Os tiros das agências de Rating e a incompetência dos políticos


O país, sensatamente, tem-se levantado contra as injustas, talvez superficiais, talvez incorrectas ou mesmo incompetentes, análises e avaliações das agências de Rating americanas. O país, e a Europa. Porque o país sente o esforço e o sacrifício, todos os dias, para voltar a encontrar uma situação financeira e uma economia saudáveis, ou menos doentes. E pior, quando a sensação, clara e sem dúvidas de todos nós, é de apesar de termos todos um pouco a responsabilidade por esta situação, haver alguns, políticos de governos anteriores, do PS, principalmente, de Sócrates em substância, mas também de outros, bem mais responsáveis ou culpados (é de culpa que se trata, mesmo!), do que cada um de nós, portugueses.

A Europa, porque não interessa a nenhum país europeu, neste momento, um agravamento da nossa situação, no caminho de um abismo helénico, mas antes uma recuperação, que lhes custe menos dinheiro e menos sustos. E menos imprevisibilidade ou incerteza para o futuro. Mas lembremo-nos de que a mesma Europa que agora se mostra superior e moralista, foi também co-responsável por esta nossa situação. Com as decisões de abandono da nossa agricultura, mesmo que uma reconversão e modernização se impusesse, com saída de mão de obra e uso crescente de tecnologia conducente a maior produtividade. Com a 'oferta' do sector de pescas a Espanha, a pior decisão, a meu ver, sobre o nosso sector primário, sendo nós o terceiro maior consumidor per capita do mundo e o segundo na Europa, e a Espanha bem atrás de nós tem uma das maiores frotas pesqueiras do mundo...

Com a subida desastrosa e inflacionista de preços de produtos europeus, alemães em grande escala, após a criação do Euro, provocando imensos problemas de descapitalização, e situações difíceis nos créditos a bancos, pelas empresas. Em grande parte, pelo que se perdeu de produtivo a nível nacional, sem capacidade de reconversão de sectores e de mãp de obra, com baixa formação, e com o endividamento crescente, também resultante do efeito do Euro, foi a Europa, agora tão leonina e justiceira, responsável por tudo isto. Por cá e na Grécia, Irlanda, Espanha...

Mas nada disto desculpa o que nós portugueses devíamos ter feito. Pelas nossas contas, e dos nossos políticos, mal escolhidos, crescentemente medíocres e de seriedade duvidosa.

As agências de rating não estão a fazer agora nada que já não estivessem desde 2008, e um pouco antes até. Tal como a nossa crise, portuguesa, se agravou com a crise mundial, mas iniciou-se bem antes e foram disso os políticos avisados.

Hoje criticamos e bem a Moody's. Mas já este ano a Fitch havia descido o nosso rating uns cinco pontos, em Abril, mais concretamente. E nessa altura poucas vozes se levantaram contra os 'yankees'. Nós, comuns, pouco podíamos ter dito, o nosso juízo estava bem mais afectado pelo Governo decrépito e degradante de então. Mas os políticos, portugueses e europeus souberam-no e mostraram passividade, ou ignoraram. Nessa altura, há dois, três meses, teria já sido importante terem tomado uma atitude. Como parece agora pretenderem tomar. Mais uma vez, porém, os políticos desta Europa, muito rápidos nas condenações de países do sul, mostraram-se incompetentes e medíocres, pouco merecedores da confiança dos cidadãos da Europa. E mais uma vez...a mudança talvez esteja a começar num pequeno país, muitas vezes desprezado: Portugal. Pode ser um início de mudança dos medíocres para os competentes e meritórios. Veremos...

Entretanto, o problema que levou à avaliação negativa de Portugal é, custe-nos o que custar, real. Portugal pode não conseguir pagar todos os encargos da dívida, os juros e os novos empréstimos, pelo menos como o pretendem os nossos credores. Portugal, depois da Grécia, pode vir a ter de renegociar esta dívida, os seus juros, pelo menos...

Para isso, contribuem também as agências de Rating, afundando-nos mais. E os 'esqueletos' que Sócrates nos deixou e ainda não saíram todos dos armários...

E Passos Coelho, que pretende governar positivo, pode ter de vir a responsabilizar o passado, mesmo. E culpabilizar...

Mas nisto tudo, as injustiças dos Ratings não são o nosso maior problema. Disso, estou bem certo.

O melhor mesmo é que a Europa se assuma de vez. Portugal se mexa no mais premente e urgente, que é a efectiva redução da despesa e a reforma do Estado, mas também que se estanquem alguns abusos e arrogâncias da nossa banca. Que os políticos europeus se vão substituindo, uns após outros e dêem lugar a outros de real qualidade. Que as agências de rating americanas usem da mesma bitola e 'justeza' connosco, como o seu próprio país, um caos económico-financeiro neste momento (mais a França, o Reino Unido, a Espanha...). Que se tome rapidamente consciência do desastre que tem sido considerar uma China o oásis do mundo, sendo certo que a próxima vaga da crise nos virá de lá. Que se inicie na Europa um caminho de equilíbrio económico-financeiro-social entre os vários Estados.

Muito por fazer e poucos os competentes...ainda.

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