a mudança, e a esperança, lhes chegue com a alteração do último algarismo de um grupo de quatro. Nesse momento tão efémero, o meu pai olhava e dizia-nos, exultante, para olharmos todos..."olhem agora, o ano vai mudar" (por vezes fazíamos uma contagem mental, cada um a seu ritmo, dessincronizados).

O ano mudava, os abraços fortes e quentes do nosso pai e os beijos da nossa mãe, eram o presente que essa mudança trazia. Um sorriso e um "Bom ano", quente, aconchegante e uma muito fugidia sensação de crença, num ano "muito melhor" que se iniciava. E todos nos abraçamos, e desejávamos o tradicional e cego "Bom Ano". Um desejo sem conteúdo, que só saberíamos...um ano depois. Logo o fogo de artifício rebentava, fantástico, maravilhosa e único para nós. Momentos memoráveis que nunca se apagarão (eram os abraços fortes e sentidos que contava, o ano, a mudança não fazia ali nada), pese embora o apagão do fogo que dura mais trezentos e sessenta e cinco dias, descontados uns poucos dez minutos, ultrapasse em dimensão, mas não em sensação e memória. Esses momentos cá estão. E por estarem, vendo ainda o locar do nosso terraço, no centro do Funchal, telhados vizinhos à volta, voltando a cabeça nas várias direcções, ao ritmo a que surgia cada novo foguete, um mais lindo do que o anterior "olha aquele ali" e ..."aquele, aquele sim". Os barcos faziam soar os seus "apitos", e por detrás novo fogo surgia, o reflexo das suas luzes no mar. Dez minutos, pouco mais.

Dez minutos era o tempo que uma esperança se aguentava nas fracas pernas, até morrer. Mas a cada ano, não sabíamos nunca. Sempre acreditando. Acreditando até ao último instante, trezentos e sessenta e cinco dias depois.

Foi diferente 2014. Não houve fogo de artifício na baía do Funchal, porque há alguns anos que, para mim, não há. Mas ele volta, lá. E eu sei. Como voltam a esperança e as palavras do meu pai, um optimista jovial e que amava incondicionalmente a sua família, e por isso se resguardava de qualquer réstia de pessimismo e nos protegia. Mas ele deixou-nos demasiado cedo e levou boa parte da esperança com ele.

2014 foi dos piores anos dos meus cinquenta e tal. Quem me conhece, bem o sabe. Um ano maldito. Confesso o meu ódio a este ano, que quero se apague, nessa ilusão que me foi ensinada de que à volta da meia-noite de 31 de Dezembro, a esperança regressa.

Quero deixar esta esperança a todos os meus amigos, os que me lêem e os que não. Fica na mesma. Que nos sirva a todos, que vos sirva de muito. Que 2015, neste lago onde nos estamos a afundar, sem vislumbre de salvadores, ainda encontremos forças inéditas, inauditas e secretas, inteligentes mas seguras, confiantes e determinadas, para fazermos o que em novecentos anos nunca se fez. Que façamos deste espaço o nosso país, e não o deixemos nas mãos de quem não sabe o que dele fazer.

Um 2015 diferente e um excelente ano! Para todos (mesmo os que não merecem e cada um de nós sabe quem da sua parte não merece, e colectivamente todos parecemos saber). Todos, sem excepção, somos humanos e alguns, muitos até, andamos a sofrer com o que poucos nos têm feito. Ainda assim, como bem ensinado pelo meu grande e querido pai, democrata e humanista, com aquele sorriso enorme com que nos aquecia os piores dias...

...BOM ANO de 2015!

19.12.14

Os sentimentos que nos diferenciam

Li algumas passagens do novo livro de Sousa Tavares. Considero-o um homem inteligente, com uma escrita de qualidade, não diria irrepreensível (mas exceptuando o perfeccionista Mário Cláudio, ou a inteligência superior de Herberto Helder, quantos a têm?).


É uma obra que o autor pretendeu intimista, que confessadamente, e algo timidamente, o diz. É interessante, isto do intimismo de quem escreve, e se sente como escritor, o que Miguel Sousa Tavares também nos confidencia. É interessante e algo polémico, muitos leitores nunca o aceitam. E um escritor arrisca muito ao fazê-lo. Pode denunciar algo ou muito da sua idiossincrasia. Pode deixa-lo demasiado exposto. Mas um escritor é um artista, como ele também o diz, no que concordo.

Esse é, desde já, como declaração de intenção minha, um acto de coragem. Sousa Tavares tem muito de corajoso, com muita frequência nas suas opiniões políticas e logo, bem patente, também, na sua escrita. Arrisca. Foi acusado mais de uma vez de ter baseado alguns textos em trabalho de outros, nos seus romances. Mas foi ele que tomou a dianteira e os escreveu, e fê-lo pela sua própria pena, com o seu estilo.

Constitui-se um homem de sentimentos. Sociais. Íntimos. Um eterno caminheiro pela perfeição nas relações, pelos vistos. Um eterno peregrino, pelo amor e pelo conhecimento sobre o ser humano.

Esta postura de Sousa Tavares é, pela minha forma de ver, muito adequada aos dias de incerteza que vivemos. Trata-se de um autor respeitado e julgo que isso tem muito de responsabilidade para com estes tempos e com os seus leitores. Talvez isso o tenha inspirado. Ainda não li este livro dele, e nunca me predispus a ler este género de livros. Desta vez, sinto curiosidade.

Há em todos nós sentimentos. Que nos unem. E que nos separam. Dar nota deles, é mais um acto de coragem do que uma falta de decoro. Ninguém se expõe totalmente, nem um escritor.

Mas um escritor expõe-se sempre mais do que provavelmente pretende. Talvez quem leia aprenda essas outras formas de sentir, para além das formas de pensar. É uma forma de entrar em dois mundo, pela porta de um só. Um acto de coragem de quem escreve, que serve um acto de humildade de quem aprende com isso. Ou uma confessa fome de aprendizagem, desta vez de sentimentos distintos dos nossos. Sempre achei que todos vivemos em vários mundos em simultâneo. Uma enriquecimento em si mesmo.

O que nos diferencia até nos aproxima. E também nos permite vermos melhor algo de nós próprios, que de outra forma não seria evidente. Seria pouco honesto deixar passar a ideia que é boa esta diferenciação, esta diferença, quando se trata de procurar ou assimilar o que nos surge pela frente, algo mais do que um mero relacionamento, mas uma relação íntima e sentimental forte, afinal. Nesse caso há, com frequência, um afã de encontrar pontos comuns, e pesar e comparar. Comparar sentimentos é tão só inútil se não se tornar ridículo, pelo insucesso que se prevê. O que nos une é bom, mas o que nos diferencia pode tornar-se bem mais útil e não ser forçosamente um pretexto de afastamento. Falo de sentimentos, não de gostos (o jogo dos apaixonados) ou de prazeres (o que de facto aproxima pessoas).

Interessante e decepcionante. Como durante séculos a humanidade se dedicou ao exercício da racionalidade, para hoje pensar que é a emoção e o prazer (já defendida por Epicuro, antiga Grécia e condenado, ridicularizado por católicos) que conta. Podemos, sem grande erro, ligar, com os conhecimentos actuais, inferiores seguramente aos de amanhã, ligar a impulsividade, a emoção e até o sentimento (que já é mistura) ao Inconsciente (erradamente designado por Sub-consciente). E a racionalidade ao Consciente.

O problema é que o que está presente em mais de noventa por cento da nossa actividade mental é o Inconsciente, ou seja a tendência concreta, bem real, para a emoção e o impulso ganharem ao racionalismo (como Kant e Descartes se enganaram...). É por aqui que nos tramamos todos, e nos tratamos mal. Julgamos analisar umas atitudes pela Razão e assim estarmos certos, mas tomamos decisões pela Emoção e não estaremos mais ajustados ao que é bom para nós. E o seu contrário, também será verdade. No fundo, talvez passemos tempo demais a nos enganarmos. E, como todos sabemos bem, depois de nos perdermos (a muitos níveis, já não apenas o sentimental), damos o valor devido ao ser humano que nos era mais adequado. Disto, resta essa certeza, que é dura. E a outra que o "o tempo não pára". Afinal, a dada altura da vida, tudo devia ser já mais simples. Continuo a pensar que complicamos.


18.12.14

Porque falhou a Social-democracia no Sul?

 Numa Nação normal, ou numa Democracia saudável  e funcional, três intituições são basilares:

Estado
Primado do Direito (hoje muito questionado)
Responsabilização governamental

Os países do Sul da Europa, onde desde há quinhentos anos se assitiu à resistência católica pela luta pela libertação religiosa, por oposto ao que se passou no Norte, com a Reforma de Lutero, um princípio  tem-se mantido quase inalterado: o questionar o Poder, afrontá-lo e obrigá-lo a dar provas de mérito e de confiança.

Portugal não é o único país onde o terceiro ponto dos fundamentos mais básicos de uma Democracia europeia moderna não se verifica, ainda ao dia de hoje. Para alguns, os menos informados e menos intervenientes civicamente, ou para outros, os próprios interessados neste nebuloso e estrangulado Poder executivo, os políticos eles mesmos, por outro lado sequestrados por um certo poder económico, os actos eleitorais bastam ao exercício da responsabilização governamental.

Mas, ao invés do que é propalado, no Norte da Europa a tradição é exactamente a humildade na prestação de contas pelo poder executivo e Lesgislativo, perante todos os cidadãos, exerçam eles o direito de voto, em períodos demasiado espaçados para uma intervenção atempada e sensata na actividade governativa, ou não o exerçam sequer.

Este prestar de contas é um dos factores que tem impedido uma efectiva implantação da Social-democracia, o Regime político mais perseguido por maior número de países, pela Europa fora. Mas outros factores, menos evidentes, porventura, têm, a meu ver, sido responsáveis por este falhanço que hoje nos deixa numa situação delicada ao ponto de se questionar o Regime, como o conhecemos. 

Um sentido social e uma comunidade onde a serenidade de cada indivíduo não permite as tensões competitivas frequentes, as perniciosas e inúteis comparações, as conhecidas "invejas", perante aparentes, e até efémeros sucessos de outros.

A busca constante de excelência, mais do que a procura de um sucesso imediato, efémero, mas julgado eterno.

As tensões sociais anteriores, originadas pela profunda desigualdade, na remuneração e no acesso aos mesmos meios de evolução e ascensão social, bem patente nos paºises do Sul, desde há séculos, e cesrcente nos anos de crise, mas não exclusivo do Sul, embora no Norte onde a Social-democracia obteve sucesso, essa desigualdade seja a menos evidente, por comparação aos latinos, ao Sul. Talvez esta a razão e a causa fundamental, para que um Regime polºitico de cariz social não tenha conseguido singrar.

As personalidades políticas surgentes, neste Sul "mediocrizado", não t~em ideologia, visão, coerência, integridade e valires. São produtos de demasiados anos de uma deriva democrática, sem rumo, escrava de sociedades consumistas, numa busca de um bem-estar própriode países social e economicamente mais desenvolvidos. Este Sul onde impera o novo-riquismo e o enriquecimento  ilícito facilitado pela intencional desregulaçao das sociedades.

O sequestro político das direcções partidárias, por sua vez sequestradas por sectores económicos sem escrúpulos, que transformaram estas sociedades reféns dos seus interesses. As ideologias e a integridade são inimigas a abater por estes agentes económicos. 

As sociedades secretas, em permanente agitação conspirativa, que mantêm dossiers de todos os que se tentam movimentar na direcção da intervenção politica, eventualmente do Poder, e são, ao contrário dos seus membros, homens e mulheres livres. Estes grupos e sociedades Secretas, afastam todos e barram o caminho a todo o indivíduo capaz e livre. E não prestam contas a ninguém, e nunca se tem conhecimento do que por lá se discute, planeia e prepara.

A Social-democracia continua actual na sua concepção original, e nos seus pressupostos, de contruççao de sociades justas, e eququilibradas, com visão de desenvolvimento humano, soial e econºomico, pese embora as adptações aos dias de hoje.

Mas os factotes referidos são barreiras difíceis de vencer. Em Portugal, há quarenta anos que assim é. Já o era no tempo de Sá Carneiro, eliminado por ser uma barreira a todos os interesses que se opõem ainda hoje ao desenvolvimento soial e individual que permite uma Democracia social justa.

Instalaram-se na politica, numa primeira vaga, os antigos líeres, homens ligados a grupos conspirativos, como o Partido comunista e a Maçonaria.
Numa segunda vaga surgiram todos aqueles que perceberam a fragilidade de uma Democracia que não presta contas da sua Governação sos cidadãos, e que tudo fuciona com o alimento da relaçao pessoal, a construção das redes de influência, sempre na busca do sucesso imediato e não sustentado, e não com objectivos de remuneração social do desenvolvimento s+eventualnente açcançado. Mas antes nutrindo o gosto pela picardia mais baixa, sem conteúdo e sem visão. Sem moticvação para servir os outros, que nao a si mesmos.

A segunda vaga de políticos, todos ainda no activo, tem sido o lento funeral da social-democracia, outrora sonho e promessa de uma geração. Tem sido a ameaça maior da Democracia ela mesma, numa linha europeia do Norte, uma democracia que responsabiliza a governação.



9.12.14

Regime

Há momentos, há pessoas e há afirmações que me deixam perplexo. Leio, um pouco por aí, opiniões, umas citadas, outras em primeiro nome, de políticos sobre umas das discussões mais actuais a nível europeu. A discussao consubstancia-se numa necessidade, cada vez mais evidente e premente, e numa pergunta que vamos fazendo todos, pouco a pouco: o Regime que conhecemos e temos, serve hoje actualmente as populações, os cidadãos? 

Quando Rui Rio pareceu ter uma ideia da necessidade de alteração do regime actual, foi entendido, como questionar a Democracia. Li sobre as ideias de Rio, mas não o ouvi em lado algum (claro UE alguém ouviu, eu não) por em causa o actual Regime Democrático.

Hoje, li o que escreveu Rui Moreira, ainda em estado de graça, o actual Presidente da Câmara do Porto, que anda muito activo a distribuir disparates. Um dia destes estampa-se numa ideia qualquer, uma opinião absurda, como quem anda em excesso de velocidade, quilómetros a mais. Segundo Moreira andam a por a Democracia em causa, ao falar em mudança de Regime. Mas não é ele apenas que assim pensa. 

O  que me surpreende, deixa mesmo perplexo é a esta educação política dos actuais políticos. Eu sei...sei que devia estar já avisado de que neste tempo quem aparece na vida política, será, com grande probabilidade mais um medíocre. Mas no caso de Moreira, ele é outros, ocupar-se está faz-se em demonstrar o seu superior rigor, a sua quase infalibilidade opinativa e operacional. Até um dia acordarmos com mais uma surpresa. Mas o que interessa agora é esta discussão do Regime. 

Só por si, e contrariamente ao que muitos políticos dizem e gostariam, discutir o Regime é saudável. "Discuss" nessa língua com mais pergaminhos de Democracia do que a nossa é debater um assunto. E isso sempre foi saudável e expectável, uma essência da própria Democracia. Acho eu... Mas claro que os "instalados do regime" preferiam continuar assim, objecto de mordomias inaceitáveis e escolhas irresponsáveis. Podiam alguns, num inusitado esforço da inteligência, meter-se a pensar se eles mesmos não ficarão numa situação insustentável um dia destes, quando esta onda de alterações de Regime político varrer a Europa. Talvez Rio venha a demonstrar esta mesma inteligência, muito antes da inteligência (já duvidosa) de outros, muitos outros.

Repensar o Regime, pretender alterar de fundo, e profundamente, o actual Regime terá de significar por a Democracia em causa? Não! Um decisivo Não! Mas antes, defendê-lo e protegê-lo. Contra, precisamente, senhor Rui Moreira, populismos (já agora...dos quais o senhor não me parece nem distante, nem isento. Pareceu, sim. No início do seu mandato. Mas anda a dar tiros, sem conhecimentos de armas. A tal cultura política que falta a muita gente. Espero que não cultura democrática...).

O Regime precisa de profunda reforma, parece cada vez mais sustentável esta ideia. Não é por cá. É por toda a Europa.
 
As Democracias europeias tornaram-se reféns de Ricardos Salgados, e de uma Finança ainda muito mais poderosa do que o antigo "dono disto tudo". Tornaram-se hospedarias para oportunistas e corruptos, dentro dos regimes, do sistema político, e nas empresas. E, não nos iludamos, é só empresas que se alberga a mais poderosa e obscura corrupção. O ponto é que, como estamos, nem a corrupção pode ser investigada, combatida e estripada, os corruptos não aparecem um nunca são condenados. E a corrupção é o mais elevado custo de um Estado. Porque o dinheiro que por ela circula não é investido na Economia e não chega ao Estado. Só ele, seria suficiente para evitar qualquer resgate financeiro nos países onde este foi necessário.

Mas não é só o problema gigante e assustador da corrupção que ameaça estas Democracias europeias. É ainda um outro. A Desigualdade. Sim, a desigualdade, mesmo que muitos políticos (claro...) continuem a dizer que ela é natural. Será, pois. Mas nunca ao ponto de comprometer as possibilidades dos que são efectivamente capazes e funcionais, e se estrangule, assim, o desenvolvimento,humano primeiro, social, económico e tecnológico, depois.

A ausência ou a resistência das reformas das democracias na Europa, pode sim, por em causa a continuidade delas mesmas. Na continuidade do que agora temos, surgirão perigosos populismos, talvez muitos Berlusconis, ou Marinhos Pintos. 

Os políticos no desejável e expectável futuro próximo, terão de ser mais comedidos, frugais,responsabilidadzados. E não como diz Rui Moreira, os eleitores também o devem ser. Isso sim, é Populismo. Mas seria necessário educação e cultura política, para o entender. Dificilmente seria entendido por quem foi eleito num clima de ressabiamento, precisamente anti político, logo populista.

Reformar este Regime salva-lo-á. O contrário, sentencia-lo-á. Nota final...há quem vá falando em Governo Mundial. George Orwell irá ter razão? 

4.12.14

Momentos emergentes

Os Estados vivem, ciclicamente, momentos de uma necessidade particular, em que devem congruir e colaborar diversos factores e forças especiais. A nossa mente tem momentos de especial lucidez, de uma força aparentemente inesgotável e uma energia contagiante. Assim, também, as sociedades, por via da conjunção de diversas mentes, de pessoas com a clarividência acima do normal, com a visão impossível a tantos outros. Momentos emergentes. Momentos de uma espécie de concentração transcendental, social, neste caso.

Assistimos a um momento especial, talvez único, esperemos que não irrepetível. A Justiça que tão adormecida (ou amordaçada) andou, encontrou forças desconhecidas e lançou-se em operações de enorme envergadura e grande perigo.

Há perigos tremendos associados a esta investigações, num país com muito poucas tradições de prestação de contas aos cidadãos, com muita poucas tradições de transparência na vida pública. Perigos de manipulação secreta, de obstrução da actividade de investigação criminal. Perigos de "golpe de estado" sobre a Justiça, por parte e alguns, ainda, poderosos. A Maçonaria, essa perversa seita nunca até hoje ao serviço da comunidade, mas antes ao dos interesses obscuros dos seus associados, ao ponto de cada vez mais, em dificuldades nacionais evidentes, ela mesma ser usada por gente sem escrúpulos, pode ser uma das maiores e mais reais ameaças à acção de uma Justiça que renasce das cinzas. Mas outros perigos existem e alguns deles provenientes do lado mais frouxo e fraco, descaracterizado, sem coluna vertebral, da sociedade. O lado dos que nada entendem e nem querem alguma coisa entender, mas sempre procuram essa estranha justificação do injustificável, como defender um suspeito de grande e muito ameaçadora corrupção, pelos intrincado meandros do mau senso, quando julgam defender o Direito dando voz a "justificáveis segredos de justiça" e a direito de defesa, mesmo pela artimanha, mais do que pela lícita actividade profissional de um advogado intelectualmente suspeito. Nada justifica mais uma acção de investigação sobre crimes de corrupção do que o Real interesse de Portugal.

Num momento emergente, devia surgir uma individualidade de mérito e carisma inquestionável, como em tempos as houve, durante a segunda guerra mundial e mesmo no pós guerra, quando os políticos eram do peso de um Churchill ou, mais tarde, de um Kohl.

Hoje, em Portugal, penso que esperaríamos um Presidente com tal envergadura. Mas começo a entender a dificuldade do nosso actual Presidente, que teve o meu apoio oficial na sua primeira candidatura, mas não na segunda. Talvez sinta a mesma espécie de compromisso com esta gente que nos tem governado em ambiente de tranquilidade para os corruptos, que António Costa sente.

Era de uma atitude emergente de clarificação sobre o que se está a passar, deixando clara a necessidade maior da actuação da Justiça, como a temos recentemente visto, e acalmando as hostes, as duvidosas e comprometidas hostes de apoio ao "suspeito de denore", sobre quem recaem mais de oitocentista suspeitas.

Mas já perdi a esperança de ver uma atitude de integridade e autoridade moral por parte do nosso Presidente. E ninguém mais dá um passo em frente.

Não há nevoeiro matinal e D. Sebastião não aparece.

1.12.14

Reciclagem

De tempos em tempos...faço uma quase involuntária reciclagem de pensamento. Uma revisão do que sucede, tem sucedido e do que tenho sido, feito e pensado. Dou de caras com a vida pessoal, tanto como com a vida fora de mim, da minha sociedade, do meu país. E desse quero (voltar a) dizer umas palavras, já antes escritas.

Não somos um país de grandes ou escassos recursos. Somo um país (praticamente) sem recursos naturais. Mas vivemos um tempo em que os recursos que podiam fazer a diferença, não são os mesmos de outrora, são bem outros. Conta hoje um poder de negociação internacional político, e comercial, com base em produção energética, em petróleo, em capacidade industrial instalada. Não tanto os recursos mineiro de outra época, pois a dependência dos países é mais determinada por ter ou não petróleo e produção energética, mas também capacidade empresarial proveniente de negócios, à escala mundial, relativos a tecnologias e bens hoje preponderantes. Não temos nada disto. E quem tem? Terá a Suíça? Terá a Noruega? Não para a primeira, sim para a Noruega. Mas não é isso que hoje determina uma sociedade desenvolvida, onde o bem estar de todos, ou de uma esmagadora maioria é inquestionável. Como escreveu Fukuyama, o que hoje conta, e sempre contou, é a organização dos países, com fortes alicerces sociais. Com base popular sólida, participativa, informada e crítica. Exemplo de Fukuyama: Dinamarca.

A Dinamarca tem uma Democracia muito próxima do exemplar, e o ideal teórico que todos teremos em mente. Instituições políticas e sociais que funcionam, onde a corrupção não tem caminho, não singra. Gente política responsável e empenhada, que não está nessa forma de vida por interesse pessoal, para servirem um grupo e a si mesmos.

Que temos nós? Um exemplo gritante: Um ex-primeiro ministro corrupto até à país dos cabelos, ainda defendido por uns quantos cegos...diria, por uns palermas que sempre defenderão o grupo, contra todas as evidências. Lembro que também há, ao dia de hoje, os eternos estalinistas que dizem ser tudo mentira, sobre os crimes de Estaline, os maiores e mais atrozes de todos os tempos, provavelmente. Como não haver quem negue a evidência da culpabilidade de Sócrates? Como não defender um Barroso, um Cavaco, um Sampaio, um Soares, um Passos Coelho e, agora, um Costa?

Há quanto tempo esperam os portugueses por uma "aproximação" ao modelo de uma Dinamarca, de uma Finlândia, etc. Há quarenta anos? Ou há mais de cem? E a que distância estamos disso tudo? Mais próximos, como o mentiroso Soares foi dizendo e ainda insiste? Soares foi sempre um dos mais danosos e perigosos elementos da nossa (meia-) Democracia. E tanta gente se deixou levar por palavras, sempre desmentidas em actos (hoje ainda mais...será normal um ex-Presidente ir visitar e apresentar solidariedade um criminoso, um ser abjecto e inferior, como Sócrates? Acham as pessoas, mesmo, que um juiz pratica assim tantos erros, por uma qualquer cabala, que ninguém consegue explicar. Cabala para quê e porquê? Sócrates é assim tão importante, um salvador, um iluminado que todos temem e todos desejam a ponto de se elaborar uma cabala contra o verme?).

Quem foi e quem é Cavaco? E Durão Barroso? E Santana Lopes, Guterres, Sampaio, Sócrates e os agora (pseudo) líderes dos maiores Partidos? (Passos, Costa e Portas). Que pensam, que ideias boas e de valor têm? E que fizeram ou podem fazer?

Reciclagem do que penso...ou mais, talvez, do que vejo ainda pela nossa vida política. Que arrastará um dia, para fora desta vida social e empresarial, os tantos medíocres ou péssimos gestores que temos, também. E tanto que precisamos de outra gente. Que até já por cá está.

Portugal não precisa mais de Soares, Sócrates, Guterres, Sampaio, Cavaco, Costa, Passos Coelho. Não precisa e deve deixa-los fora do futuro que precisa ter. Quanto antes melhor.

Mas não é o que vejo. Ainda me revolto e aborreço e, sobretudo, preocupo. Quero ainda nesta vida, ver outro caminho e outro país. Onde a inteligência, a integridade, a personalidade marcante mas honesta, a capacidade de trabalho, façam sentido e tracem caminho, por cima do conhecimento pessoal, da influência de grupo, da conhecida e vergonhosa "cunha", que ainda é uso e abuso dos políticos de hoje, à descarada.

De quem depende esta reciclagem de personagens e um novo caminho? Deles, dos mesmos a quem não interessa mudar nada? Ou de nós, apáticos e mudos no seu próprio interesse? E como se faz? Pela escrita, pela net? Ou em todas as nossas atitudes e intervenções? Por exemplo, quem me diz porque razão gente inteligente e culta usa ainda o Acordo Ortográfico? Quantos berros necessitam ouvir para perceber que é um Acordo desnecessário, estúpido, mal feito, pernicioso para a língua e ilegal?

Não se podia começar por aí? E seguir para a exigência de uma luta mais intensa e determinante contra a corrupção? E para a substituição definitiva dos actuais actores políticos, sem populismo tipo Marinho e Pinto, ou outros, mas dentro das actuais organizações, com recuperação de ideias e projectos que ainda possam ter sentido, mas com a realidade actual bem presente?

26.11.14

Tenham vergonha!

Confesso um amor especial, coisa intima e nutrida com todo o meu empenho. Coisa que me faz ser o que sou, intransigente com princípios humanitários e de muito profundo respeito pelo povo que justifica toda a acção política e social, que sustenta uma Democracia, ainda que doente, ferida por gente que me faz trazer a público este amor confesso. O amor a uma aversão profunda: à Maçonaria e aos seus interesses, nunca confessados, panela onde são cozinhados interesses pessoais e de grupos. Uma aversão que me anima, ao ponto de quando um maçon se manifesta eu sentir logo um assomo de urticária. E quando se manifesta contra os princípios mais elementares que eles mesmo dizem (hipocritamente) defender, e nem quero saber o que defendem, tal a desconsideração que me merecem pessoas que conspiram e elaboram o seu plano de vida, no seio de um grupo que me dá asco...quando o que dizem é contra todo o interesse de uma sociedade onde se inserem...nem vos digo a reacção que me inspira. Fico-me por aqui.

Mas não me fico quanto às palavras de Luis Montenegro. Já la vou. Um dia estava eu a tentar perceber o interesse real do apoio à candidatura do PSD à Cãmara de Oeiras, quando entrou na sala Montenegro, conhecido maçon. Logo me mexi na cadeira...inquieto e preocupado por me saber na mesma sala onde estava tal estirpe. Não consigo aceitar as palavras de Henrique Monteiro, que um dia veio em defesa do seu grupo, Maçonaria, para nos explicar a boa vontade e intenção respeitável da sua instituição. Porque apenas vejo o resultado da sua acção, como grupo, na conspiração de que somos vítimas. E que contraria e desmente a boa intenção da sua sociedade secreta.

Ora, vamos à notícia de ontem. Montenegro dizia que consequências haverão contra os deputados do seu Partido que votaram contra o Orçamento. Não dedicarei muitas palavras à discussão sobre um Orçamento que nos vai deixar pior do que já estamos. Um OE ainda por cima incompetente e mal elaborado, onde os objectivos do próprio Governo não surgem claramente, ou nem sequer surgem, de tal forma que os agentes económicos e a sociedade em geral não poderá entender qual o rumo em 2015, que o Governo pretende para Portugal e todos nós. Medíocre. Mas vindo de gente medíocre, era de esperar. Mas triste e vergonhosa é esta defesa da disciplina de voto. Um dia espero que a mesma seja liminarmente proibida na Constituição. Trata-se de limitar a inteligência individual e o direito à sua livre expressão, em Democracia. Trata-se de por acima da liberdade de alguém responsável, como deve ser um Deputado, o interesse de um grupo, de um Partido, ou tão só de um Grupo Parlamentar. De colocar os interesses, correndo o risco de que esses sejam contra o povo eleitor (e interessa também o povo não eleitor, entenda-se), de um Partido acima de todos nós.

Inaceitável. Se há o risco de um OE não passar, porque dentro de um mesmo Grupo Parlamentar há Deputados que votam contra, o que há a fazer é apresentar Orçamentos de qualidade logo à partida e que não ofendam os direitos e a vida da maioria de nós, dos portugueses. O que não é o caso do OE 2015, manifestamente. E mesmo que fosse um excelente OE, o direito de estar contra o seu próprio Partido tem sempre de ser respeitado, mas sei bem que um elemento que adora pertencer...pertencer a grupos, pela manifesta incapacidade e triste inteligência, que o faz ter uma dependência confessa, como um maçon...entendo bem essa medíocre manifestação de incapacidade intelectual. Pois eu escolho um grupo por livre opção e por defesa de ideias e ideais muito similares às minhas. Não escopo primeiro o grupo e depois me insiro na defesa das ideias do mesmo. Nunca.

A disciplina de voto é uma vergonha. Nesta ou noutra qualquer Democracia. Se um Partido espera a defesa pelo voto, dos seus próprios correligionários, das ideias ou medidas que defende e quer tomar, deve fazer tudo para que as mesmas correspondam ao que se espera desse Partido, pela sua identificação política e social. Não são os seus membros que devem apoiar incondicionalmente, as acções da Direcção, mas esta que tem de corresponder ao que dela se espera, e particularmente, esperam os seus actores políticos, Deputados por exemplo.

Condeno e exijo, como cidadão, a demissão de Montenegro, que me envergonha como membro do mesmo Partido!


24.11.14

Processo Sócrates: Veremos o poder da Maçonaria?

Confesso a minha surpresa pela detenção de Sócrates. Confesso que também me surpreendeu a mediatização da sua chegada a Lisboa, de terem avisado um órgão de comunicação para ser filmada o automóvel onde seguiu para a esquadra. Tratado como um criminoso qualquer, indignaram-se os seus simpatizantes... mas um dia saberemos se ele foi, alguma vez, mais do que isso. Um criminoso qualquer. Pois para mim foi isso e mais nada, sempre.

Depois de muito ter lido e, sem necessidade de muita reflexão, que a criatura me mereça, reconheço, acho que é muito fácil entender-se as razões para alguém, no perímetro jurídico desta investigação, ter intencionalmente pretendido mediatizar. Só alguém muito ingénuo acredita que as tradicionais personagens obscuras e subversivas do PS não tentarão, como no passado o fizeram, com as escutas destruídas e outros movimentos tipicamente maçónicos, influenciar, manipular e impedir mesmo a continuação desta investigação e um eventual julgamento. Já o estarão a fazer, desde o fim de semana, não duvido.

Por estas circunstâncias, se entende a preocupação de um juiz em assegurar que o processo ganha outra dimensão e se evita a esperada manipulação, que outrora veio do mais alto cargo da Magistratura, com essa vergonhosa e subversiva intervenção do Supremo Tribunal.

Mas a mim precupa-me que Sócrates escape, mesmo assim! Isso é que será muito preocupante, pois a criatura tem sido altamente perniciosa e danosa, para Portugal. As mais perigosas actividades de subjugação da Democracia a um indivíduo, pós-ditadura, se devem a este sujeito.

Acho um tanto insensato, ou mesmo ridículo que se misture processos, essa intenção sim com vista a desviar atenções deste em concreto, sabendo-se o que acima explico: uma das defesas da continuidade da investigação é precisamente tornar pública a mesma e com tantos detalhes quantos os possíveis ou recomendáveis. Pois Soares e quejandos tudo tentarão para impedir a sua continuidade. E os socialistas que tanto insistem em mencionar outros casos, a decorrer, e que com razão devem prosseguir, sejam eles afectos a que Partido forem, só estão a tentar, eles sim, desviar as atenções do "camarada" Sócrates, um indivíduo de muito baixo nível como ser humano.

Nem a suspeita força da maçonaria...

Não irão conseguir, desta vez!



18.11.14

O que a vida não nos dá

Nós humanos parecemos andar pela vida à procura de um segredo qualquer, que um dia nos traga uma felicidade incontável e maior do que somos. Construímos ideias e ideologias, religiões e crenças,  teorias pessoais na demanda de uma verdade universal, não tanto universal quanto isso, para alguns, mas que lhes sirva como uma carapuça à medida para o seu fim pessoal. Um fim louvável, claro, e ainda mais, legítimo, de encontro com uma felicidade toda a vida procurada.

Os budistas, tidos como superiores, pelas suas práticas contemplativas e de sereno isolamento, têm como base da sua filosofia de vida e de procura de algo superior, que só atingimos esse patamar elevado, o Nirvana, quando nos libertamos totalmente do Ego. E julgam consegui-lo. Não usam, no entanto de um modo de vida que lhes permita testar isso mesmo, nem sequer se expõem à prova dessa convicção, antes fugindo à contemporaneidade, e ao quotidiano, uma forma de anti-depressivo que mascara a sua protegida realidade. Também são eles que propagam, como espécie de argumento incontestado hoje por quem vive o que se tem vivido nos últimos tempos, que toda a a vida é sofrimento. Mas vivem em consonância com uma religião que procura essa felicidade, que dizem não se alcançar.

Procuramos uma felicidade, ou até vamos dizendo a nós mesmos e aos nossos, que já deixámos de a procurar, numa resignação não totalmente genuína. Mas esperamos que ela apareça, como a chuva ou as tempestades que nos surpreendem. Sem o dizermos, vamos esperando por esse determinismo, algures registado, num qualquer livro insondável, por um Deus, ou um Arquitecto do Universo, por Algo superior, dependendo das nossas crenças.

Muitos de nós, a maioria, rejeitamos uma outra forma de vida, sentido uma aversão quase próxima do visceral e enjoativo, pelos que se dizem ateus. E nem nos perguntamos porque alguém se tornou ateu, ou pensa sê-lo. Provavelmente por de alguma forma ter descoberto que o encontro com essa felicidade não lhe vem de uma Providência qualquer, mas do seu esforço pessoal, nunca isolado, mas em sociedade, onde tudo se faz.

Por isso não entendemos os que traçam caminhos e voltam atrás nos mesmos, por se terem dado conta de o novo caminho iniciado não o conduzir a nada. Ou não entendemos a desistência na demanda, da maioria de nós, e o grau de infelicidade atingido, pela mal sucedida procura da felicidade. Pouco mais procuramos pela vida. O amor, o sucesso, a realização, o riso, o prazer, são formas de a procurar. A felicidade. Que a vida não nos traz. E temos nós de procurar. Em geral, não a encontramos, mais do que por momentos breves. Mas julgo que alguns encontram.

Vamos dizendo uns aos outros que para encontrarmos esse grau elevado de realização na vida, essa Felicidade, devemos exigir pouco, exigir de nós e de outros muito menos do que habitualmente fazemos. Mas não há receitas, nem comparativos que nos permitam dizer o que é menos do que alguma coisa, o que é demais ou que nem nada é. O que é exigir menos? E menos é um comparativo. Com o quê? É nos outros que devemos procurar um padrão, ou em nós mesmos e no que julgamos ter feito e procurado antes? E o antes, é desde quando? E refere-se a quê? Mais ou menos material, mais ou menos imaterial?

A vida não é uma Providência e uma Sabedoria em si mesma. Não nos trará um Segredo qualquer, uma Receita, para um dia almejarmos o que até esse momento não tínhamos conseguido obter. É em si mesma uma procura, como tantos filósofos o têm defendido, e não passará muito disso, apenas.

E, que se desiludam os que o tentam fazer sozinhos. O ser humano só realizou efectivamente em colectividade. A genialidade que parece vermos em ilustres figuras da nossa História não foi, e não é, mais do que um intenso labor de procura incessante, por uma vida inteira, de melhor e mais realização. Essa perfeição que nos parece vermos em seres que julgamos inspirados, só se distingue da nossa "normalidade" ou mediania, pelo intenso trabalho de uma vida. Na procura de mais e melhor, intelectualmente.

E nunca há dia para desistir. Mas sempre para continuar.

14.11.14

Estereótipos?

Todos estereotipamos. Mas nem todos, tudo valorizamos.

Entre amigos, conhecidos, familiares e desconhecidos, vamos criando estereótipos, mais ou menos reais, ou totalmente irreais.

Para cada um de nós "há o que" qualquer coisa. Há os que sempre nos falam apenas deles. Os que nunca o fazem, e os que esperam que lhes perguntemos sobre eles. E os que nem assim querem deles falar. Há os que gostam de falar, os que se cansam com isso, mas que gostam que outros falem, e os que se maçam com as duas coisas.

Há os sempre alegres, nem sempre o sendo efectivamente. Os sempre tristes, nem sempre o sendo, verdadeiramente. Os serenos, os dramáticos. Os próximos, os distantes e os alternantes. Há quem goste de carros pretos, sempre e apenas de carros pretos. Os que isso lhes é indiferente. Por acaso esta dos carros pretos parece uma epidemia que assolou o país. Pretos carros, mas apenas nos carros. Mas há os que tudo deve ser preto. Nunca percebi esta fobia da cor. Há até os que acham que flores é coisa de funeral. Coitadas das plantas e das flores.

Há os que sempre dizem "nunca minto", sempre útil na identificação do momento em que começam a mentir e nos podiam apanhar desprevenidos. Há os sempre disponíveis e os que o dizem e nunca estão. E há os que gostariam de estar mesmo e não podem. Há os que noa sempre nos fazem rir e os que adoram criar um motivo para nos fazer chorar. Há os que sempre são amigos, sempre nos fazem falta e nós a eles.

Na minha vida, conheci, tenho ou tive, pessoas, como todos nós, muito distintas, e muitas com aspectos comuns entre elas. As que falam muito mas nem por isso me cansam, nem por um segundo. E que falam, e sabem falar, de tudo. As que falam pouco, mas são incisivas. As alegres e as deprimidas, mas nunca ao ponto de curvarem a forma de ser sobre si mesmas e andarem pela vida enroladas. Mas há as que me cativam pela voz, desde há muito, ou desde há pouco, mas nos primeiros segundos, o seu timbre logo me agarra. Só pelo timbre já me silenciaria (uma proeza difícil) e deleitaria em ouvi-las. E as que o timbre é pouco agradável, mas que o conteúdo é estimulante. E há a mistura dos dois tipos (uma voz encantadora e uma conversa que me prende e cativa).

O que me pergunto é se estes estereótipos existem assim, ou parte será da minha criação interior?

Mas gostos dos meus. São os meus estereótipos queridos. Mas são mais, são pessoas que me animam e são promessa de dias bons.

7.11.14

O Navegante

Morris West foi um dos autores de que li mais livros, há muitos anos, pela adolescência. A obra que o tornou famoso foi "As sandálias do pescador". Escreveu ainda mais dois, ou três, livros sobre o Vaticano, a Cúria Romana, tradições que West conhecia bem por ter sido monge.

Escreveu um livro que considero uma obra mediana, mas com alguns aspectos que me deixaram marcas na memória. O Navegante.

A história de um homem que procura uma ilha lendária, onde diziam que os navegadores se dirigiam para os últimos dias da sua vida. A imagem que guardo, distante, era de um fim sereno, quase aprazível, quando se tinha a certeza da vida estar a terminar. Uma viagem calma, num mar imenso até uma ilha que servia de depósito de vidas longas e de segredos nunca contados. 

Era uma escrita sem grande brilho, mas uma história com ingredientes, não totalmente explorados, onde se misturam mistérios ancestrais e a vida moderna, de homens e mulheres que redescobriam o amor e o desamor, a amizade e a vida tribal que nos é contada um tanto superficialmente. 

Jared Diamond, um iminente antropólogo, tem escrito sobre estas civilizações do Pacífico sul e do Índico, sobre sociedades onde observou vestígios de uma vida ancestral tribal, em transformação, com um processo de ocidentalização a decorrer, mas em mistura com tradições e imensos dialectos. Sociedades que deram um salto gigante no tempo, mas ainda guardam muitos dos traços de outrora.

O romance de West lembrou-me este ensaio excelente "O mundo até ontem", fascinante, como todas as obras de Diamond. 

Uma vez por outra, imagino-me assim, a viver distante de todos os meus, numa ilha tranquila, a vender cocktail a turistas, de calça e t-shirt todo o ano, regressando ao meu país de quando em vez, para rever os meus entes próximos, filhos e amigos queridos, mas sempre voltando a um paraíso de silêncios, leituras, passeios, temperaturas amenas, e sem pressões sociais ou outras. Imagino-me, utopicamente, a terminar os meus dias como o navegador, metendo-me numa canoa, num mar pasmado de calma, um espelho do céu, a percorrer as últimas milhas até ao repositório de uma vida. Esperando ali, sozinho, em pensamentos provavelmente confusos, de tudo o que fiz de errado, de tudo o que tentei, do que consegui, e do que nem alguma coisa queria, aguardando, ao ritmo dos dias, pelo último deles.

A imagem pareceu-me a do cemitério ideal, rodeado da beleza de uma ilha distante, de que ninguém sabe o paradeiro.

Devem ser os dias menos esperançosos que me fazem regressar a estas imagens do futuro que não irei ter. Um dia talvez encontre alguém que me queira acompanhar até uma ilha, um Curaçao, Aruba, Belize...para a tranquilidade que este Ocidente turbulento já não me trará. Ou vou apenas sonhando com essa ideia. 

Li, por estes dias, sobre uma forma de meditação, "meditação mente aberta". Nunca me interessei muito por alguma espécie de meditação, mas afinal, ao ler aquilo, percebi que com certa frequência, muitos de nós andamos próximos de o ter feito. Ou passado por um outro estado, não sei se equivalente, mas com capacidade de nos alterar emocionalmente, fornecendo um conhecimento mais próximo do nosso inconsciente, e quase conseguindo identificar essa ponte difícil entre consciente e inconsciente, de que se desconfia vir o nosso controlo mental total. Já sobre yoga, tive curiosidade, mas nunca pratiquei. 

Não sei se algum tipo de meditação, algum exercício de concentração, próximo da conhecida concentração transcendental, que nos permite fazer, estudar, criar algo com o mínimo de esforço, num momento de total exclusão em relação ao meio que nos rodeia, nos permite esse conhecimento da ligação do nosso sistema 1 e 2, inconsciente e consciente, a que chamam Sabedoria. E de que se diz que os monges no Tibete há muito conseguem, sendo que o conhecimento actual das neuro-ciências parece confirmar. 

Mas fascina-me que cada vez estejamos mais próximos deste entendimento do que afinal nos comanda, e comanda o mundo. E que um dia possamos entender o caminho para um melhor controlo das nossas próprias percepções, ideias, conflitos internos, angústias e momentos de realização e sentimento de felicidade. Tal como me fascina a ideia de tentar um dia algum modo de meditação. 

No fundo é essa a imagem que deixa o "Navegante". E ainda podemos adicionar um melhor conhecimento de tudo o que nos antecedeu, pois a nossa mente, a de cada um, tem milhões de anos, muitos mais do que a nossa vida, com todas as marcas deixadas por uma cultura de que conhecemos parte, ou anterior a nós e nos fez assim. Do melhor conhecimento da nossa própria mente, única, mas com muitas semelhanças à de muitos que conhecemos, sendo todos resultados sociais numa mesma cultura, pode surgir um controlo sobre receios, terrores e ansiedades, mas também dos supressores da nossa inteligência, que a teoria da Inteligência Positiva, sucessora da Inteligência Emocional, segundo os seus investigadores, designa de "sabotadores".  O conhecimento desses sabotadores é, de acordo com o seu mentor, uma forma mais rigorosa de avaliação das nossas capacidades mentais, após o descrédito do QI e a evolução do QE (Quociente Emocional). 

Os actuais conhecimentos de neuro-ciências podem trazer-nos uma vida melhor no futuro próximo? Mas talvez nós mesmos, com exercícios de concentração, de alguma meditação, possamos atingir outro conhecimento de nós mesmos. Uma actividade criativa absorvente, ou mesmo uma actividade intelectual exigente, como ler algo de profundo e que demande muita capacidade mental, ou ouvir música tentando perceber a sua construção, o que pode ter inspirado o compositor, as imagens que nos ocorrem e tentar descreve-las, para nós mesmos, podem ser novidades nesse importante conhecimento do que somos e como agimos. Está documentado que a actividade mental intensa pode dar-nos melhor qualidade de vida, com mais saúde e mais longevidade. 

Pelo menos, pode dar-nos mais prazer e já é muito.



6.11.14

Portugal país valente e imortal

A Oposição diz que continuamos em crise. Ou seja, assume, nem diz muito. O Governo diz que estamos a sair da mesma. Claro que instituições que definiram e apoiaram a austeridade que ainda sofremos (pelos vistos para o Governo já não), concordam com o novo "despertar" de Portugal. Mas, rigorosamente, num assunto onde dificilmente pode haver rigor, o que define estarmos em crise ou não? Pires de Lima, incansável, e inegavelmente inteligente, tem-se desdobrado em esforços para demonstrar que estamos melhor, não bem, mas muito melhor. Rui Rio, não parece concordar, pelo menos pelas mesmas razões. Fala em crise política, ou crise da classe política actual. Bem...pelo menos alguma crise deve haver, pois poucos serão os portugueses que sentem estar já livres do sufoco em que estavam...há seis meses, ou nove. O que define estarmos em crise??? Coço a cabeça e...não consigo perceber como podemos estar ainda em crise, apenas porque ainda temos mais de um milhão de desempregados, e entre eles os mais jovens os mais afectados, e os mais velhos, os sem esperança. Não é já um milhão? São apenas 850 mil? Então..sim, saímos da crise. Deve haver um número qualquer que define saída dos problemas e da crise. O pior é para os que ainda ficam nesse desemprego que lhes retira quase toda a esperança e todos os direitos de cidadania, ainda se sentem bem enfiados no buraco do desespero. Mas deve haver um valor qualquer, fronteira entre crise e saída dela. E a desigualdade sentida, a barreira de acesso a patamares importante na vida? Como pôr filhos na Universidade, como aspirar a uma classe acima da da sua origem, a chamada mobilidade social, contribuição decisiva para a mitigação da desigualdade. Essa mobilidade é um dos factores que podem contribuir para uma sociedade mais interactuante do ponto de vista de participação cívica, mais criativa e geradora de novas oportunidades. Mas talvez, afinal, ela já esteja em grande velocidade, porque a crise terminou. E a maior subida de impostos de sempre, não em valor absoluto de cada um, mas pela abrangência, também não indica qualquer crise. Porque sentimos nós, pobres mortais, que olhamos para o alto da pirâmides, de onde quarenta séculos nos contemplam (como disse Napoleão em Gizé), e onde agora nos olham (sobranceiramente) os iluminados nossos políticos, que ainda não podemos ter uma vida normal, comer normalmente, sair de casa para um café com os amigos, e ter a extravagância de beber um vinho num restaurante? Ou mesmo o absurdo de fazermos um fim de semana com a(o) namorada(o), ou com os amigos? E porque os nosso filhos se queixam de tanta coisa, dificuldades com aquisição de livros para estudar, menos comida em casa, ou falta dela, roupas quase andrajosas...é o carácter caprichoso e culpa dos pais. Nem todos tivemos as inteligências brilhantes dos nossos políticos e empresários fantásticos, para sabermos educar os filhos, educar-nos a nós mesmos e vermos os mais do que evidentes sinais de fim da crise e da recuperação espectacular de Portugal, nação valente. Nobre povo.

Andam para aí uns malucos com a mania de mudar o Regime (mas eles referem-se ao alimentar), de renovar não sei o quê, de não confiar nem em Passos nem em Costa (mas Júdice diz que o melhor para governar Portugal é Costa. Ele sabe o que é governar? Pode ser. E ser governado? Duvido, pois sempre se "governou" bem), de não acreditar nos resultados brilhantes desta austeridade. Gente doida e mal agradecida a tais inteligências do PSD e do PS actuais. Temos, é claro, o contra poder. Sindicatos maravilhosos, de gente séria e profissional. Temos também o corporativismo médico, o jurídico e o dos professores, assim, de repente. E isso é a inveja da Europa. Ah! E o PCP, o único na Europa que ainda surge nos órgãos de comunicação. Isso sim, é bom.

Com todo isto, onde anda a crise? Só vejo excelência.

Nação valente e imortal (à venda aos chineses?).

Vem aí novo Caminho?

José Gomes Ferreira sugeriu uma possibilidade para Portugal. Uma alternativa para esta Democracia, neste momento, sem saída. Estamos encurralados entre os grupos que dominam os nossos Partidos todos e os habituais interesses económicos, que nos têm trazido reféns de decisões erradas e de interesses obscuros. 

Porque razão nem um Governo se interessou por dois problemas nacionais prioritários: Corrupção e Desigualdade social?

Porque nunca alguém de valor, com ideias distintas desta doentia praga que nos assola, destes grupos de gente menor que controla os aparelhos partidários, consegue sequer entrar em um grupo de discussão dentro dos Partidos (os principais, os outros nem da Democracia querem saber, muito menos de nós)? Porque se tornaram impermeáveis a simpatizantes e militantes com ideias válidas, mas independentes de grupos formados e fechados para sequestrar a nossa vida política? Todos sabemos boa parte das respostas, não interessa muito explorar este assunto por esse lado.

Pela Internet leio muita gente de valor que pensa o mesmo de José Gomes Ferreira. A eventual criação de uma força política que arrede do poder esta gente inferior e perniciosa que hoje temos. E porque não se dá um passo nesse sentido? Já tarda...

Têm surgido algumas individualidades com ideias supostamente diferenciadoras dos actuais políticos em funções, mas sempre se vem a verificar que nem são melhores, como até serão piores, em interesses apenas pessoais e mesquinhos.

Mas é estatística e liminarmente impossível que em Portugal não se consiga um movimento de gente de grande valor e honestidade, com espinha dorsal, sentido de Estado, visão, coerência e integridade. 

O nosso problema, quanto a mim, reside neste fenómeno muito negativo do qual ainda não nos libertámos, que nos atingiu com a Globalização há uns anos, e com a crise, recentemente. Encontramos-nos como uma sociedade dispersa, atomizada nas pessoas, nos seus valores, nas suas competências. Fragmentados. Muita gente de valor está em más condições para se apresentar como pessoas válidas, relegados para planos sociais inferiores ou marginais, fruto das transformações no mercado de trabalho, da fragmentação e dispersão das famílias e grupos de amizade e discussão séria.

Quando olho para os nossos políticos e penso...mas quantas pessoas conheço pessoalmente que têm muitíssimo mais valor e capacidade do que esta gente...porque estão estes em funções, no poder, executivo, legislativo ou mesmo na Oposição? Porquê? Porque tiveram a iniciativa de entrarem em forças partidárias, através de grupos de controlo e manipulação perversa das mesmas, para fazerem da política um instrumento dos seus interesses pessoais e de grupo. E os outros, precisamente os íntegros, nunca o fizeram, e se mantiveram afastados, pelas razões opostas aos actuais medíocres. Por diversas razões, de interesse profissional, porque também a política se lhes tem apresentado como uma actividade indigesta, que lhes provoca azia...(para dizer o mínimo).

Mas por todo o lado têm surgido iniciativas, grupos de discussão e estudo, que se constituem por pessoas de valor inquestionável e, seguramente, outra humildade, honestidade e visão inteligente. talvez nos surjam daí as alternativas. Talvez ainda outras tenham de se formar.

Este é um assunto em que "esperar para ver" se torna já excessivo e preocupante. Não é, como nos tem sido dito por alguns suspeitos interessados em manter a actual situação, da qual vivem, um caso de "conhecimento de dossiers". 

É o caso de se encontrarem pessoas com os valores que já sabemos serem fundamentais, gente...com valores, que não os actuais políticos (não todos, claro) que nem os têm. 

É mesmo O Assunto. 

5.11.14

Uma revolução silenciosa

"Olhem para a sociedade em que nos tornámos: somos uma nação bipolar, um Estado burocrático centralizado que preside a uma cidadania crescentemente fragmentada e demissionária".

São palavras de Phillip Blond, filósofo britânico sobre o seu país, mas podem aplicar-se quase à perfeição a Portugal (e a outros países europeus. Parte da doença, ou crise social e emocional que grassa pela Europa, que tem gerado políticas erradas, no Estado e nas empresas, e líderes medíocres. Tempos de desorientação não geram líderes sólidos, inteligentes e bem formados).

Países como Portugal não estavam preparados para o que tem vindo a suceder desde os anos oitenta e noventa, a alguns anos depois de 2000. A entrada na CEE, a globalização, trouxeram novidades à nossa sociedade, nem todas boas. A globalização, em particular, trouxe consigo efeitos perversos, para os quais nunca estaríamos preparados.

Lembro-me de na multinacional alemã onde estava, por volta de 1995 se começar a falar em profundas transformações estruturais da empresa, que apanharam de surpresa os mais antigos, e os chefes da altura, que, numa primeira abordagem (como é comum suceder numa empresa assim, em que os chefes conhecidos são poucos e os que decidem estão muito distantes, sentindo-se esse clima de distância, de grande desnível hierárquico e de algum medo, pelo desconhecido. Alguém distante e hierarquicamente intangível é sempre alvo de um misto de respeito e medo, por não haver contacto próximo e existir um desconhecimento sobre o controlo emocional, perante um desconhecido) abraçaram a "mudança" para pouco depois serem os primeiros alvos de um despedimento que foi apenas internamente vivido e muito silencioso. Eu dependia da Alemanha e passei a depender de Espanha, momento em que se foram degradando as condições de trabalho, na altura muito privilegiadas. Em Espanha havia um chefe alemão, mas um jovem extremamente ambicioso, da geração que cresceu com a globalização, com a moda das grandes fusões de empresas já gigantes, e com a frieza dos números, a obsessão dos rácios, e uma falsa empatia, rapidamente traduzida em despedimentos graduais, sector a sector, num ambiente incaracterístico no que outrora havia sido uma empresa onde trabalhar era um prazer e se fizeram amigos para muitos anos. A estratégia foi confundir as pessoas, introduzir tecnologias que nem todos conseguiram acompanhar, colocar pessoas em funções de maior responsabilidade para logo depois as retirar, e dividir toda a gente. Este processo, que se iniciou muito com empresas alemãs, e se deu entre 1995 e 2002, foi um dos primeiro passos de transformação social e desintegração, social, familiar com profundas sequelas emocionais. Transformou toda a gente. Uns pela negativa, tendo após isso sempre imensa dificuldade em substituir um emprego altamente valorizado e qualificado por funções em empresas medíocres, muitas delas nacionais. Outros, por algum tempo, ainda usufruíram de negócios emergentes, fruto da desintegração das empresas.

A globalização e as fusões de empresas, que a acompanharam, transformaram profundamente a sociedade portuguesa, com consequências para empresas internacionais e reflexos nas empresas portuguesas. No seu rasto ficaram famílias com problemas de entendimento do processo, que a pouco e pouco se foram desintegrando. A sociedade foi sofrendo as consequências. Alguns dos que conseguiram ficar nos "barcos", ainda nas empresas que iam fechando ou despedindo colaboradores, e que foram enviados para comissões no exterior, transformaram-se como pessoas, nunca mais sendo os mesmos. Desses, algumas famílias se "esfacelaram".

Paralelamente, com a abertura do país e a globalização, foram surgindo espaços comerciais que vieram a ser decisivos, por um lado no acesso muito mais facilitado dos consumidores, eles também em processo de transformação dos horários de trabalho, fruto de novas ligações internacionais, e sem o tempo de que antes dispunham, por outro lado, fazendo desaparecer grande parte do comércio tradicional, mais próximo dos consumidores, mais amistoso e com um tipo de relações interpessoais que hoje só se vislumbra em pequenas povoações, fora das grandes cidades. As relações emocionais de outrora, foram-se desvanecendo, ou desapareceram de um momento para outro.

As novas ligações profissionais, a aprendizagem de novos costumes, a assimilação e adopção de hábitos, de trabalho e pessoais, distintos dos que nos caracterizavam, foram transformado a nossa sociedade, atomizando-a gradualmente, chegando-se ao que hoje temos, acrescido do efeito internet e que agarra as pessoas a casa, a contactos à distância de mensagens, comentários em redes sociais e a telefonemas, diminuindo assim, os contactos interpessoais directos. Com o mesmo processo, a natalidade foi drasticamente atingida. O tempo mais alongado para formação superior, seguido da formação intra-empresa, as viagens e comissões prolongadas no exterior, e as elevadas exigências em tempo e dedicação, agarraram as pessoas à profissão e afastaram-nas de uma vida familiar. Atingiu-se de morte a natalidade. Feriram-se mortalmente as relações em sociedade, grupo a grupo, família a família.

Outros factores contribuíram ainda para esta descaracterização temporária. A mania da tecnologia e de um mundo que dela depende e que ela tudo vende. A tendência tonta para passar a moda ao Ensino. Portugal não estava, igualmente, preparado. O choque tecnológico foi um dos maiores disparates do Governo desse vazio de ideias de nome Sócrates. Porque tudo veio no fim do percurso, mas um homem inculto e sem formação, não tinha capacidade de entender. Quando o mundo muda de paradigma, do tecnológico para o conceptual, tenta-se forçar um país a entrar na era da tecnologia. Que sempre terá lugar e ainda muito desenvolvimento, mas os pólos do mesmo, estão já deslocados para outras áreas geográficas, pois as condições produtivas e de competitividade nunca por cá foram criadas e em sociedades que relembram os anos do Taylorismo, agora a oriente, essas condições nem precisavam existir, tal a abissal diferença entre custos produtivos e de remuneração do trabalho. A impreparação da sociedade desorientou-a. E nada aconteceu de significativo, em termos económicos, que se considere compensador das perdas sociais e pessoais.

Ainda, para apenas mencionar alguns dos factores, a Energia. A dependência do exterior. O controlo dos custos de produção, de produtos e serviços, por alguém que não nós. E novamente alguma deslocação de decisão que teve reflexos sociais, porque os teve económicos.

Creio que este processo não é português, mas que Portugal estava especialmente impreparado para ele. Creio que este processo irá estabilizar, pode até já estar a suceder, dado que actualmente há outros processos em curso, que valorizam menos os profissionais, e atingem da mesma forma os grupos, famílias e sociedade. Mas são distintos, porventura mais desumanos, porventura e de alguma forma, inversos do anterior.

Creio que dentro de alguns anos, a sociedade portuguesa já entenderá estes processos, pois houve um tempo em que estava demasiado fechada ao que já ia sucedendo lá fora. Provavelmente um tempo chegará em que as relações se estreitarão novamente, as famílias estabilizarão, as amizades recuperarão a emocionalidade de antes. Um dos nossos problemas foi, talvez, nunca ter valorizado o lado emocional de uma sociedade. Com o efeito atomizador, que levou a uma grande dispersão social e a uma desagregação de interesses colectivos, ficámos pior e muito mais expostos a manipulações poderosas, orquestradas por gente que vive da desgraça dos outros, literalmente, das dívidas soberanas e dos seus juros, do empobrecimento provocado, para desequilibrar umas sociedades, em proveito de outras. Ainda estamos nessa fase. Em Portugal e na Europa. Onde menos se sente, foi onde se geraram estes movimentos, intencionais.

Ficámos também piores em mobilização social. Hoje sofremos as consequências, desta nova paz podre, sem indícios de intervenção mais directa dos cidadãos.

De uma forma natural, porventura, re-encontraremos a nossa cultura social, as nossas relações emocionais em sociedade. Não sabemos, parece-me, é em que ponto dos vários processos nos encontramos, e o que ainda será recuperável do que nos identificava e nos unia, socialmente. Não sabemos quando acontecerá nova viragem, ou quando estabilizaremos. Mas há que voltar a encontrar a Nossa Sociedade, alguma dela.

Talvez só após esse momento conseguiremos perceber o nosso Desígnio, que por agora não é o nosso, aquele que vivemos. E traçaremos, então, uma Visão para Portugal. Mas há que limpar esta Democracia, da corrupção que a consome e aos seus recursos económicos. Há que a renovar com outra gente nas lideranças, processos que provavelmente acompanharão todas as outras transformações.

Neste momento estamos, penso, na Idade Média dos tempos modernos, à procura de um reencontro com o que já fomos, mas inseridos num mundo muito distinto e em mudança quase permanente. É o nosso momento cinzento. Que aguarda, com o nosso empenho constante, sem passividade, por um Tempo Novo.


4.11.14

Até que ponto somos uma sociedade?

"Em sociologia uma sociedade (do latim: societas, que significa "associação amistosa com outros") é o conjunto de pessoas que compartilham propósitos, gostos, preocupações e costumes, e que interagem entre si constituindo uma comunidade.
É um grupo de indivíduos que formam um sistema semi-aberto, no qual a maior parte das interações é feita com outros indivíduos pertencentes ao mesmo grupo. Uma sociedade é uma rede de relacionamentos entre pessoas. Uma sociedade é uma comunidade interdependente. O significado geral de sociedade refere-se simplesmente a um grupo de pessoas vivendo juntas numa comunidade organizada."

Somos um conjunto de pessoas com propósitos comuns, provavelmente. Certamente com idênticas preocupações, gostos próximos e costumes. O que é parte de definição de cultura de um povo. "Interagem entre si", claro, interagimos. Mas para mim esta definição é curta, penetra pouco no conceito que pode definir uma sociedade, diferenciando-a de outras. A interacção numa comunidade pode existir quando estamos em viagem, interagimos com uma sociedade que não é a nossa, mas isso também depende do âmbito da definição. E aqui, podíamos entrar com o conceito de sociedade europeia, etc. 

Para mim, no entanto, sociedade implica uma interação pelos tais interesses comuns, que podem ter implicações para com a mesma. Por exemplo, um problema nacional. Tivemos uma interacção forte e bem evidente quando defendemos causas, como a independência de Timor (que agora nos agride com expulsão de juristas, parece que por terem iniciado investigações incómodas para o poder político de Timor). 

Se esta ideia for aceite pelo mesmos membros de uma sociedade (não me parece propriamente uma interacção a discussão de um resultado do futebol, ou do episódio da novela do dia anterior. É interacção, ou mera comunicação? Trata-se de um processo de análise superficial, e em que não há alguma decisão que implique a vida da sociedade), talvez se ponha em causa o vivermos efectivamente em sociedade. A nosso passividade colectiva, perante problemas comuns de imensa importância, decisivos do futuro comum, penso por em causa esta interacção e, pelo contrário, emergem os assuntos e preocupações individuais em grande destaque face aos colectivos. Também são de extrema importância. Mas o caso é que os problemas familiares e individuais podem, ou de facto, se ligam aos colectivos e deles dependem, na percepção, análise, reflexão e decisão.

Nem sempre é assim e julgo identificar bem, noutros países, sociedade coerentes e com vida activa na discussão de assuntos de interesse comum e na procura de soluções. Mesmo ao lado, em Espanha. Em quase todos os países centro-europeus e nórdicos. O interesse pelo que é comum, a sua defesa, a participação nesses interesses é, parece-me evidente, bem distinto do que em Portugal observamos.

Não entendo as razões, as origens desta sociedade "individualista", deste viver em "ilhas", em que cada um julga poder resolver problemas que, afinal, são do colectivo. E todos sabemos bem de que problemas se trata, de que assuntos dependemos da comunidade, e nunca os resolveremos individualmente. 

Numa sociedade "aos bocados", constituída por essas ilhas, que são os nosso grupos pessoais, ou apenas as nossas famílias, é muito mais fácil governar quem é totalitário, ou apenas autoritário. É bem mais fácil que os grupos de corrupção singrem. As sociedades secretas ganham outra dimensão e capacidade de manipulação. Os problemas colectivos arrastam-se. A organização de um colectivo, e de um movimento torna-se quase impossível. Também não somos o único país a sofrer desta realidade inquietante. Penso que em Itália o problema ainda será mais grave, mesmo dentro de uma única cidade. Mas Itália é um país jovem, nascido de muitas comunidades, historicamente invadidas e colonizadas por diversos povos, com imensos dialectos de cidade a cidade. Portugal é o mais antigo país europeu, com as mesmas fronteiras e língua. 

Precisamente na defesa da língua verificamos a inexistência de uma coesão social. Este Acordo Ortográfico (AO) seria impensável numa França, numa Espanha. Um AO que está a confundir toda a gente e a destruir a língua portuguesa. Nem era necessário, e está tecnicamente muito mal feito. Foi o capricho de um homem ridículo que sempre pretendeu protagonismo, que não almejava na sua Universidade (Malaca Casteleiro). E o curioso é os seus antigos adversários na Faculdade apoiarem o seu AO, apenas por ter sido imposto por outro idiota português, o mais mal intencionado dos políticos em centenas de anos: José Sócrates, um inculto que rouba títulos académicos que não pode legalmente usar. 

Mas o mais grave dos sinais que me leva a pôr em causa sermos uma sociedade autêntica, coesa, é a nossa apatia perante esta política de muito baixo valor, de inferioridade intelectual, que serve interesses de grupos minoritários, e que se reveza no poder entre os dois maiores Partidos. Assim se desenvolvem os interesses e se mistificam as verdades. Durante anos assistimos a uma silenciosa propaganda, vinda do poder político e do financeiro, da solidez da nossa Banca. Da seriedade dos banqueiros e da sua infinita superioridade e sabedoria. Lemos agora, dia após dia, sobre a extrema fragilidade dos bancos portugueses, sem excepção. O banco que em Portugal opera mais sólido e digno de confiança...é espanhol, o Santander. Todos os bancos portugueses denotam agora a sua baixa qualidade, eficiência e fragilidade financeira. 

Mas outros "casos" nos despertam, ou deviam, para esta genuína falha na nossa construção social. Atentando no que em Espanha se passou nos últimos dias, com a prisão de dezenas de políticos, temos por cá gente condenada que nunca cumpre pena, que vive como sempre, faustosamente, e vai de recurso em recurso tentando ilibar-se do que realmente cometeu. Maria de Lurdes Rodrigues, que insiste numa conspiração contra os políticos. Armando Vara que insiste no mesmo e no ar cândido. E todos os outros que nem investigados foram e de quem as evidências de crime se foram destruindo, pelos próprios tribunais? Como é possível um alto Magistrado, que devia dar o benefício da dúvida a uma investigação ainda por iniciar, que devia confiar no sistema em que o próprio se insere, que devia confiar, em último grau no próprio "amigo" que safou, mandar destruir provas, antes mesmo de analisadas em processo de investigação e instauração de processo, antes mesmo de análise num eventual julgamento? Isto não é pôr em causa o sistema judicial de que faz parte e é o seu mais alto dignitário? E este não era um assunto de interesse do grupo, do magistrados em geral, dos juristas e, bem mais, da sociedade em geral? E se Sócrates for mesmo o corrupto perigoso que se serviu do Estado para enriquecer, como o fez, passando de um indivíduo de origens modestas a milionário, sem que tenha tido outra vida que não a política? É assim que se tratam os assuntos do interesse comunitário? Quem se julga o Presidente do Supremo Tribunal, para decidir de forma irreversível o fim de uma investigação, antes dela se iniciar? Acima da própria sociedade? Eu sei bem que muitos juízes sofrem dessa deformação, de pseudo-superioridade, legal e mesmo moral. Que não lhes reconheço apenas pela sua condição profissional. Ser juiz é uma profissão, e nem que fosse uma religião lhes reconheço essa superioridade. Aliás, foi bem patente a inferioridade, recentemente, pela decisão do Supremo Administrativo. Idiotice e ignorância. E muita falta do mesmo sentido comunitário!

É esta ausência de sentido comunitário que me deixa dúvidas sobre esta "sociedade", em ser isso mesmo. As acções não são interacções, mas apenas actos unilaterais, sem o envolvimento de membros da comunidade. 

Não julgo que consigamos ultrapassar grandes problemas, sem grandes atitudes, colectivas, em que toda uma sociedade se empenha. Sempre confiamos em poucos, para "resolver" problemas de muitos, de todos nós. E sempre nos desiludimos, pois precisamente o princípio é o mesmo: cada um trata de si e "dos seus".

Como se resolve? A tomada de consciência é o primeiro passo. Mas não descuremos a importância maior de alguém com carisma e respeitabilidade. Seria, no caso, o Presidente da República, mas temos uma figura amorfa, que apenas parece viver de glórias passadas, imagem irreal de si mesmo e aguardar pela aposentação definitiva.

3.11.14

Serão sinais?

Que sinais estamos a receber nos últimos tempos, pela Europa e pelo Mundo? Serão mesmo sinais a que devamos dar importância? Aos acontecimentos, sim. Mas a catadupa de acontecimentos imprevistos, na Europa principalmente, quererão dizer alguma coisa que ainda não sabemos descortinar?

Os aviões russos. A possibilidade de recessão em países que há um ano mostravam solidez e estabilidade económica: Finlândia, Alemanha, França (Holanda?). As duras palavras (e ameaças) entre Merkel e Cameron. Os excessos à porta da Europa, na Turquia. Os populismo que continuam a singrar, no Norte da Europa. E veremos se não alastram a Portugal e Espanha. Um Presidente da Comissão Europeia sem obra alguma que recebe a mais elevada condecoração da República Portuguesa. Os casos de Corrupção em Espanha, às dezenas (que esperamos sim, alastrem estas prisões a Portugal). O regresso sempre estafado e insuportável de líderes de outrora, sem obra e muito jogo de interesses escondido, em Portugal. A continuação de uma austeridade da Grécia, onde já não cabem mais sacrifícios, mesmo após o próprio FMI ter considerado que tem havido exageros nestas medidas impostas por todo o lado. A Alemanha a ameaçar com mais apertos, os países que "não façam reformas" (que ninguém sabe quais e como).

Não creio, e espero estar certo, que estes tempos sejam um decalque do que aconteceu na mesma Europa, também em crise por esses dias, antes da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais. Penso que hoje há outras seguranças e, assim espero, um sentido mais real do imenso perigo que um conflito com as actuais armas pode implicar.

Mas estes não são tempos normais. E estes sinais ainda confirmam o tremendo insucesso de Durão Barroso, bem ao contrário do que o próprio diz e o Presidente exacerba.

Curioso termos um PR ausente nos assuntos mais importantes e decisivos para o nosso futuro, como o péssimo OE 2015, com mais impostos e mais insucesso para o Governo, quando perceber que a colecta de impostos tem limite e pode implicar mais uma onda de recessão, mas que surge pronto para uma condecoração ridícula e própria de um país africano demente. Nem irei perder mais tempo com tal figura triste e circense, mas de facto, parece-me mais um sinal de fim de tempo.

Não havia forma de se entender estes políticos Europa fora, mas eles ainda conseguem deixar pior impressão do que já tínhamos. Cameron foi desastroso ao possibilitar o referendo na Escócia (e até o considero legítimo se é uma aspiração popular). Cameron parece apostado em atitudes desastrosas. O Reino Unido precisa da UE muito mais do que parece perceber. A sua crise continua, a crise de lideranças por lá, é a imagem de tudo o que por toda a Europa podemos ver. Mas a economia britânica não está famosa. E não deve ver grandes melhoras nos próximos tempos. Um líder trabalhista inglês dizia há pouco tempo qualquer coisa como isto (no país que se julga acima dos outros, o que quer dizer onde eles são melhores do que nós...): devemos injectar dinheiro no Serviço Nacional de Saúde...para depois reconhecer que tal implicava um aumento brutal de impostos e...recuar.

Hollande, como sabemos, chegou ao poder com a medida que Costa quer tomar e já prometeu: por lá, foi aumentar pensões e ordenado mínimo. Por cá, é devolver dinheiro que o Estado não tem. Seria justo, mas não há como, se não reduzirem a despesa do Estado. O que nunca foi feito.

Em Espanha parece que já estão ameaçados os tradicionais maiores Partidos, que sofrem com a extensão da Corrupção. E agora a confiança...?

Merkel irá sair nas próximas eleições e pode ser, embora não provável, que o sucessor tenha uma visão muito distinta da austeridade nos países europeus.

Por cá, já sabemos. 2015, uma desgraça, menos dinheiro, mais fome mais insegurança pelo futuro. A partir daí...uma grande segurança na capacidade de Costa em esbanjar e em esconder contas, como o tem feito na Câmara de Lisboa. E a esperada substituição de todos, pelos amigos maçónicos e os mais medíocres políticos que já conhecemos. "Esperanças de futuro" como Ferro Rodrigues, Pedro Silva Pereira, Eurico Brilhantes Dias (apoiante de Seguro que Costa não deverá ignorar, e ..que só diz disparates), Sócrates (algum tacho haverá por aí, ainda não roubou o suficiente), Vera Jardim, e os "queridos velhotes" de sempre Almeida Santos, Manuel Alegre, Mário Soares. Gente ilustre e de inteligência sublime que tanto deu a Portugal... Cinco anos mais de falta de esperança (esperança, uma coisa perversa, como alguém me disse e muito bem).

Não sei bem ainda que sinais estamos a receber. Mas que somos surpreendidos por exageros e disparates dia a dia...

Hoje foi Timor e os Juízes portugueses, ainda não se percebendo o que aconteceu. Se foi um acto gratuito, merece reprovação e eventual corte de relações, um país que tanto nos deve. Mais uma loucura dos tempos actuais?

Lembrei-me de um filme de há muito "os deuses devem estar loucos". Só podem...

Em Portugal, cada dia que passa precisaremos mais de um "Podemos", não?

(PS.: Também dou a minha contribuição. Hoje ligaram do meu Partido. Um jantar com o líder na próxima sexta, em Oeiras. Disse...não tenho "condições" esta semana. Mas não iria. Só se fosse para lhe dizer: "vá para casa e deixe-nos em paz"....desejaram-me as melhoras...o que me cheirou a segundas intenções...)


2.11.14

Produto social?

Somos um produto social? Alguns filósofos gregos, com Aristoteles em destaque, defenderam que o homem só é feliz na Polis. Em sociedade. O alcance desta ideia, que hoje nos parecerá muito lógica, trivial, é bem mais profundo do que à partida nos surge. Porque seremos uma realização da sociedade? Porque só nos realizaremos em sociedade? 

Os marxistas, repescaram esta ideia para reforçar uma espécie de necessidade das nossas manifestações ideológicas terem de passar pelo colectivo. Mas a sua intenção, ainda hoje, é a que eliminar o indivíduo, como origem de ideias, de iniciativas. Não porque, confirma a história, não o que dizem, sempre diametralmente oposto ao que fazem quando no Poder, pretendam que as decisões, mesmo as percepções e análises, sejam do colectivo, mas para que, sendo todos o mais "iguais" possíveis, alguém os lidere sem esforço. Claro que é uma utopia, que resulta sempre no uso da força, da coacção, da fiscalização de cada cidadão, na sua "re-educação" forçada. Mas a ideia da necessidade do colectivo está lá, embora muito distorcida, em favor de uma lavagem intelectual colectiva, na senda da criação do que em tempos chamaram do "homem novo". Mas os marxistas sempre tiveram esta intenção de tudo re-escrever no mundo: o Homem, a sua História. Sub-repticiamente, os nossos manuais escolares, pelos quais aprendem os nossos filhos (e antes nós por outros igualmente manipulados, por sinal oposto), intentam sempre na re-escrita de uma História, onde tudo de bom vem de "esquerda", tudo de mau, de "direita". E esta conspiração intelectual real tem sempre passado de Ministério a Ministério, sem nada se alterar. Uma vergonha e uma deformação e distorção da Democracia, como ainda hoje se nota. Não temos, nem devemos esperar uma Democracia autêntica com esta manipulação intelectual e cultural, socialista e maçónica, da nossa sociedade. Mas há quem diga que eu exagero. Pois até exagerarei mais: penso que em Democracia nenhum Partido Comunista devia ser legal! Ou teríamos de ter no extremo oposto, algum Partido também. Mas por mim, ninguém que defenda, ou esteja ligado a quem instaurou um regime ditatorial, deve participar da Democracia, de forma livre. É uma perversão inadmisível e que distorce perigosamente uma Democracia. Mas reconheço que a ameaça actual da Democracia até vem dos Partidos maiores, que em princípio são democratas. 

Feito o parêntesis (deformação pessoal...) vejamos até que ponto seremos produto social, sabido que o somos da nossa tradição familiar, do nosso ambiente cultural histórico, que herdámos tanto de tantas gerações antes de nós, e que tudo isso se inscreve no nosso inconsciente de forma, diria, impressionante. Uma experiência há uns anos, com bebés, demonstrou que logo às primeiras semanas  sabemos distinguir entre uma coisa boa e uma má. Simples imagens de uns bonecos que tentavam subir uma colina, onde um deles contrariava essa tentativa, os bebés reagiam mal ao mal intencionado. E outro "boneco" que ajudava os demais a subir, eram a escolha dos bebés. Um princípio ético positivo (a ética todos temos, pode ser positiva, boa, ou negativa, má), e uma moral (a acção na sequência de uma ética) logo inscrito na nossa genética e com imediatos reflexos nas nossas atitudes? Pois sim. Talvez os "memes" que Dawkins identificou e criou o termo. Herança cultural. 

Mas se assim se trata de uma herança cultural, não a devemos, em teoria, apenas ao ambiente familiar. Porque, por um lado, nem sempre os nossos progenitores e todos os seus antepassados, terão vivido pela mesma ética e moral, podendo isso ter sucedido ou não, nem algum de nós é impermeável  à sociedade onde vive.

Na realidade, a sociedade é o nosso campo de acção, mas também o nosso espelho preferencial. Por pormos à prova o que dizemos, ou pensamos, o que fazemos, vamos prosseguindo, ou vamos alterando as nossas acções. Não queremos ser rejeitados pela sociedade, mas pelo contrário, queremos a sua aceitação, aprovação. Trate-se de um grupo, o nosso grupo, ou, numa acção de maior alcance social, muitos grupo, a sociedade em geral. Podemos muitas vezes prosseguir num determinado caminho, contra a aceitação tácita do nosso grupo (profissional, amigos, família, um deles, ou todos), mas sempre teremos a noção, por vezes incomodativa, da má aceitação do que fazemos pelos "nossos". O que não nos deixa confortáveis e, provavelmente, um dia, corrigimos o caminho. "Só somos felizes na Polis". Podemos se-lo fora da Polis, mas tal exige de nós um esforço e um compromisso que nem todos seremos capazes de conseguir suportar. Geralmente o isolamento, por opção. (não tendo de ser total).

Esta uma das razões, muito fortes e determinantes, pela qual fazemos escolhas sociais, pela qual preferimos espontaneamente rodear-nos do sucesso, dos outros, nos outros, e tendemos a afastar-nos do insucesso, ou da depressão de alguém. E só os mais inteligentes, os que já reflectiram sobre o seu papel no mundo, e se inserem na vida com uma forte segurança pessoal, ultrapassam este "preconceito" social. Porque o nosso inconsciente, sem que o saibamos, faz escolhas por nós, cataloga as pessoas, o que nem é bom, nem mau. O inconsciente não decide tudo por nós, mas funciona a uma cadência duzentas vezes superior ao consciente, criando percepções e tendendo a decisões, muito antes do consciente nos dar algum sinal sequer do que observámos, ou das escolhas que iremos fazer. Se o inconsciente se identificar pelo Sistema 1, e o consciente pelo Sistema 2, como alguns psicólogos e investigadores o fazem, diremos que os dos Sistemas funcionam em coordenação, mas não perfeita, porque na maioria das situações o 2 nem actua. Esse é o que funciona quando algo de mais importante e decisivo o solicita. Não nas situações em que, por exemplo, afastamos alguém de nós porque o seu aspecto não se enquadra em "padrões" que com o tempo fomos definindo.

Pois, o inconsciente, responsável poderoso pela grande parte das decisões mais básica e automáticas que fazemos, umas provenientes dessa cultura familiar e social, outras pelas que a vida nos vai permitindo construir numa espécie de "cultura única e pessoal", é o que mais nos empurra para o interior de um grupo, ou nos deixa apenas nas suas fronteiras. E é muito por aqui, claro que com o sistema 2, a funcionar e corrigir impulsos e decisões do 1, sempre que alguma coisa nos exige mais reflexão, que somos e nos vamos enquadrando como produto social. 

Procuramos sentir a realização por parâmetros socialmente aceites. O que, quando temos "sucesso", por esses parâmetros medido, nos dá um sentimento de realização e felicidade, e o oposto nos frustra e até nos torna menos felizes. Mas o nosso cérebro tem mais armas do que podemos imaginar, e se formos abertos o suficiente, encontramos alternativas a algum insucesso, tal como o vemos, ou julgamos os outros verem em nós. Um tanto condenavelmente, dependendo da ética e moral de cada, e do seu grupo, não nos deixamos ligar a alguém que não aufere de uma posição social respeitável, ou estável, com algum mérito ou sem ele, mas cujos padrões sociais do nosso grupo, ou da sociedade em geral, nos indica ser alguém respeitável. Perverso? Talvez? Mas tudo se refere a uma inserção, pois pretendemos "fazer parte", e não ficarmos à margem de qualquer grupo. E só um esforço intelectual particular, nos leva a não rejeitarmos alguém que não está catalogado pelo sucesso, pelo instituído "respeito" social. Esforço não ao alcance de todos. Mas é esse tipo de esforço que vence preconceitos raciais, sociais e profissionais.

Mas há o extremo oposto. Quem se ancore no sucesso de outros, nem procurando o seu próprio. Nessa senda se insere boa parte de uma educação tradicional muito conhecida, mas pouco reconhecida. O caso de quem pauta toda uma vida por procurar juntar-se a quem tem posição e poder económico. Parece-me que pelos dias de hoje, acontecerá menos, mas ainda podemos conhecer alguém que assim escolhe viver. Desistem de si, pelo que são e podem ser, e agarram-se a alguém que serve a imagem de sucesso que procuram, não em si, mas nessa outra pessoa. E, claro, o oposto, em gente madura e que reflecte por si, por si luta e por si faz escolhas. Mas essas são de outro cariz, e os seus grupos, são constituídos por pares da mesma mentalidade: gente que por si pensa e actua, gente que procura uma independência, sem recusar uma inserção social. Antes procurando-a pelos mesmos motivos. Essa procura, de pares de si mesmo, é uma procura de Eros. Eros não reflecte apenas um aspecto erótico, como na actualidade se tem identificado. Na antiguidade grega, Eros referia-se precisamente a esta identificação, tendo a ver com amizade, com o amor que temos pelos amigos, tendo a ver com padrões que identificam e aproxima e juntam pessoas, com algo em comum que seja suficientemente forte para manter coesão. Os grupos, por definição compõem-se de elementos com algo ou muito em comum. Uma micro ou macro cultura comum. É Eros que os une.

Também há quem procure sucesso e realização, mas por circunstâncias diversas, não ao alcance do seu controlo, não o almeje, porque o grupo em que se inseriu é o errado para si. A frustração profissional vem muito por aí. E uma sociedade em crise está cheia de casos destes, às centenas de milhar, aos milhões, todo um país. Porque os seus paradigmas foram sendo desenvolvidos para servir muito poucos, e a grande maioria fica fora, marginalizada e infeliz, com dificuldades várias. Quando assim é, e é o caso português, só uma profunda revolução social, com tempo ou forçada a um só tempo, pode ajustar esta frustração da maioria. Foi o caso da Revolução francesa de 1789. Mas que num primeiro momento até se tornou pior, dado o extremismo oportunista e violente que se gerou. O risco de qualquer Revolução. Quando ela não surge, a maioria de nós vai-se arrastando pela vida, procurando compensações em grupos mais exclusivos, onde os elementos procuram um Eros comum.  Mas tudo depende nas nossas próprias expectativas e da importância que damos a cada componente da nossa vida: se a profissional, se um hobby, se um grupo de amigos, se os nossos tempos livre, se numa actividade que até pode ser mais do que um hobby, por criativa e geradora de uma alternativa de realização pessoal e profissional. Da nossa flexibilidade e inteligência, da nossa energia ainda em reserva, depende esta segunda oportunidade de realização.

Somos parte do social e produto parcial dele.