Depois do prazo


Não é bem a mania de se sentir e ser, ou querer, apenas, jovem numa idade avançada. Cota. Quando se é cota? Quando os filhos nos vêm assim. Pode-se ter a mesma idade do amigo ou amiga tal, mas se eles não têm os filhos na fase de verem e chamarem cota aos pais, eles não são. É ser jovem, mesmo, após o tempo para o ser.

Depois da idade em que o deveria ter sido. Não o a cinco de Janeiro de sessenta e oito (outro século para os evidentemente jovens...), quando Alexandre Dubcek ganhas as eleições na Checoslováquia e começa a liberalizar o regime, ou em Agosto desse mesmo ano, quando as tropas do Pacto de Varsóvia trazem consigo as negras nuvens da ditadura comunista, num regresso mais violento do que fora antes...ou em Maio desse ano, em Paris, ou no início da guerra do Vietname, na queda de Salazar da cadeira, no assassinato de Marthin Luhter King, na Encíclica Humanae Vitae (umas das proclamações menos humanas do Vaticano, precisamente) ou no ano da morte de Yuri Gagarin...tudo nesse ano de todos os acontecimentos....

 

Não, nesse 1968 era jovem ou ainda antes de jovem. Por isso se passou tudo e tudo e só mais tarde se soube.  Agora, nos dias de hoje mesmo, ter-se passado por esse 68, não nos permite o regresso a sermos jovens, mas outras coisas, talvez...sim.

 

Ser-se jovem por necessidade e não por mania obsessiva. Mas não, também pelo seu oposto, dos que dizem ‘ no meu tempo’, qual morte antecipada de espíritos.

 

Ser-se jovem na idade cota, por não o ter sido, quando se o era. É, talvez, lindo e estimulante, mas aqui é que dói. Não se foi no momento certo, tendo trocado cervejas numa esplanada e voltares de cabeça à passagem das ‘miúdas’. Não, quando era o tempo de esticar-se pelas noites na discoteca com os amigos, a olhar as ‘miúdas’, com olhos de carneiro mal morto...noites inteiras aos fins de semana e nas férias, sofrendo amores nunca chegados a viver...

 

Não, porque o tempo foi outro, foi de sede de ler e de aprender, de ouvir uma Quarta de Beethoven, vivendo o romantismo das notas duzentos anos depois de compostas e não o das garinas, ali mesmo a centenas de metros de casa, nessa esplanada cheia de burburinho e feromonas saudáveis.

 

Ser-se jovem fora de época, de estação e até local, para se viver vida nunca antes vivida. Levou-se meia vida a querer coisas e a mesma meia a perdê-las. Não devia ter sido aquele o curso e nem talvez o primeiro emprego. Não devia ter sido aquela a mulher com quem se casar, nem a cidade onde se viveu.

 

Hoje, todos lhe dizem ser extraordinário e único, um homem excepcional (?) e que não haverá muitos mais e não sabe o que fazer com isso.

 

Conhece gente normal sem formação e quem não consegue nem escrever ou falar ‘direito’. Conhece gente muito bem formada que o desorientam um pouco mais. Não sabe o que fazer com esta gente...

Pelo caminho duas amigas que o deixaram de ser. Duas mulheres inteligentes e interessadas, com quem teve imenso prazer em conviver mas, fruto de muito 'umbigo' feminino, não e interessavam se não por elas mesmas. Ah! interessante a auto-comiseração (este texto será exemplo disso mesmo? Ou um teste a essas simpáticas ex-criaturas?) com que uma delas rotulou a sua atitude nas suas conversas entre eles. Porque será que o uso da mentira, numa, e da frustrante insegurança, não assumida, na outra, lhe soam às suas duas maiores derrotas com amigos?

Porque não se sabe viver uma idade, fora e depois dela.

Bate-lhe um vento frio na janela que lhe perturba a solidão escolhida. Num corpo cheio de uma energia inesgotável e nunca usada, fica sem saber o que lhe fazer. A força e energia ficam presas em nós, à medida que a idade avança. Encerra nessa energia tudo o que lhe ficou por fazer e guarda no seu potencial, todos os sonhos por realizar. 

Conhece uma pessoa muito especial. E talvez outra e outra e tudo o que julgara saber, se gela com o mesmo frio que lhe bate à janela. Mas, sim houve alguém que lhe tocou...

Anda para saber o que fazer consigo mesmo.

(imagem: Doug Geivett's Blog)

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