13.7.08

O fim do Cristianismo e da Cultura Ocidental?



Após dois mil anos de Cristianismo parece-me que se assiste à maior crise das igrejas cristãs de sempre. A católica passou por muitas convulsões e, apesar, das atrocidades cometidas há, no máximo cinco séculos (muito pouco em termos da história da humanidade, mas suficientemente distante para que hoje os praticantes e membros da igreja de Roma se sintam confortáveis com a mesma), continuou a ter fiéis e a manter por muitos séculos, com excepção do final do XX e início deste XXI, a sua hegemonia em muitos dos países de tradicional implantação, se não mesmo uma influência ou autoridade sobre os Estados. Nenhuma igreja cristã se lhe pode comparar em influência no mundo, nas pessoas e na política. A Anglicana, por força da reforma, ou antes, cisão, que lhe deu origem, não manteve a mesma influência ou poder, dependendo isso mais do monarca de cada época, até por ser ele ou ela, os chefes máximos dessa Igreja.

As Igrejas ortodoxas, grega ou russa, com as suas tradições bem enraizadas mas com uma prática mais próxima do adjectivo que lhes dá o nome (ortodoxia), e com as perseguições de que foram alvo, tiveram apesar disso alguma influência sobre o poder e as ideologias reinantes, mas de época para época, a sua hegemonia social foi variando ao longo do tempo e não é ainda claro que o seu papel nas mentalidades e ideologias, ao longo da história tenha sido determinante. Porque outras ideologias se tornam mais hegemónicas, ou totalitárias, pela vertente politica.

A Igreja de Lutero tem, talvez, sido das que mais se vem mantido mais estável e mais fiel aos ritos e tradições originais do fundador. Nos países ou regiões onde se tornou a principal expressão religiosa, ganhou um estatuto de serena estabilidade e respeitabilidade. Desprovida de artefactos e associada a uma ideia de fidelidade aos princípios cristãos originais, transmite ainda uma imagem de estar à parte das políticas e filosofias sociais, o que pode constituir a perfeita receita para a sua imensa estabilidade. Associa-se frequentemente, à sua doutrina e à sua postura, algum do sucesso da sociedades onde se mantém como expressão preponderante de uma religião que, há dois mil anos, se foi implantando pela diferença, baseada no humanismo e na libertação do Homem e, na essência, de forma simplista, da igualdade entre todas as pessoas perante Deus e perante poderes políticos instituídos.

Na actualidade, porém, os movimentos e transformações sociais, políticas e económicas, nas culturas ocidentais, tem vindo a limitar o papel destas Igrejas e do cristianismo em geral, levando-as a um reduto de, cada vez mais, reduzida influência na vida das pessoas e sociedades.

Há um crise crescente, por demais evidente, senão apenas na Igreja Católica, mas em muitas das Igrejas cristãs. Uma crise de influência, uma crise de práticas. Pouco a pouco, ao longo de não mais do que algumas dezenas de anos, o Vaticano foi vendo esvaírem-se dos seus templos de prática, as multidões que antes, durante a vigência de outras ideologias e regimes políticos os enchiam e onde a sua voz era tida em conta. Cada vez mais a voz que antes brandia contra evoluções e tendências sociais crescentes, e que era respeitada, foi deixando de ser levada na mesma conta que outrora se fazia marcar.

Paralelamente, o islamismo tem vindo a ganhar um papel de influência, quer nas suas sociedades de implantação natural, quer nos países para onde os seus fiéis se têm vindo a expandir. A emigração crescente proveniente de regiões do norte de África e das regiões subsarianas, tendencialmente a empobrecer, e crescentemente a desertificarem-se, vem trazendo para as regiões europeias de tradição fundamentalmente cristã, novas populações, mais profícuas em crescer a descendência do que as origem e cultura europeia.

As Igrejas cristãs podem estar mesmo a assistir à sua morte. O islamismo, uma das mais jovens religiões do mundo, com carácter universal, ganha importância e ganha populações.

Os princípios cada vez mais prementes e de reconhecida sensatez, de respeito democrático pelos dois sexos, em igualdade, e por outros credos ou tradições, norma e prática típicas na cultura ocidental, podem um dia, não muito distante, ser postos em causa pela supremacia populacional de outras culturas, no próprio terreno natural da cultura dita ocidental.

Dentro de algumas dezenas de anos a inexorável imigração que a Europa não conseguirá controlar, será o pano de fundo de todas as práticas e tendências sociais nos nossos países europeus. Será este o problema maior com que nos teremos de defrontar, e bem mais, até, do que o do impacte económico e social que esses povos e culturas trarão ao nosso dia-a-dia. Em muito pouco tempo, o regresso de culturas que há cinco séculos portugueses e espanhóis expulsaram da Europa, regressarão de forma bem mais silenciosa e eficiente, e, provavelmente, determinante dos nossos futuros.

E este movimento não tem retrocesso. Os valores, por exemplo do respeito pelas mulheres no seu papel na sociedade poderão, ou não, ser postos em causa. O nosso saudável multiculturalismo europeu, ele mesmo, ficará em cheque.

O status das populações europeias e, bem mais, de uma certa classe política hoje vigente, medíocre e profundamente tanto autista, como narcisista, será afrontado pela supremacia populacional de outros povos e culturas, que crescem e se multiplicam a taxas bem superiores ás das nossas sociedades.

Atitudes como as de se porem em causa a voz das populações, como no caso do referendo na Irlanda, sobre o Tratado de Lisboa, em nada contribuirão para contrariar a decadência acelerada da cultura ocidental, que uma tremenda e perigosa cegueira, insiste em não querer ver.

Para tal contribuíram uma globalização caótica e apenas regida por princípios económicos, que arrastou, mas de forma não racional, práticas culturais pouco consistentes por um lado, e pouco saudáveis e compagináveis com as tendências e necessidades e problemas crescentes: alterações climáticas, crises energéticas, necessidades distintas dos povos e culturas. E até, uma coisa de que pouco se fala: o crescimento da prática democrática à escala mundial.

As alterações climáticas, a crescente escassez de alimentos, associada a duvidosas formas de energia, alternativas sim, mas pouco credíveis em termos de conservação ambiental, as fortes migrações em várias regiões do planeta, transfigurarão as nossas sociedades, e alterarão as hegemonias hoje existentes.



O cristianismo, como hoje o conhecemos, que se expandiu decisivamente após a conversão de Constantino (que alguns estudiosos põem em causa ter-se alguma vez verificado), Imperador de Roma pode estar a desaparecer, ou a perder a sua decisiva influência, vindo a reduzir-se a uma religião-nicho, sem impacte social.

Este processo pode, muito credivelmente, ser acelerado pelo início de mais uma guerra com um país islâmico e esperemos que não tenha carácter nuclear...

6.7.08

Bach e outros: case study do humano


Ouvir Bach (J.S. Bach) hoje é, para quem aprecia o género musical, uma experiência transcendental. Uma música dos deuses, é uma das expressões mais frequentemente ouvidas. Bach é considerado por muitos, especialistas musicólogos ou apenas melómanos o maior compositor do Barroco ou mesmo o maior compositor de sempre (outros consideram Mozart, ou Beethoven, ou Wagner, ou Mahler). Mas Bach, no seu tempo não foi tão reconhecido, em vida, como hoje se poderá imaginar. Nem popular. Era um compositor metódico, que criava sempre de acordo com os cânones, nunca fugindo muito a tais princípios. Mas também dever reconhecer-se que inovou, e muito, mesmo usando as clássicas regras da composição. Criou pérolas de música bem evoluídas para a sua época, como as fugas, invenções, suites para instrumentos solistas, sinfonias e partitas. Obras sacras de grande vulto e fôlego, pequenas obras com base em temas simples por vezes sugeridos por outros como pelo seu admirado o Kaiser Friederich II da Prussia, como a famosa e inovadora Musikaliches Opfer, sobre um tema do Imperador.

Alguém me disse um dia que se tivesse de escolher música para levar para uma ilha deserta, como último consolo da alma, seria música de Bach.

Estranho que nem sempre se saiba que até o Século XIX, quando Mendelssohn reabilitou J. S. Bach, quase que o grande compositor do Barroco Alemão, poderia ter caído, até hoje, no esquecimento. Bach esteve quase para nem se tornar conhecido da corte da Prússia, no seu tempo, pois só pela desistência de Telemann é que conseguiu obter o lugar de Kappelmeister em Leipzig. Pois Telemann era o mais afamado e considerado compositor canónico da época, em terras da Prússia, bem visto. E um outro compositor, que, no seu tempo foi o maior no género, ainda hoje permanece como um grande desconhecido: Reinhard Keiser. Este foi o mais importante, inovador e popular compositor da ópera alemã no período Barroco (termo que, curiosamente vem do português e significava originalmente, tosco, pesado e complexo).

Keiser compôs inúmeras óperas, das quais hoje só uma existe gravada e editada em CD (Croesus, da Harmonia Mundi)


Uma lista de óperas de Keiser podia ser esta :


Der königliche Schäfer oder Basilius in Arkadien (probably Braunschweig 1693)
Cephalus und Procris (Braunschweig 1694)
Der geliebte Adonis (1697)
Der bei dem allgemeinen Welt-Frieden von dem Großen Augustus geschlossene Tempel des Janus (1698)
Die wunderbar errettete Iphigenia (1699)
Die Verbindung des großen Herkules mit der schönen Hebe (1699)
La forza della virtù oder Die Macht der Tugend (1700)
Störtebeker und Jödge Michels (2 sections, 1701)
Die sterbende Eurydice oder Orpheus (2 sections, 1702)
Die verdammte Staat-Sucht, oder Der verführte Claudius (1703)
Der gestürzte und wieder erhöhte Nebukadnezar, König zu Babylon(1704)
Die römische Unruhe oder Die edelmütige Octavia (1705)
Die kleinmütige Selbst-Mörderin Lucretia oder Die Staats-Torheit des Brutus (1705)
Die neapolitanische Fischer-Empörung oder Masaniello furioso (1706)
Der angenehme Betrug oder Der Carneval von Venedig (1707)
La forza dell'amore oder Die von Paris entführte Helena (1709)
Desiderius, König der Langobarden (1709)
Der durch den Fall des großen Pompejus erhöhete Julius Caesar (1710)
Der hochmütige, gestürzte und wieder erhabene Croesus (1710, revised edition 1730)
L'inganno fedele oder Der getreue Betrug (1714)
Fredegunda (1715)
L'Amore verso la patria oder Der sterbende Cato (1715)
Das zerstörte Troja oder Der durch den Tod Helenens versöhnte Achilles (1716)
Die großmütige Tomyris (1717)
Jobates und Bellerophon (1717)
Ulysses (Copenhagen 1722)
Bretislaus oder Die siegende Beständigkeit (1725)
Der lächerliche Printz Jodelet (1726)
Lucius Verus oder Die siegende Treue (1728)


Isto, para falarmos de um aspecto mais do Homem e das sociedades, neste caso ocidentais, da sua cultura e da importância relativa das coisas. Imagine-se que se convidava alguém, uma bela mulher por exemplo, conhecedora ou não, para um concerto para violino de, digamos, Karol Szymanovsky, por Ilya Kaler.

Na Naxos está disponível uma edição excelente por esse artista notável, uma gravação imprescindível. Mas um violinista não muito conhecido e uma editora low price, reservam-lhe lugar de menor destaque. Um compositor não muito popular e um intérprete menos conhecido não eliminam a possibilidade de se poder assistia a um concerto único, ou a uma gravação, como é o caso.

Tal como no tempo de Bach e após ele, muitos compositores e músicos ficaram no esquecimento, e noutras áreas da arte, de forma idêntica. O ser humano é mesmo um case study. Há valores que passam sem serem notados, diria, todos os anos, ou meses…e são relegados ao esquecimento, tal é a nossa preocupação com o marketing (de que sou praticante activo e admirador, diga-se), publicidades, técnicas de comunicação, criação de imagem, marcas ou griffes…

Dito de outra forma, talvez cada um de nós possa, afinal, ter acessível a criação de algo de grande valor mas nós mesmos desprezamos essa possibilidade, quando não o fazem outras (sem critério e no uso da sua plena ignorância) pessoas por nós

5.7.08

Humanos: um 'case study'



É para mim cada dia mais surpreendente a forma como as pessoas se agarram a crenças, convicções e conceitos que nunca poderão confirmar. Sempre, desde novo, mas mais agora, me espantou que a nossa mente usasse dois critérios de raciocínio, de conceptualização, de conduta, de atitude e, depois, procedimento.

Pensemos na ideia de Deus.

Tantos pensadores, filósofos da teologia, ou muitos outros, e tantos humanos que os seguiram, conscientemente ou não, assumiram, pouco a pouco a ideia de Deus, como certa, segura e inquestionável, leia-se, dogmática.

Por detrás não da ideia em si mesma, não do conceito de Deus, ou da crença se quisermos, mas do raciocínio - ou da ausência dela, visto que o dogma uma vez universalmente aceite, dispensa e repudia o raciocínio, pelo menos o que o pode por em causa – há um formato que devia incomodar os pensadores, tanto que a dada altura o fez, mas tal já não passou para as pessoas comuns em geral, como também não se fez eco em relação a outros conceitos, dogmáticos ou que exigem crença ou fé.

Se, por um lado o dogma só existe, enquanto não questionado, pelo menos de forma essencial, por outro, os aspectos pragmáticos que com ele se relacionam já apelam de uma lógica bem mais ‘terrena’, e bem mais prática de sentido e de atitude: as instituições e regras religiosas. Ou seja, com uma parte do nosso cérebro concebemos uma ideia de Deus, e lhe tentamos dar forma, tal a nossa incapacidade de pensar em ‘vazios sem forma’ ou sem ‘imagem’, outra parte, ou outro formato mental e possivelmente estruturas físicas e químicas do cérebro, leva-nos a conceptualizar uma prática para as coisas que sustentarão o dogma. Para mim, na minha incapacidade, de compatibilizar as duas formas, assume-se isto muito estranho. E duvidoso.

Se a ideia de Deus assim se irá por em causa, pouco a pouco, existem outras fés, terrenas, dir-se-á, numa tentativa de sacralizar o desconhecido suposto superior, tais como o amor, a amizade, a lealdade, o carinho…

Tudo questões de fé, se não me equivoco, umas de conceito mais forte ou emocional do que outras. Mas de fé. Ou de crença. Não existem enquanto não cremos nelas. Só existem dentro de nós e, claro, tomam forma, no contacto com os outros, através da mesma simbologia ou linguagem.

Mas Fé religiosa, amor humano, paixões, sentimentos de amizade, são puramente conceitos tipicamente dos homens, e não dos animais, que não conseguem criar e inventar, por assim dizer, o que os sentidos não nos transmitem. Sinais, sim. Formas de linguagem associadas a tais criações da nossa mente, sim. Mas amor, paixão e amizade existem bem dentro de cada um de nós. Se e quando assim o entendermos.

Questões de fé! Mas bem importantes, sem dúvida.

O amor, em particular, ou a paixão, que é outra forma de amor, ou fase, são exigentes connosco mesmos, por necessitarem de uma linguagem não só de um mas de dois. E a conjugação das duas fés, em simultâneo pode afigurar-se impossível, ou difícil ou intransponível em dado momento, mesmo que noutro se tenham realizado. O que pressupõe um realismo, ou seja, uma passagem do conceito à linguagem comum e sincronizada entre, pelo menos, duas pessoas. Parecendo simples e trivial, se nos pusermos a imaginar a ínfima probabilidade de se revelar realidade entre dois seres, calcular-se-á a tremenda dificuldade da coisa. E, para isso os humanos inventaram as relações, físicas, sexuais ou não, que já as havia antes do conceito, mas que se deverão ter ligado a ele, à tal fé ou amor, por necessidade. Necessidade instintiva há milénios, e de procura de equilíbrio emocional cada vez mais presente e premente, à medida que a raça humana foi sendo alvo, ou vítima, de evolução.

Hoje, o amor passional que se vivia, escrevia e lia nos grandes clássicos já nos parece inusitado e inverosímil mesmo que intrinsecamente possa existir, pois a tal necessidade de controlo ou equilibro emocional assim o reverteu para um realismo muito pouco compatível com a fé, ela mesma, bem implantada nas nossas raízes humanas. Fé, no amor por alguém. Hoje, por isso mesmo, se questiona em demasia, por vezes, e nos defendemos (em exagero com frequência, como se a recusa do óbvio fosse um ideia mais racional do que a sua aceitação, mas o que dita a regra é a protecção emocional, contra o sofrimento, não permitindo, tantas e tantas vezes que nos deixemos levar uma vez mais, no canto e encanto que esta fé material nos pode trazer e velando os olhos e sentidos ao mais fácil...e saudável....às vezes), por outro lado, de sermos ´vítimas´dessa que nos torna os dias mais leves e de valor, e permitiu, no limite a continuação da raça, porque precisamente pomos em causa esta fé especial já não o fazendo pela outra, num Deus que ninguém viu.
Mas viu…o humano que lhe solicita o amor…
Mas se, quando o amor existe, existe fé, quando ele não é correspondido, a própria fé no ser humano se pode desvanecer.
E como é com a amizade? Será muito diferente? E a lealdade?

Engraçados somos nós humanos. Um ‘case study’ parece-me…de um estudo interminável.

Bad day


Interessantes os fluxos e variações com que a vida, frequentemente, nos surpreende. Interessantes ou, melhor, decepcionantes, ou, ainda, desafiantes. Se nuns momentos sentimos tudo a correr-nos bem, nesses dias em que tudo, ou quase sai como queremos, noutros, tudo sai ao contrário e parecem, até, desmoronar-se as nossas convicções, superficiais ou não.


Há dias em que nos parece que tudo foi feito à medida das nossas expectativas, mas noutros, basta um sinal, de alguém importante para nós, e o nosso mundo vem por aí abaixo, que nem um castelo de cartas.


Fica-se com vontade de deixar passar. Deixar o tempo correr e que o dia, mau, termine rápido. Mas quando julgamos que já passou o pior vem mais uma notícia, mais um telefonema, ou a ausência dele, e ...até alguns amigos sentimos poder perder.


Uma toca, um esconderijo recôndito ou um lugar no cimo de um grande rochedo à beira-mar, para nos sentarmos sozinhos, à espera do regresso do ciclo bom.


Nada nos sai bem. O que dizemos, o que pensamos...o que nos dizem. O que queríamos que dissessem e não chega.


Esperemos pois. Enquanto houver energia, pelo menos...

2.7.08

No teu regresso


Tu não vieste. Nem entraste na vida que eu ia vivendo.
Foste chegando. O teu efeito ia aos poucos sendo o meu sistema,
Fazias dos meus tempos a ideia que criava de ti.

Não chegaste como se entra numa vida que se suspende a si mesma.
O meu tempo foi uma vítima do teu melhor. A vítima bafejada.
O teu pouco ia agora ser o meu muito. O meu único.

Assim que te ias transformando no meu centro,
Ia desejando não me aprisionar de ti
Mas o teu espaço era o há muito esperado,
Ou era o desejo que o fosse.
A calma e a paixão lutavam em ti.
A tua vinda era esse ar que nos chega fresco com a noite,
Nos dias quentes amordaçados da minha preguiça de viver.
Ia vindo e eras esse duche fresco ao final de uma canícula de asfixiar.
Um ar novo que queria conhecer
Um ar que não queria, afinal, não ter.
Uma brisa humana de seda feita.
Uma nova vida na vida já velha.
Eras o ar respirável na poluição dos meus dias.

És…a minha brisa mais forte e profunda.
Fazes de mim um marinheiro que não quer porto,
Uma folha ao vento que não quer assentar,
Um ébrio que resiste a despertar.

Leva-me nessa brisa que trazes contigo.
Enlevo-te se me trazes a frescura envolvente.

Regressas onde nunca antes estiveste.
Mas onde vais tudo te será como se já vivido.
Porque… se vens, irás…comigo!