4.8.08

Emoção, razão...amor, paixão...responsabilidades: as asneiras seculares nas nossas relações


Volto a alguns temas preferidos para os envolver numa grande amálgama, numa ‘sopa de ideias’ que quero deixar à consideração de quem (ainda) me lê.

Emoção, razão, sexualidade, sentimentos, enamoramento, paixão, amor, casal, sociedade, religião…

É espantosa a confusão que ainda hoje ouço e sei haver entre tantos adultos sobre estes assuntos. Espantoso…

…que se defenda uma relação a dois com base numa justa concentração de sentimentos mútuos, numa fusão de emoções, numa intersecção de ideais um sobre o outro, no fundo, que as relações, de namoro, de casamento se devam pautar pela paixão e amor genuínos, para…tempos depois, no quase sempre inevitável desenamoramento e assumir da perda da paixão ou do amor, se defenda a racionalidade e se considere a emocionalidade, antes defendida, uma coisa para ingénuos, imberbes, irresponsáveis e infantis. Nesse momento, ser ‘racional’ é ser adulto.

Ditam assim as regras sociais, as regras religiosas e toda a nossa educação, activa ou passiva, assim nos vem a formatar desde há vários séculos, numa base judaico-cristã, claro.

A sexualidade ainda hoje é vista como um dos lados ‘quase-negros’ das nossas relações e poucos de nós estamos à vontade, com excepção de tradições mais luteranas do cristianismos, onde se cultiva o gosto por sermos genuínos e maduros, e, sim aí de facto, racionais, para falarmos de temas sexuais, sem que se caia numa sessão de humor ou de vulgaridades. Ou alguém se lembre de entrar pela via dos moralismos, pseudo ou autênticos.

A sexualidade associada às relações que perduram ainda é tida como coisa, um degrau acima, mais estranha.

Se uma relação não perdura e se destrói, ou é destruída por uma das partes, essa parte será muitas vezes apelidada de infantil ou irresponsável. Depois...vem a culpa, esse trauma que nos incutem desde pequeninos, nesta triste raíz judaico-cristã. Mas tantas e tantas vezes é a estupidez levada ao extremo, da defesa da racionalidade - a defesa de uma relação sem caminho, por causas ligadas a ela, mas não responsáveis por ela, como os filhos, ou a família, ou os amigos (‘que pensarão os amigos se for eu a acabar o casamento…?...ou a família?’ E se tiver filhos, ‘não serei um irresponsável?’). é essa (pseudo-) racionalidade uma das causas do término das coisas…é o reajustamento de uma relação de maior ou menor duração que começou por ser emocional e se pretende manter, depois pela via fria, difícil e dolorosa da racionalidade, que a leva a um caminho sem saída.
Muitas relações se mantêm por via do que se imagina ser uma inércia, ou uma acomodação ou ainda resignação (mais um termo muito 'católico', vindo dessa imensa 'seita' pouco inteligente que se espalhou como praga pelo nosso mundo, numa hipócrita atitude de humanismo, e que preverteu o cristianismo original, transformando-se de seita em religião instituída...e ainda hoje responsável pelas vidas destruídas ou condenadas à infelicidade de tanta gente...), quando às tantas mais se deve a um quase inconsciente, mas injustificado, racionalismo.

Outras vezes, porém, a destruição sumária e impensada de uma relação vem com uma, também ela pseudo, modernidade. Uma coisa que se vem impregnando numa sociedade com pressa de viver...

É a procura de um processo racional e a desistência, paralela, natural ou forçada de uma sexualidade saudável que leva à colocação da relação à beira de uma enseada que não permite o regresso, mas sim o passo para o vazio…

Deveria cada um perguntar-se antes de mais, se tem uma vocação ou não para relações monogâmicas ou se não a tendo será capaz de assumir o respeito, e viver em função do mesmo, pela outra parte, eventualmente assumidamente monogâmica.

Deveria cada um de nós perguntar-se se deve lutar por relações sem caminho ou ao invés, procurar um atalho para outro trajecto na sua vida, dando a si mesmo o que pensava ter encontrado e, no fundo pela via, quase, apenas, da razão ficou-se a manter o que já não fazia sentido existir.

Deverá cada um de nós dar menos valor às regras, venham da educação espartilhada pela sociedade e pela religião e, ao invés, dar mais liberdade e soltura, aqui sim de forma racional, mas sempre valorizando a sua mente emocional, à sua própria vontade. No fundo, se existir ‘pecado e por essa via, ‘culpa’ tal deve ter mais a ver com o nosso humanismo, com a nossa postura responsável perante os outros e….nós mesmos…e, é claro, com os sentimentos, que umas vezes consideramos e noutras desconsideramos.

Na vida, só nos fazem andar os nossos actos e muito pouco as nossas ideias. Na vida, os actos por vezes têm de ser de coragem. Primeiro para connosco mesmos, com a responsabilidade que temos connosco. Depois, para com os outros. Mas, a emoção e não a razão, essa parte menos e pouco ‘inteligente’ de pensar e gerir os actos e a vida ela mesma, é que nos deve reger. Responsável, mas decisivamente.

Tudo o que hoje não fizermos por nos cingirmos a regras, não nossas mas dos outros, já não se fará nunca. A perda das coisas e das pessoas acontece-nos a cada momento.

A coerência e a constante auto-análise dos nossos pensamentos e actos, deveria pautar mais as nossas vidas do que as regras dos outros, que devem ser respeitadas, mas não têm de ser as nossas, e assim, a luta e a eterna confusão…emoção, paixão, amor…racionalidade…responsabilidade…já não seriam um dilema, ou um drama para muitos de nós. Mas um caminho natural, sem dor...

2.8.08

Desenvolvimentos sociais assimétricos


O desenvolvimento, assumido como hoje o conhecemos e apelidamos, ou seja, numa base de avanço científico, tecnológico, social e (não consensualmente) humano, tem os seus maiores expoentes na chamada civilização ocidental. Este termo, de origem francesa, já de si tem sido alvo de intensa discussão ao longo do tempo. Tal como 'cultura'. Mas, de forma clássica e do senso comum, entenda-se como cultura e civilização as característica identificativas e diferenciadoras de um conjunto alargado de sociedades, com origens e pontos de 'encontro' múltiplos e persistentes no tempo.

Ora, perguntemo-nos porque razão este tal 'avanço' técnico-científico e social (etc) tem o seu epicentro nos países europeus e americanos (alguns, pelo menos). Porque razão, ou o que terá levado a que, a dado momento do desenvolvimento humano, se impuseram pela força e pela cultura estes países em que nos encontramos, do 'ocidente' e não em sociedades como alguma da Ásia, ou do Pacífico, por exemplo.
Sabemos, pela história narrada e documentada, que as armas e os microrganismos conduziram à subjugação ou à extinção de sociedades ou civilizações bem antigas e algumas bem desenvolvidas, à época, como as pré-colombianas ou algumas das africanas ou asiáticas (Egipto antigo e Suméria - Mesopotâmia, a civilização do Crescente Fértil, localizada entre Tigre e Eufrates.
Sabemos que a nossa cultura, religião, artes, organização política e forma de vida foi exportada, por imposição para outras e, no final, todas as partes do planeta, pelo bem e pelo mal. Mas porque não se deu esse momento noutros locais e noutras civilizações? Porque não foram os Maori e Moriori ou os Polinésios, em termos gerais, os arautos do desenvolvimento e da expansão civilizacional?
É claro que neste caso concreto a localização e a descontinuidade geográfica impuseram-se de forma natural como barreiras a tal expansão e constituição de hegemonias.
Mas os Asiáticos, não são hoje tidos como mais antigos no estabelecimento de uma civilização e culturas bem sólidas e características? Ou não teriam e não tiverem durante muitos séculos esse pendor imperialista e expansionista que hoje se lhes pode imputar? E porque não o tiveram antes?
Um povo ou uma civilização ganham hegemonia e universalidade quando dominam um conhecimento ou tecnologia que se vê como importante e decisivo, numa dada época, para muitos outros povos e áreas geográficas. Talvez isto seja parte da resposta. Mas ainda assim insuficiente, para explicar, ao menos e no limite, como tem um povo essa capacidade e não a tem um outro, noutro local bem diverso.
Portugueses e espanhóis dominaram o mundo numa época em que o domínio da navegação marítima era a solução para os problemas de expansão e necessidades económicas de culturas e países que já não encontravam nos seus territórios, os bens fundamentais ao seu crescimento, ou mesmo subsistência. Alguns séculos mais tarde a descoberta da máquina a vapor veio introduzir um novo factor de desenvolvimento, numa época também ela, de necessidade absoluta de crescimento social e económico.
Em épocas de estrangulamento económico ou social, há tendência para surgir uma nova tecnologia que permite a quem a descobre e/ou a quem a desenvolve uma hegemonia e um domínio sobre os outros, sobre os que não detêm tal conhecimento. A era da informática e iniciou-se nos países anglófonos, mas hoje o seu domínio e desenvolvimento está a deslocar-se para oriente. Por isso mesmo nesses países o desenvolvimento conhece tempos nunca antes vistos e a ameaça, seja ela bem vista ou não aos nossos fracos olhos de ocidentais, de uma nova hegemonia está cada dia mais presente.
Mas falta ainda um novo paradigma em tais países e esse é o do desenvolvimento humano, mais do que o social, que permita outras formas de vida e organização política e que a justiça tenha outra face, e as economias individuais e domésticas sejam bem mais próximas das que conhecemos a ocidente. Sem isso, bem podem os orientais crescer e impor-se economicamente, que a sua hegemonia jamais se construirá.
E nós portugueses que vimos desaparecer esses dias de grande universalidade e importância à escala mundial e hoje crescemos na desorientação do que somos e do que viremos a ser?
Chegaremos nós a descobrir uma nova tecnologia ou conhecimento científico que se torne importante e imprescindível para este mundo globalizado (no início 'americanizado' mas agora mais 'orientalizado', pouco a pouco)?·

Como uma Finlândia conseguiu com as telecomunicações móveis? Mas ...e com este nível educacional que reconhecemos tão baixo, chegaremos algum dia lá?