17.9.13

"It was the happiest moment of my life, though I didn't know it"

Há referências, lidas, que por vezes me escapam. Em tempos, há uns anitos, li um livro fantástico, sobre o tempo, a análise do tempo, numa perspectiva psicológica, The Time Paradox, Philip Zimbardo. Acho até que nem o terminei na altura. Não acho...é o diacho do livro, nesta fase conturbada em que os meus livros se debatem por um lugar nas estantes, ou pelo seu lugar legítimo, e não com uma vizinhança 'estantística' indesejada. Se me tivessem visto a (des) arrumar os livros nesta minha última mudança de casa, logo lhes dariam razão, aos meus livros, na devida proporção em que se atirariam a mim clamando por uma melhor justiça na atribuição de espaços...enfim. O coitado que hoje queria relembrar e talvez reconduzir ao seu justo jazigo não quer dar sinal de vida, nesta caótica vertical acomodação. Mas posso fazer o esforço de memória, que outras memórias hoje vividas, (ou vivências memorizadas?) me permitem.


Orhan Pamuk, um dos meus muito apreciados Mestres das letras, Turcas da Turquia (não da toalha), dizia o que ali em cima apus, num dos mais belos livros de amor e de nostalgia dolorosa que li: It was the happiest moment of my life, though I didn't know it (Pamuk, The Museum of Innocence) , referência a um grande amor vivido anos antes, alguns bons anos antes, algum bom amor antes... com uma jovem, com diferença muito significativa de idade, pelo protagonista do romance. Há passagens que parece sentirmos a dor daquele homem... a dor de um amor afinal não realizado. E as não realizações...a mim...

Bem. The Time Paradox ensinou-me uma coisa. Que não há propriamente (quer dizer, haver há...) vida tramada, vida difícil, a vida é dura, etc...Mas que o tempo é que é lixadinho da breca. Sujeito difícil e muito relutante. Tão relutante que nunca (mesmo) volta atrás, com o que já feito foi, e o que nunca feito foi e devia tê-lo sido, talvez.

Repasso uma ou duas passagens que transcrevi na altura, do Zimbardo, pérolas...

"Those who compare the age in which their lot has fallen with a golden age which exists only in imagination, may talk of degeneracy and decay; but no man who is correctly informed as to the past, will be disposed to take a morose or desponding view of the present".

"As we look further into the future, we are forced to do more in th present. Cell phones ring incessantly; emails pile up in pour in-boxes; Tv shows, movies, and books all cry for our attention. Many people in modern societies report feeling a time crunch, a sense of being continually hurried and pressed for time".

Mas as análises sobre esta 'urgência do tempo', ou sobre a importância de acontecimentos marcantes nas nossas vidas, que num momento são os Mais Importantes, e noutro são relativamente, apenas...Fica sempre por fazer. A análise cientificamente rigorosa, talvez só se possa fazer no leito de morte, ou quando nos recusamos, precisamente, a avançar na nossa vida, preferindo forçar a 'paragem' do tempo, em detrimento de agarrar com coragem o momento seguinte. Ele, há-o sempre, não se duvide. O que ele traz, é que é surpresa. Surpresa, sim, mas pode ser apenas uma coisa boa, que é o desejado, ou a pior de todas. Mas surpresa, no sentido de nunca vivida antes (pois...).

Os chineses dizem, há uns quantos milénios (mas tudo são milénios naquela terra, excepto a fábrica que monta os Apple...): a água que passa no rio num dado momento é a primeira da que vai passar, mas a última da que passou. Esta parece-me dar mais sentido real à urgência que o Tempo coloca nas nossas vidas. Hoje...falei, ou ouvi falar de Tempo, por...algum tempo e adorei o tempo em que ouvi. Era tempo ou já havia passado assim que se deu por ele? Não sabemos. Nunca se sabe. Esse o grande mistério desta variável constante e constantemente em urgência, nas nossas vidas.

Mas...aos menos crentes, deixo de novo a frase de Pamuk, digna de alguma reflexão. Temos todos a noção da necessidade de aproveitar o melhor possível o Tempo, deixado ao nosso dispor, mas nem sempre o fazemos e todos, acho, nos queixamos disso. No que o Tempo é...inexorável e implacável!

Leiam-na com tempo...mas não tardem muito a compreendê-la. Ao terminarem...já passou (ou não).

15.9.13

Quando o ser humano se supera

Há coisas que são maiores do que nós

São bem mais grandiosas do que o ser o próprio ser humano que as originou, que as criou. Quando Beethoven criou o 5º concerto para piano e orquestra, “Emperador”, que só a designação é bem sinal da imensa dimensão, muito para além do humano, provavelmente teria ideia da sua grandiosidade que, hoje, mais de dois séculos passados ainda nos dá um prazer único e nos faz sentir tão pequenos. Pelo menos para apreciadores, mas será inegável, mesmo para quem não conheça, uma vez que ao vivo possa presenciar uma actuação, como a que ouço enquanto escrevo, de Claudio Arrau, com Colin Davis como Maestro, à frente da Staatskapelle Dresden. O segundo andamento, a propósito era a música que eu punha quando a minha filha mais velha ainda estava na barriga da mãe…E ainda hoje me comovo às lágrimas, entre a minha sensação de pequenez e a recordação desses tempos em que muitos sonhos bons me assolavam e me faziam fantasiar uma vida grande e de realizações. Foram-se os sonhos, esses, ficou Beethoven e a ideia da superação do humano a si mesmo.


A realização artística está toda ela tão cheia e enriquecida de superações do ser humano à pessoa em si. Os que me conhecem sabem bem que não sou nem um pouco de crenças, divindades e outras menorizações, do meu estrito ponto de vista, das pessoas a alguma coisa superior. Excepto à obra dos Homens, em concreto, que se lhes torna superior.

Mas não só a vida e a obra artística está plena deste fenómeno tão humano e tão acima de humano. Os sentimentos. O amor. A amizade. E bem que reste um dia apenas a memória doce de grandes e únicos momentos de um amor que se nos prende dentro do peito e agarra a vontade de respirar…esses são sentimentos que nos provam a bela capacidade de nos revelarmos acima de nós mesmos. Infelizmente, o Amor, só faz sentido quando vivo, a memória pode ser opressora. Mas é prova de superação humana, estou bem certo. Não o digo por considerar o Amor algo altruísta, como fica bem dizer, e por todo o lado se lê, quando acho bem ao contrário que é o sentimento mais egoísta de todos. Mas não sou dos que acham que o egoísmo é apenas coisa negativa, e amar alguém é uma grande prova disso. Faz bem, a quem dá e a quem recebe. E vem do egoísmo dos dois. Ao dar…terá o seu momento altruísta, mas porque provém de uma necessidade muito humana de se sentir querido por alguém, a quem queremos mais do que a tudo o mais. Algo complexo, pois. Como difícil de se conseguir ‘ver’ e mais, de o saber guardar.

Outras obras humanas, ainda, são, para mim, prova dessa superação, desse transcendental grandioso. Essas, podem sim, talvez, ser bem mais altruístas. E, relembro a quem algum dia me leu, que não partilho da divisão do mundo em dois, em todas as coisas, pelo menos. O bom e o mau, o egoísmo e o altruísmo, a direita e a esquerda políticas, os homens e as mulheres. Ao longo de milénios a Obra do ser Humano foi tornando este mundo bem mais rico e subtil do que essa dualidade redutora.

Agora, por altura do tal segundo andamento do 5º concerto de Beethoven, vem bem a jeito tratar do que aqui me trouxe (mas foi bem mais do que isto, que não pretendo explorar…).
Preocuparmo-nos com um país. Não um qualquer, mas o nosso, que foi berço dos nossos dias, sejam gloriosos ou infelizes. Preocupar e Cuidar. Por estes dias, assisti a um ‘curso de Verão’ da TIAC, a Associação Cívica que trata da Transparência e Integridade em Portugal, e foi como uma viagem pelos maiores horrores deste famigerado país. Pretendo ir dando conta das misérias, da maldade, da incúria, da corrupção intencional que grassa por Portugal.

Mas agora quero apenas deixar claro que por um lado fica bem evidente que não uma só força política que escape a este ‘fenómeno’, à falta de outro epiteto melhor. Não há mesmo. E, se se perguntarem porque não acontece nada, porque continua tudo assim, porque, se assim é, não são condenadas pessoas, ou que se não condenadas ou sequer investigadas, certamente é por não serem afinal corruptas, deixo-vos apenas com esta ideia e esta verdade: grande parte da nossa legislação tem sido preparada com a intenção, se não única, principal, de contornar e esconder a corrupção. Que é política e pública, mas também empresarial e privada.

A legalidade é o grande refúgio da corrupção!

A corrupção é responsável pela maior despesa de todo o Estado português (público e privado)
O ser humano, tem hoje, o ser humano português, a grande responsabilidade de se superar e traçar o maior combate destas gerações: denunciar toda e qualquer forma de corrupção. O que implica, desde já, ser capaz de ver muito para além do evidente, do visível, da organização política das nossas simpatias.

Continuemos com Beethoven a tentar levar-nos para fora de nós mesmos e limpar-nos de dias e sentimentos negativos!