A Cegueira


Continuamos iguais a nós mesmos. A este povo estóico e secular, onde os ventos do sucesso bateram tão forte e quentes, quanto os vendavais da desgraça, da ameaça de pobreza, da fome e da derrota, os exemplos da história de nada servem, excepto para reforçar a indiferença, ou a placidez com os seus mais intrépidos carrascos.

Como o escritor caracterizou e até vaticinou, nada faz um cego por opção, recuperar a visão.

A cegueira trouxe-nos onde nos encontramos. Dependentes. Impotentes nas decisões autónomas sobre o nosso destino comum. Cegos por opção, fomos na cantiga alegre e ligeira dos ‘tempos de mudança e da abastança que chegava. Metemo-nos a gastar. A Esbanjar. Todos (uns mais do que os outros). A casa! A casinha do português. É tudo, ter uma casinha. Se não aos vinte, no máximo aos trinta, ainda que os ‘ricos da Europa’ só pensem nela, aos cinquenta. Alguém disse há uns poucos meses, que a casa era o seguro de vida, em si, para os portugueses. Em crise, em decadência acelerada, batendo a bancarrota à porta se fosse o caso, a ‘casa’ era o nosso seguro, ao contrario ‘dos europeus’. Servir-nos-ia, lá está, para resgatarmos o futuro que nos reste, com a venda da mesma (esquecendo-se que para cada venda tem de haver um comprador). Foi um senhor economista, que eu disto nada percebo. Foi brilhante. E a ‘casinha’, mealheiro dos desgraçados portugueses, será o nosso canto do cisne, um dia. A corda que nos puxará para cima, quando o apoio dos pés nos faltar, pendurados nas nossas dívidas, a olhar um horizonte de desemprego, desagregações familiares e fome. Pode ser que não. E se não for, é porque os especuladores ultra-liberais e usurpadores agiotas do FMI, BCE e Europa em geral, nos dão acesso ao outro mealheiro, para o qual pouco ou nada contribuímos. Ficaremos, ou não, um dia destes, sem a casinha, sem o emprego, a trabalhar mais horas e mais anos, para que outros trabalhem menos horas e menos anos (os patrões espanhóis, também eles falidos mas patrões ainda, os alemães maus e arianamente liberal-nazis, os gaulistas franceses e os violentos arrogantes dos ingleses. Todos os maus de estimação da nossa história, que um dia recordaremos, pendurados nessa forca da nossa ‘confiança a toda a prova’, positivismo, optimismo socialista, ou o que lhe quisermos chamar. Nesse dia, na forca da nossa cegueira, a corda será o que quisermos, mas será igual para todos.

Ha muita razão sobre a crise internacional nos ter atingido. Há outra tanta sobre termos sido vítimas de especulação internacional, e de espanhóis e alemães exploradores. Mas o nosso problema, como o escritor nos avisou, é a nossa cegueira. E não é a cegueira ténue e pouco marcante de irmos nas conversas do priorado socialista sobre o optimismo e do ‘muito que se fez’ e ‘ de que para se fazerem coisas é preciso dinheiro...e se Portugal não o tinha, então a Dívida externa justifica-se a si mesma’...

O pior da nossa cegueira não são essas premissas, que já são história, a este momento. O mau mesmo, é a cegueira de irmos mais uma vez na conversa do ‘pároco’ do Largo do Rato, nos entretermos com asneiras sem valor (que interessa o papel de Fernando Nobre, se um dia for Presidente da Assembleia da República, ou não? Será que nesse cargo, vai mudar alguma coisa nas nossas vidas? Se for outro e não ele, muda o quê e em que sentido, para o nosso futuro? E sobre se houve encontro ou conversa entre Sócrates e Passos Coelho, isso será decisivo, mesmo!, para que dentro de cinco anos possamos comer pão quente de novo, amassado por nós e não pelo FMI?), com fait-divers sem importância, aquela importância que nos decidirá o futuro, e se esse futuro se vai passar cá dentro juntos dos nossos filhos, ou longe daqui, em África ou na América do Sul, para só voltarmos na reforma, quando os filhos já nos tiverem dado netos, que não vimos nascer. O pior da nossa Cegueira é não vermos, por não querermos que quem nso trouxe até aqui não pode voltar a estar envolvido no nosso futuro próximo, ou distante.

Em Democracia costuma dizer-se (por vezes, só quando convém a alguns), que o acto eleitoral serve para castigar quem governou mal e dar oportunidade a outros, que não estiveram até esse momento no Poder para que nos mostre que é possível governar melhor. Serve para sentenciar os maus governantes. E nunca serve, ou deve, para voltar a dar aos mesmos, que mal nos tenham dirigido, e nos trouxeram a miséria e a desgraça, nos retiraram a independência, mesmo a pouca que tínhamos, o que eles não merecem, mas mais, que não merecem pela desconfiança que sobre eles se instalou.

Mas parece que a nossa Democracia é muito especial. Aqui instalou-se a cegueira que o escritor identificou. Para que acima de tudo e contra todos, se justifique como se quiser, que o mentiroso e criminoso político que até aqui nos trouxe, está acima de tudo isto, que nada tem a ver com isto. Que o mundo à volta é que está mal. Que não o conseguem entender, na sua visão larga e futurista, que nos empenhou o futuro e só deixou uma ténue esperança aos que agora têm menos de vinte anos.

Todas as justificações e desculpas irão surgir, pois, para que o ‘chefe’, qual intocável Grande Timoneiro, se mantenha contra tudo e contra todos. Principalmente contra nós, todos. O importante é justificar o Chefe, o Sócrates da mentira e do crime político e económico, que conta mais do que nós todos, do que as contas de cada um de nós, do que as contas do nosso pais. 

Esta nossa cegueira vai invadir-nos o cérebro, toldar-nos o pensamento, e impedir-nos de sermos capazes de pensarmos por nós, e não ele por nós, e recuperarmos o nosso futuro, uma vez mais.

E esta Cegueira é o nosso maior e mais capital problema.  Todas as desculpas serão legítimas, como se verá na campanha eleitoral, para que o pior Primeiro ministro em mais de trezentos anos, continue a roubar-nos as contas e o futuro.

A Cegueira poderá matar-nos. Ao nosso futuro...

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