As tretas de Saramago


Saramago pretendeu criar suspense pelo seu novo livro ou, genuinamente, divulgar e, sendo uma individualidade com elevada visibilidade, levar mais pessoas à sua causa de uma suposta, mas sempre, por ele, mal explicada aversão às religiões- ou apenas à Igreja Católica, e nem sequer ao Cristianismo, no seu tão vasto universo- e à defesa da ideia da não existência de Deus?

Porque para mim não ficou esclarecido. Não que seja muito importante que um cidadão, absolutamente normal, com uma qualidade de escrita razoável, a roçar a ignorância, tantas vezes, e infantil, frequentemente, mas sempre muito imaginativa, criativa e mediática, que até ganhou um prémio mais prestigiado do que efectivamente de valor cultural indiscutível, se venha agora 'confessar' intrínseca e basilarmente ateu. Não que tenha importância a pretensa polémica que entre ele e outros tão mal informados teólogos do provinciano catolicismo português, que se gerou a propósito de um livro interessante do ponto de vista estético, mas um livro pouco mais do que 'menor', como se de uma obra com bases sólidas e culturalmente respeitáveis se tratasse, venha mudar, de alguma forma, mais ou menos radical ou decisiva, o modo de pensar e, mais importante, de acreditar neste mundo ou no seu 'além'.

Saramago apenas interpela, ou roça de ligeiro, algumas 'imagens', poéticas e nada, mesma nada pretensamente realistas, do Antigo Testamento, e não abordou sequer a essência da Teologia Cristã. Saramago, tal como diz Richard Zimler, denota até, infelizmente, uma profunda ignorância sobre a raiz do Cristianismo, teológica e culturalmente.

Como é possível que um homem de quem se tem a ideia que pensa, de forma reconhecidamente fundamentada, ou se julgava assim ser, vem de modo tão infantil defender argumentos como 'se não se queria que as pessoas pensassem de determinada forma, dever-se-ia ter escrito a Bíblia de uma outra forma?'- aqui devia ter aberto um parêntesis para dizer que apenas o Antigo Testamento, e não a Bíblia no seu todo, que não a aborda e que, como se sabe, ela mesma percorre centenas a milhares de anos de história, cultural e religiosa, do 'mundo ocidental' e das raízes mais profundas da nossa civilização, decadente ou não há mais de quinhentos anos, como defende Jacques Barzun. Mas ele não abriu, talvez levianamente, esse parêntesis.

O artigo a propósito escrito por Zimler merece ser lido e reflectido. Nem um, nem outro, nem Saramago, nem Zimler, porém, nem a igreja, também, a meu ver, como todo o seu passado de pretensa Teologia- uma ciência que não sabe bem o que estuda- põem em causa qualquer ateísmo fundamentado.

Richard Dawkins, no seu livro, esse sim, fundamentado e bem estruturado, mas obviamente, tal como os teólogos do cristianismo, passível de ser ou não criticado, aceite ou rejeitado, The God Delusion, defende que Deus não existe, nunca existiu nenhum Deus e que tal se deveu apenas a uma criação da cabeças dos humanos.

Confesso-me cada vez mais partidário da defesa de ideias de Dawkins e, por isso, me riu das infantilidades de um Saramago, pretensamente erudito e pensante. Mas afinal tão provinciano e superficial. Uma pena. Vale a pena, sempre, ler o livro. É divertido, ao menos. É Saramago, com a sua imaginação e tom jocoso, a rir-se do que outros levam a sério a a levar a sério o que não consegue, nem nunca se conseguiu, ou conseguirá demonstrar.

Mas é, mais precisamente, uma tentativa. vã, tardia e não conseguida de defender que vale mais um deus em Marx, supostamente mais humano, mas como se sabe por trás de cujas ideias se cometeram tantas ou mais desumanidades e crimes contra a humanidade, no tempo dos sovietes, e ainda hoje no tempo de Putin, Castro e outros, do que um Deus desconhecido do ponto de vista físico e material.

Mas sempre se venderam mais uns livritos para que beneficie a companheira Pilar. Nada a opor. Um livro é sempre um livro.

Mas vale a pena ler Zimler, neste excelente texto, publicado na Ipsílon: A insustentável leveza da ignorância,

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