Temporal devastador na Madeira


A Madeira foi fustigada este Sábado por um temporal talvez nunca antes verificado. Ou de que não há memória. As causas, do ponto de vista natural e do clima, podem nunca ser esclarecidas. E, se o forem (como atribuir as causas destes graves acidentes naturais a alterações climáticas), nada nos diz que se poderão evitar ou mesmo minimizar.

Um radar meteorológico que falta na Madeira (por responsabilidade nacional, visto que o Instituto de Meteorologia depende directamente da sede em Lisboa), dizem-nos, podia ajudar a prever com cerca de três a quatro horas de antecipação, mas pouco ajudaria na prevenção das consequências verificadas. Eventualmente um alerta lançado a tempo poderia evitar minimizar o número de mortes e acidentados, mas poderia ainda ser ser marginal o seu efeito, ou mesmo ser mais grave.

A força das águas, que ganharam energia cinética pela construção efectuada no sentido de corrigir os cursos de água, as ribeiras, foi a maior responsável pela imensa destruição e devastação quase generalizada, numa bela cidade de cerca de cem mil habitantes. Mas ainda assim os aluimentos de terras destruiriam e matariam, como destruíram e mataram. Nada poderia ter feito parar esta imensa e, felizmente absolutamente excepcional, força destruidora da natureza. Talvez um sistema de redução da energia e fluxo da água nas ribeiras pudesse ter minimizado e de forma significativa os estragos verificados, em habitações (essas sim em locais de alto risco e que terão de ser repensadas, assim como todo o ordenamento urbano), em viaturas e a morte por arrastamento de tantas pessoas.

A Madeira é uma ilha belíssima pela agressividade fascinante das suas montanhas, cabos, escarpas e pela profusa vegetação. O clima é bastante ameno e convidativo. As tradições turísticas são das mais antigas de toda a Europa e as mais antigas com continuidade, em Portugal. A Madeira é a região com turismo de mais elevada qualidade em Portugal. É uma terra difícil, de grandes declives e recortadas encostas, onde fazer agricultura é quase uma aventura.

O seu povo, ainda pouco evoluído socialmente, para os padrões europeus, fruto possivelmente de políticas erradas de muitos séculos e que a Democracia não conseguiu ainda corrigir, é um povo extremamente lutador, dentro e fora da ilha. Um povo que ama incondicionalmente a sua terra.

Há muitos anos que a Madeira é dirigida por um homem que comete excessos de linguagem e dá pouca importância a um rigor financeiro e económico, tanto quanto denota algum desprezo por algumas regras essenciais da Democracia. Mas este homem também foi responsável pelo actual desenvolvimento notório da Ilha. E pelo melhor rácio de aplicação de verbas, quer do Governo central, quer da União Europeia, em todo o Portugal e toda a Europa.

Na Madeira todos os Bombeiros são profissionais. A ilha tem a melhor distribuição de centros de saúde de todo o país. É uma das regiões com melhores equipamentos socais em Portugal. As obras públicas, as mais difíceis em Portugal dada a orografia da Região e natureza rochosa, exigem elevados conhecimentos técnicos e, não por acaso, algumas das obras de engenharia mais difíceis e arrojadas se situam na Madeira. Esta ilha tem lutado para avançar no tempo e melhorar as suas condições de vida, ainda assim tão duras para tanta gente. Há imensas diferenças sociais ainda por resolver. Imensas feridas e sofrimentos, numa terra de clima habitualmente ameno, mas que ciclicamente é atingida por estes fenómenos naturais.

O que aconteceu neste Sábado foi uma autêntica calamidade, com consequências gravíssimas, do ponto de vista humano, social e económico. O Turismo, principal actividade económica sofrerá profundas e alargadas consequências, no tempo e na substância.

Todo o país demonstrou uma solidariedade fantástica que o povo madeirense agradece e nunca esquecerá. Nestes momentos podem verificar-se como se diluem ou apagam as diferenças políticas, mas ainda há quem use de algum veneno ou de um sarcasmo imperdoável, mencionando personalidades, num tom irónico ou jocoso, e destacando-se, assim, pela negativa, da elevação altruísta que estes momentos exigem.

Aos habitantes desta ilha linda e lutadora, que sofrem com tudo isto, a minha palavra de solidariedade, como madeirense e como português.

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