28.10.09

No país dos carros negros (II)


Entra no café pelas nove da manhã, ali junto à estação da linha do comboio, em Oeiras e pergunta: Posso ir à casa de banho? O empregado, um pouco surpreendido, sentindo-se algo como um professor em sala de aula, responde: sim, é ali à esquerda. A senhora, com evidências de noite mal dormida, arrasta os pés, indolente e preguiçosa, de uma noite de mais tristezas e misérias, que nem a deixam pensar que o direito a frequentar uma casa de banho de um café, é um direito público, que não pode ser bloqueado, para além dos normais 'direitos de admissão' a um espaço que, sendo publico, pertence a uma empresa privada: um café.

Ser de direita e ser de esquerda: continua-se a fazer a divisão da sociedade, em momentos particulares, felizmente, entre os que são, ou serão, de esquerda, 'os bons, amigos dos outros, dos mais carenciados', e os de direita, os egoístas, que vêm o mundo e a vida pelos olhos do 'vil metal' e da nota de Euro/Dólar. Visão minimalista e redutora, para além de total e completamente anacrónica. A dita 'esquerda' pratica cada vez mais políticas tradicionalmente tidas como de 'direita' e a direita, nem por isso as pratica como se fosse 'esquerda'. Como se as ideias da Revolução Francesa (de 1789!!!) ainda hoje fossem actuais e fizessem algum sentido, como se estar de um lado, político, aliás renegado pela generalidade das pessoas, como sendo a política uma 'parte suja' da vida e da sociedade, fosse bom e estar do outro fosse mau.

Não sendo bastante esta redução das pessoas a 'clubes' ou 'sectores' sociais, aliás inexistentes, por quanto a única participação activa e permanente das pessoas na vida política se resume à vida autárquica e, como tal, personalizada na individualidade que tem o pode autárquico na sua zona de residência e/ou de trabalho, ainda se tenta, tantas vezes, passar a ideia de que quem não tinha vida adulta por alturas do 25 de Abril de 1974, ou não esteve na Guerra de África (aliás, áfricas...) não pode, responsavelmente, saber de política ou pretender ter ideias ou, menos ainda, responsabilidades políticas. Mário Soares em muitas ocasiões quis passar esta ideia, estúpida e profundamente ignorante, a qual conduz, em ultima análise a que o deu filho, João Soares, não pode 'saber do que fala', e muito, muito menos, o seus netos. Não há pessoas de direita e pessoas de esquerda! Simplesmente!



As tretas de Saramago


Saramago pretendeu criar suspense pelo seu novo livro ou, genuinamente, divulgar e, sendo uma individualidade com elevada visibilidade, levar mais pessoas à sua causa de uma suposta, mas sempre, por ele, mal explicada aversão às religiões- ou apenas à Igreja Católica, e nem sequer ao Cristianismo, no seu tão vasto universo- e à defesa da ideia da não existência de Deus?

Porque para mim não ficou esclarecido. Não que seja muito importante que um cidadão, absolutamente normal, com uma qualidade de escrita razoável, a roçar a ignorância, tantas vezes, e infantil, frequentemente, mas sempre muito imaginativa, criativa e mediática, que até ganhou um prémio mais prestigiado do que efectivamente de valor cultural indiscutível, se venha agora 'confessar' intrínseca e basilarmente ateu. Não que tenha importância a pretensa polémica que entre ele e outros tão mal informados teólogos do provinciano catolicismo português, que se gerou a propósito de um livro interessante do ponto de vista estético, mas um livro pouco mais do que 'menor', como se de uma obra com bases sólidas e culturalmente respeitáveis se tratasse, venha mudar, de alguma forma, mais ou menos radical ou decisiva, o modo de pensar e, mais importante, de acreditar neste mundo ou no seu 'além'.

Saramago apenas interpela, ou roça de ligeiro, algumas 'imagens', poéticas e nada, mesma nada pretensamente realistas, do Antigo Testamento, e não abordou sequer a essência da Teologia Cristã. Saramago, tal como diz Richard Zimler, denota até, infelizmente, uma profunda ignorância sobre a raiz do Cristianismo, teológica e culturalmente.

Como é possível que um homem de quem se tem a ideia que pensa, de forma reconhecidamente fundamentada, ou se julgava assim ser, vem de modo tão infantil defender argumentos como 'se não se queria que as pessoas pensassem de determinada forma, dever-se-ia ter escrito a Bíblia de uma outra forma?'- aqui devia ter aberto um parêntesis para dizer que apenas o Antigo Testamento, e não a Bíblia no seu todo, que não a aborda e que, como se sabe, ela mesma percorre centenas a milhares de anos de história, cultural e religiosa, do 'mundo ocidental' e das raízes mais profundas da nossa civilização, decadente ou não há mais de quinhentos anos, como defende Jacques Barzun. Mas ele não abriu, talvez levianamente, esse parêntesis.

O artigo a propósito escrito por Zimler merece ser lido e reflectido. Nem um, nem outro, nem Saramago, nem Zimler, porém, nem a igreja, também, a meu ver, como todo o seu passado de pretensa Teologia- uma ciência que não sabe bem o que estuda- põem em causa qualquer ateísmo fundamentado.

Richard Dawkins, no seu livro, esse sim, fundamentado e bem estruturado, mas obviamente, tal como os teólogos do cristianismo, passível de ser ou não criticado, aceite ou rejeitado, The God Delusion, defende que Deus não existe, nunca existiu nenhum Deus e que tal se deveu apenas a uma criação da cabeças dos humanos.

Confesso-me cada vez mais partidário da defesa de ideias de Dawkins e, por isso, me riu das infantilidades de um Saramago, pretensamente erudito e pensante. Mas afinal tão provinciano e superficial. Uma pena. Vale a pena, sempre, ler o livro. É divertido, ao menos. É Saramago, com a sua imaginação e tom jocoso, a rir-se do que outros levam a sério a a levar a sério o que não consegue, nem nunca se conseguiu, ou conseguirá demonstrar.

Mas é, mais precisamente, uma tentativa. vã, tardia e não conseguida de defender que vale mais um deus em Marx, supostamente mais humano, mas como se sabe por trás de cujas ideias se cometeram tantas ou mais desumanidades e crimes contra a humanidade, no tempo dos sovietes, e ainda hoje no tempo de Putin, Castro e outros, do que um Deus desconhecido do ponto de vista físico e material.

Mas sempre se venderam mais uns livritos para que beneficie a companheira Pilar. Nada a opor. Um livro é sempre um livro.

Mas vale a pena ler Zimler, neste excelente texto, publicado na Ipsílon: A insustentável leveza da ignorância,

21.10.09

No país dos carros negros (I)


Neste triste país, de tantas 'modas', hábitos inquestionados, 'memes' (replicadores culturais, tais como os definiu e criou o termo, Richard Dawkins), há de tempos em tempos um ligeiro, muito suave e pouco tempestivo, despertar das mentes...

Saramago publicou um novo livro: Caim. Em com 'Caim', ou através dele, Saramago pretende defender a ideia, inteligente e louvável, aliás, mesmo que se discorde, da perversidade da igreja católica, do cristianismo até- mesmo que, sendo ele um laureado com o Nobel, só os católicos, tenham acusado o 'toque', estranhamente...da inutilidade da religião, ou religiões, e, mesmo, da inexistência de deus.

Começo por dizer que partilho inteiramente da ideia da inexistência de deus e da inútil perversidade, maldade até, das religiões, sejam elas quais forem. Por tão só serem uma criação humana, de vantagens duvidosas, excepto talvez alguma, ou muita, bondade e humanismo de que se revestem muitos praticantes de religiões- mas outros, de maldade e violência, em lugar de atitudes ou comportamentos positivos. Essa circunstância, aliás, é vantagem das religiões e a desvantagem, na mesma proporção de pessoas como Saramago que toda a sua vida defenderam ideiais tipo-religião, como o comunismo, ou socialismos desumanos e arcaicos, e tão ou mais violentos que as religiões, também elas com uma longa história de crimes e desumanindades.

Para mim, quando se defendem ideias controversas, polémicas ou profundamente irreverentes, afrontando tudo o que em centenas ou milhares de anos se tomou como certo, seguro e fiável, e que, como neste tema da religião e da fé, toca bem fundo nas convicções respeitáveis- tanto quanto as de quem não tem essa fé e não se 'prende' a ideais teológicos- deve ter uma cabeça impoluta, livre e sem amarras, ou perde a credibilidade ou fica ferido na asa, de raíz.

É lamentável, mas Saramago nunca terá a plateia que pode ter pretendido. Terá boas vendas, mas não mais.

E a ideia era merecedora.

É assim. Somos assim, neste triste país massacrado por teixeiras dos santos, salazares e outros sócrates, onde a estúpida mania dos carros pretos, ou negros, ou cinzentos, dá de nós esta imagem de 'carneiros' ileterados e comandados por 'memes' automatizados e recebidos por herança cultural involuntária.

Ah! E que tal a mania de afastarmos a mesa do café que estava encostada a outra e pedirmos permissão aos clientes da mesa ao lado...'importa-se que nos sentemos?'...para assim termos uma 'espécie de privacidade', em plena pastelaria? Ou construirmos muros altos nas vivendas para que o vizinho não nos veja a comer no jardim, onde só comemos duas vezes no primeiro ano da construção da casa, mas irmos comer a restaurantes, aos olhos de todos, obviamente sem qualquer problema?

Ah, meu país 'dos carros negros'!