Quando o ser humano se supera

Há coisas que são maiores do que nós

São bem mais grandiosas do que o ser o próprio ser humano que as originou, que as criou. Quando Beethoven criou o 5º concerto para piano e orquestra, “Emperador”, que só a designação é bem sinal da imensa dimensão, muito para além do humano, provavelmente teria ideia da sua grandiosidade que, hoje, mais de dois séculos passados ainda nos dá um prazer único e nos faz sentir tão pequenos. Pelo menos para apreciadores, mas será inegável, mesmo para quem não conheça, uma vez que ao vivo possa presenciar uma actuação, como a que ouço enquanto escrevo, de Claudio Arrau, com Colin Davis como Maestro, à frente da Staatskapelle Dresden. O segundo andamento, a propósito era a música que eu punha quando a minha filha mais velha ainda estava na barriga da mãe…E ainda hoje me comovo às lágrimas, entre a minha sensação de pequenez e a recordação desses tempos em que muitos sonhos bons me assolavam e me faziam fantasiar uma vida grande e de realizações. Foram-se os sonhos, esses, ficou Beethoven e a ideia da superação do humano a si mesmo.


A realização artística está toda ela tão cheia e enriquecida de superações do ser humano à pessoa em si. Os que me conhecem sabem bem que não sou nem um pouco de crenças, divindades e outras menorizações, do meu estrito ponto de vista, das pessoas a alguma coisa superior. Excepto à obra dos Homens, em concreto, que se lhes torna superior.

Mas não só a vida e a obra artística está plena deste fenómeno tão humano e tão acima de humano. Os sentimentos. O amor. A amizade. E bem que reste um dia apenas a memória doce de grandes e únicos momentos de um amor que se nos prende dentro do peito e agarra a vontade de respirar…esses são sentimentos que nos provam a bela capacidade de nos revelarmos acima de nós mesmos. Infelizmente, o Amor, só faz sentido quando vivo, a memória pode ser opressora. Mas é prova de superação humana, estou bem certo. Não o digo por considerar o Amor algo altruísta, como fica bem dizer, e por todo o lado se lê, quando acho bem ao contrário que é o sentimento mais egoísta de todos. Mas não sou dos que acham que o egoísmo é apenas coisa negativa, e amar alguém é uma grande prova disso. Faz bem, a quem dá e a quem recebe. E vem do egoísmo dos dois. Ao dar…terá o seu momento altruísta, mas porque provém de uma necessidade muito humana de se sentir querido por alguém, a quem queremos mais do que a tudo o mais. Algo complexo, pois. Como difícil de se conseguir ‘ver’ e mais, de o saber guardar.

Outras obras humanas, ainda, são, para mim, prova dessa superação, desse transcendental grandioso. Essas, podem sim, talvez, ser bem mais altruístas. E, relembro a quem algum dia me leu, que não partilho da divisão do mundo em dois, em todas as coisas, pelo menos. O bom e o mau, o egoísmo e o altruísmo, a direita e a esquerda políticas, os homens e as mulheres. Ao longo de milénios a Obra do ser Humano foi tornando este mundo bem mais rico e subtil do que essa dualidade redutora.

Agora, por altura do tal segundo andamento do 5º concerto de Beethoven, vem bem a jeito tratar do que aqui me trouxe (mas foi bem mais do que isto, que não pretendo explorar…).
Preocuparmo-nos com um país. Não um qualquer, mas o nosso, que foi berço dos nossos dias, sejam gloriosos ou infelizes. Preocupar e Cuidar. Por estes dias, assisti a um ‘curso de Verão’ da TIAC, a Associação Cívica que trata da Transparência e Integridade em Portugal, e foi como uma viagem pelos maiores horrores deste famigerado país. Pretendo ir dando conta das misérias, da maldade, da incúria, da corrupção intencional que grassa por Portugal.

Mas agora quero apenas deixar claro que por um lado fica bem evidente que não uma só força política que escape a este ‘fenómeno’, à falta de outro epiteto melhor. Não há mesmo. E, se se perguntarem porque não acontece nada, porque continua tudo assim, porque, se assim é, não são condenadas pessoas, ou que se não condenadas ou sequer investigadas, certamente é por não serem afinal corruptas, deixo-vos apenas com esta ideia e esta verdade: grande parte da nossa legislação tem sido preparada com a intenção, se não única, principal, de contornar e esconder a corrupção. Que é política e pública, mas também empresarial e privada.

A legalidade é o grande refúgio da corrupção!

A corrupção é responsável pela maior despesa de todo o Estado português (público e privado)
O ser humano, tem hoje, o ser humano português, a grande responsabilidade de se superar e traçar o maior combate destas gerações: denunciar toda e qualquer forma de corrupção. O que implica, desde já, ser capaz de ver muito para além do evidente, do visível, da organização política das nossas simpatias.

Continuemos com Beethoven a tentar levar-nos para fora de nós mesmos e limpar-nos de dias e sentimentos negativos!

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