19.10.13

O Maior Sentimento do Mundo (II)


“ Na nossa sociedade, Marcus, os homens que mais admiramos são os que constroem pontes, arranha-céus e impérios. Mas na realidade , os mais nobres e mais admiráveis são os que conseguem construir o amor. Na verdade, não há empresa maior nem mais difícil”

(in “A verdade sobre o caso Harry Quebert”, de Jöel Dicker).

Diria o mesmo, digo. E mais. Os amor e a amizade. E, não, não há dois tipos de pessoas no mundo, as que sim e as que não, tal como em tantos outros temas.

Há as que genuinamente tentam. As que genuinamente pensam que tentam. As que querem (fazer essa contrução do amor) e não sabem como. As que nem querem, claro, também. As que pensam saber o que é o amor e que o construíram, ou constroem, e nem lá perto andam, ou andaram. Ou andaram perto de saber e conseguir, mas iludidas pelos sinais, pelos tiques (ou clichés) da sociedade, as ideias feitas, as imagens ilusórias, também não conseguiram. E há muitos outros grupos e pessoas, com certeza. Não há avaliação ou bitola sobre esta grande obra do humano. Pode haver é quem não se consiga identificar com a construção do outro, talvez ...o critério mais válido, mas ainda assim... um Amor, de construção a dois, terá de ser conjugação das vontades, certo, mas também do evidente reconhecimento recíproco. Tudo...fácil em papel, normalmente inviável de se ter certezas, na realidade.

E construir o Amor, não é, ainda, Manter. Saber, querer e poder manter o amor que se construiu. Saber, ter a “arte” de o conseguir manter igual ou fazer crescer. E, com alguma frequência, um ou dois, deixam-no ou fazem-no ...mingar. Percebendo tarde de mais o valor do que tinham, e iludindo-se com a possibilidade de o voltar a ter.

É por tudo isto que o Amor “não é para todos” (nem a Amizade). Nem todos o sabem, nem todos o querem, ou até, alguns, dele têm medo.

Mas, para além de qualquer um de nós, do que sabemos, do pensamos saber, do que pensamos querer...ele aí está e estará. Existe.

Para nosso mal, só vive no presente e pode ter vida no futuro. Do passado, podemos ficar com a aprendizagem, normalmente este sendo o sentimento de que se aprende e apreende as lições mais claras e definitivas e, no entanto, difíceis de serem perceptíveis à grande maioria de nós. Do passado também fica que...o passado pode ser recuperável. Mas apenas se o Amor, o Medo e a Insegurança não coexistirem. 

(e ainda se deve levar em conta todo o 'caldeirão de sentimentos coexistentes num dado momento das nossas vidas, como insatisfações pessoais, revoltas, depressões, traumas vários, devido a algo sucedido antes nas nossas vidas, ou no momento, com alguém muito querido, entre muitos mais factores de perturbação que nos rasteiram em momento decisivo).

Tenho para mim, num processo infelizmente interminável de aprendizagem, que sobre o Amor se deve dizer que uma vez percebendo que o tivemos “na mão”, é furtuito e irremediável, “deixá-lo cair à rua”. Naquela lógica de que o que hoje se vive, se pode viver pela última vez, e desbaratar este valor...pode ser a maior perda e o maior erro. Para quem perceber e para si mesmo, concordar, está bem de ver...


16.10.13

O Maior sentimento do Mundo. O maior e o pior.


Eu não pensava escrever algum dia em discurso directo. Num breve e pouco proficiente curso de escrita criativa, cujo ónus a mim apenas respeita, não me foi ensinado o discurso na primeira pessoa, de uma situação, ou de um sentimento, vivido pelo autor do texto, que fosse um sentimento envolvente, aliás, um sentimento que nos retira toda ou quase, a possibilidade de uma análise objectiva. Lembro-me, porém do livro de José Cardoso Pires sobre a sua experiência de quase-morte e passagem para o outro lado, e regresso à vida, infelizmente por pouco tempo. Foi, seguramente, uma experiência, e o texto confirma-o, única, intensa e extremamente difícil de contextualizar, e de passar em testemunho descrito. Pelo próprio.

Mas hoje, como nos últimos tempos, Morfeu recusa-se a chamar-me para o seu abraço aconchegante, que nos leva, ao seu colo, por viagens insuspeitas e normalmente sem testemunho confirmável. Morfeu tem-me abandonado. 

Um exercício de vivência pessoal, em forma de letras, para testar a que ponto a falta de distanciamento, que aos escritores se aconselha, pode perturbar o mesmo.

A minha formação familiar não se pautou pela educação das sensibilidades, pelas sensibilidades e muito menos pela transmissão de sentimentos, por palavra viva e em discurso directo. Menos ainda que se advogasse a sensatez de escrever sobre uma experiência intensa, perturbadora, em dois sentidos inversos, na euforia e na depressão, para que me torne mais claro. A minha formação, que os meus amados pais me passaram não se compadecia muito de, palavras minhas, lamechices. Mas a vida levou-me por outros caminhos, até outras pessoas e, pouco a pouco a expressão dos sentimentos foi para mim um mundo novo, assumido e verbalizado.

É de amor que vos venho falar. Esse sentimento tão nobre, quanto mortal. Tão efervescente, quanto desmoralizador, um veneno para a mente. Os venenos, como todos sabemos, são-nos bons ou muito maus, sendo a dose e o momento que determinam a letalidade, ou a tonicidade. O Amor é um tónico. Sem dúvida. Todos o sabemos, ou julgamos saber. Nem todos, porém, sabemos mesmo o seu significado e nem um de nós provavelmente o saberá definir. Enamoramento, paixão, amor...ódio, no reverso, ali mesmo ao dobrar da esquina. O fármaco que nos salva a vida ou o veneno que no-la tira.

De amor se diz habitar no coração. Mas no coração corre sangue. O sentimento vem de cima, onde habita também o ódio, portas meias com a outra face da moeda que manda mais em nós...

De um ápice se passa de...

Um estrépito que nos sobe pelo peito, nos aquece, o tremor, o estômago que mal se aguenta, os intestinos...os calores e os tremores de frio, um tampão para as palavras que têm de ser ditas, a voz que se embaça, a garganta que aperta, a relatividade dos tempos, tão lento antes de chegar, tão rápido quando estamos com o nosso amor... a paixão que nos queima, os momentos loucos que nunca chegam, e tão leves e diáfanos se vão, os corpos que se querem, os beijos que nunca são demais, o fogo, as lágrimas de felicidade, a promessa da eternidade, os exageros, os excessos, a segurança, a serenidade, a paz, a coragem, o mundo que deixa de existir, mas que faz todo o sentido que exista. Para sempre!

Num dia, a eternidade, as juras, as certezas. No outro...

Um peso que não nos deixa, o vazio esmagador, o silêncio que nos ensurdece, a incompreensão, a injustiça, a impossibilidade do abandono, o choro, o medo, o frio, o gelo, a perda de apetite, a desistência de tudo, a apatia, a inépcia, as lágrimas que persistem, os exageros, os excessos, o mundo que deixa de existir, mas que não faz sentido que exista mesmo. Para sempre...

O Amor é o maior sentimento do mundo. Não há corpo que o albergue todo. Quando está e...quando desaparece. Tanto nos enchemos de euforia, como do peso da tristeza e dor.

O Amor que nos domina, e nos faz ter medo dele.

13.10.13

O Roubo do Presente, por José Gil

Transcrevo um texto do filósofo José Gil, de suma importância, com a devida vénia

 (pena ter desactivado o Facebook por razões pessoais)


"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos otempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.
O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

Por palavras bem menos doutas e muito menos eloquentes, sem a autoridade intelectual de José Gil, tenho vindo a dizer isto, privada e publicamente. Continuo a advogar a queda do actual Governo, como primeiro passa da nossa, ainda possível, salvação. Provavelmente, a saída do Euro, não sei se da UE, que se tem vindo a mostrar inimiga e não solidária, pretendendo africanizar Portugal, entrando pela ofensa, já, às nossas instituições como ainda hoje ouvi, e concordo, Jorge Sampaio dizer. E...talvez a Revolução não aconteça, não se justifique...ou o povo não a saiba fazer.

4.10.13

Os Partidos desta Democracia

Há uma coisa que tenho de reconhecer a António Costa, aliás, mais do que uma: O mérito na campanha que fez e na votação que obteve. Mas muito mais importante, o mérito que ainda mostra, na sua qualidade como político, quando dá ouvidos (veremos na governação da Câmara), a quem lhe manifestou durante a campanha a vontade enorme de mudança. Dizia ele na Quadratura do círculo que se as pessoas não exprimem mais vontade de mudança é pela incerteza da alternativa (a este sistema partidário, a este sistema político dependente dos actuais Partidos). Não lhe reconheço a qualidade autarca, pelos desproporcionado gastos na sua gestão, que ao ...contrário do que diz não foram nada contidos e sim bem camuflados (empresas camarárias, desorçamentação, contratos pr ajuste directo, favorecimento de amigos socialistas e outros...). Há nele uma grande diferença entre o que diz e o que faz. E já nem comento o disparate, pueril, do comentário feito na noite de eleições, quando disse que ele conseguiu em Lisboa o que o Governo não conseguiu no país. Sim, o Governo no país só tem conseguido duas coisas: desgraçar ainda mais do que Sócrates conseguiu, todo o tecido económico e as economias pessoais e familiares, e fazer um imenso favor a todo o sistema bancário e sociedades de advogados...hoje bem mais fortes, poderosos e ricos. E conseguiu ainda, ao contrário de Costa, o desprestígio do PSD, se bem que isto para o país é o menos.
Ouvido Costa, e tantos outros, ouvindo Filipe do PCP na AR e na TV...sobre os Partidos, como pedras basilares da Democracia, e observando o país, tão ansioso de mudanças, e com uma classe política que mais se torna impermeável, que não consegue nem quer ouvir nem ter colaboração de tanta gente válida, que , por exemplo, por aqui se lê, de por aí se sabe...mais confiante fico de que não têm razão. E um dia...terão uma surpresa, olhando-se ao espelho e vendo o inútil, cego, surdo, arrogante e tão pouco inteligente que lá está diante dele. Quando me lembro dos meninos que lideram estruturas partidárias locais, como o líder do PSD em Oeiras....tão altivos a falar com as pessoas, e tão incapazes de dar ouvidos e apenas querer saber o que pensam pessoas bem mais válidas do que eles...vem-me de novo à ideia, esta ideia dos medíocres que temos nos tais Partidos basilares. E é por ainda serem tão incontornáveis na Democracia, com tanta gente de 'aparelho' e tão medíocre, que não deixa lugar a mais ninguém...que mais sinto recear por uma Democracia, afnal, com pés de barro. E sem pernas para andar. O que vi, por breves momentos, na candidatura de Moita Flores, nas pessoas que o apoiavam, foi confrangedor. Que mediocridade!
Hoje, são os Partidos as organizações onde assentam as instituições da Democracia (pouca democracia devido a eles). Mas são e não se dão conta, a maior ameaça a este país ainda democrático, à Democracia. Já tenho poucas dúvidas.