A hora da Europa

Lembremo-nos do início da Crise das Dívidas no espaço europeu. A Irlanda pediu ajuda. Foi elaborado um plano de austeridade, para voltar a recentrar as contas da Irlanda no caminho do controlo do défice, da solvência financeira, da capacidade de pagar créditos e juros de créditos. A Grécia, com receita surgida dos mesmos pressupostos, também recebeu a mesma receita, o mesmo tipo de ajuda, mas adaptada às suas circunstâncias, e com o risco de incumprimento do plano, muito mais elevado do que a Irlanda, dada a sua condição, como Portugal em parte, de menos produtivo, menos industrializado e ...'menos' anglófono. ( a condição de se ser do Sul é uma coisa tramada...segundo o 'Norte'). Portugal, entretanto, e como se previa desde 2008, e se avisava de riscos e perigos, desde o Governo de Guterres, sem interrupção, nem com o PSD nem com Sócrates, veio a pedir ajuda, também, com o agravamento de o ter feito pelo menos meio ano mais tarde do que devia. Portugal, como a Grécia, tem o problema estrutural da Organização do Estado por resolver. Mas também tem, e não é de menos, o problema educativo e da formação profissional efectiva e real, e não apenas mascarada, para 'inglês ver', coisa de que se fala desde Salazar, já com a reforma triste e ridícula de Veiga Simão (que alguns brilhantes idiotas ainda parecem gabar...), e mais tarde, com a 'esperança perdida' quando da adesão à CEE. Nos dias correntes assiste-se a um 'espremer' da nossa credibilidade, o elemento definidor e decisivo que determinará um dia a nossa capacidade de podermos negociar com o mercado o financiamento das nossas actividades e o pagamento da dívida, por parte de agências de Rating americanas. Já escrevi sobre isso e sobre a irracionalidade de uma Europa que se diz independente, forte, unida de com uma moeda com futuro, se reger por critérios e análises extra-europa, ainda para mais americanas (e não estou a criticar o facto per si, de serem americanas, pois nada tenho contra os EUA, muito pelo contrário!). Agora a Europa começa a assistir ao início de uma discussão sobre o estado a que chegou, onde alemães, franceses, países do norte, e até ingleses, pretendem, há tempo demais, dar a entender que o problema é o SUL, é do SUl, e que só o Sul os tem e deve resolver. Mas a França nem sabe se tem futuro, e ninguém imagina como um país sem projecto e sem nada que se veja, desde o rei-sol, ainda se sente e é como tal visto, um pilar da Europa e da sua civilização... Nem como um Reino Unido que tem perdido todo o seu tecido industrial, continua a pretensamente, ter mais voz nos destinos Europeus e mundiais, do que têm os 'tristes, mal arrumados, desorganizados e pouco civilizados do Sul'...(e foi do Sul, do Império Romano, que lhes chegou a educação e a civilidade que hoje pretendem ter, mas é no norte que se assiste às vagas de violência por tudo e mais alguma coisa, seja no futebol, seja nas manifestações de agricultores, camionistas, sindicatos do sector metalúrgico, manifestações pro e contra povos imigrantes de África, etc.) Hoje a Europa parece querer começar uma nova discussão sobre o seu futuro, o seu rumo, as medidas necessárias para fazer sobreviver o Euro, a Europa ela mesma e as suas instituições. Há uns bons anos, Jacques Barzun (2000 From Dawn to Decadence: 500 Years of Western Cultural Life, 1500 to the Present. ISBN 978-0060928834) escrevia sobre a decadência da civilzação europeia e sobre o seu declínio continuado e eminente...ninguém pareceu ler, ou ouvir. Não que tenhamos de viver com esse punhal da eminente decência por cima das nossas cabeças, ou se aceite isso como o inevitável, ou, pior, se chore colectivamente sobre o falhanço do nosso projecto europeu e da nossa 'cultura ocidental', quando vimos outros bem mais decadentes, desabarem diante de nós (como os países do milagre comunista, nunca esquecido pelos nossos utópicos dinossauros do PCP, que ainda nos aparecem na TV?!). Mas hoje, parece-me, pessoalmente, bem evidente, a necessidade de se repensar este modelo social e económico, e se encontre, provavelmente, um novo modelo económico-financeiro, mais sustent avel, mais justo e menos germânico também. Da dimensão de uma Alemanha e de uma França, não virão mais e melhores soluções e ideias do que da cabeça de um simples português, espanhol, grego ou italiano. A dimensão dos nossos crânios não difere muito das dos alemâes. E é tempo, de certo, de o demonstrar... A mim, poucas dúvidas me restam... Veremos o que nos dizem estas cimeiras de Eurogrupos...mas tenho as minhas fundamentadas dúvidas.

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