Humanos: um 'case study'



É para mim cada dia mais surpreendente a forma como as pessoas se agarram a crenças, convicções e conceitos que nunca poderão confirmar. Sempre, desde novo, mas mais agora, me espantou que a nossa mente usasse dois critérios de raciocínio, de conceptualização, de conduta, de atitude e, depois, procedimento.

Pensemos na ideia de Deus.

Tantos pensadores, filósofos da teologia, ou muitos outros, e tantos humanos que os seguiram, conscientemente ou não, assumiram, pouco a pouco a ideia de Deus, como certa, segura e inquestionável, leia-se, dogmática.

Por detrás não da ideia em si mesma, não do conceito de Deus, ou da crença se quisermos, mas do raciocínio - ou da ausência dela, visto que o dogma uma vez universalmente aceite, dispensa e repudia o raciocínio, pelo menos o que o pode por em causa – há um formato que devia incomodar os pensadores, tanto que a dada altura o fez, mas tal já não passou para as pessoas comuns em geral, como também não se fez eco em relação a outros conceitos, dogmáticos ou que exigem crença ou fé.

Se, por um lado o dogma só existe, enquanto não questionado, pelo menos de forma essencial, por outro, os aspectos pragmáticos que com ele se relacionam já apelam de uma lógica bem mais ‘terrena’, e bem mais prática de sentido e de atitude: as instituições e regras religiosas. Ou seja, com uma parte do nosso cérebro concebemos uma ideia de Deus, e lhe tentamos dar forma, tal a nossa incapacidade de pensar em ‘vazios sem forma’ ou sem ‘imagem’, outra parte, ou outro formato mental e possivelmente estruturas físicas e químicas do cérebro, leva-nos a conceptualizar uma prática para as coisas que sustentarão o dogma. Para mim, na minha incapacidade, de compatibilizar as duas formas, assume-se isto muito estranho. E duvidoso.

Se a ideia de Deus assim se irá por em causa, pouco a pouco, existem outras fés, terrenas, dir-se-á, numa tentativa de sacralizar o desconhecido suposto superior, tais como o amor, a amizade, a lealdade, o carinho…

Tudo questões de fé, se não me equivoco, umas de conceito mais forte ou emocional do que outras. Mas de fé. Ou de crença. Não existem enquanto não cremos nelas. Só existem dentro de nós e, claro, tomam forma, no contacto com os outros, através da mesma simbologia ou linguagem.

Mas Fé religiosa, amor humano, paixões, sentimentos de amizade, são puramente conceitos tipicamente dos homens, e não dos animais, que não conseguem criar e inventar, por assim dizer, o que os sentidos não nos transmitem. Sinais, sim. Formas de linguagem associadas a tais criações da nossa mente, sim. Mas amor, paixão e amizade existem bem dentro de cada um de nós. Se e quando assim o entendermos.

Questões de fé! Mas bem importantes, sem dúvida.

O amor, em particular, ou a paixão, que é outra forma de amor, ou fase, são exigentes connosco mesmos, por necessitarem de uma linguagem não só de um mas de dois. E a conjugação das duas fés, em simultâneo pode afigurar-se impossível, ou difícil ou intransponível em dado momento, mesmo que noutro se tenham realizado. O que pressupõe um realismo, ou seja, uma passagem do conceito à linguagem comum e sincronizada entre, pelo menos, duas pessoas. Parecendo simples e trivial, se nos pusermos a imaginar a ínfima probabilidade de se revelar realidade entre dois seres, calcular-se-á a tremenda dificuldade da coisa. E, para isso os humanos inventaram as relações, físicas, sexuais ou não, que já as havia antes do conceito, mas que se deverão ter ligado a ele, à tal fé ou amor, por necessidade. Necessidade instintiva há milénios, e de procura de equilíbrio emocional cada vez mais presente e premente, à medida que a raça humana foi sendo alvo, ou vítima, de evolução.

Hoje, o amor passional que se vivia, escrevia e lia nos grandes clássicos já nos parece inusitado e inverosímil mesmo que intrinsecamente possa existir, pois a tal necessidade de controlo ou equilibro emocional assim o reverteu para um realismo muito pouco compatível com a fé, ela mesma, bem implantada nas nossas raízes humanas. Fé, no amor por alguém. Hoje, por isso mesmo, se questiona em demasia, por vezes, e nos defendemos (em exagero com frequência, como se a recusa do óbvio fosse um ideia mais racional do que a sua aceitação, mas o que dita a regra é a protecção emocional, contra o sofrimento, não permitindo, tantas e tantas vezes que nos deixemos levar uma vez mais, no canto e encanto que esta fé material nos pode trazer e velando os olhos e sentidos ao mais fácil...e saudável....às vezes), por outro lado, de sermos ´vítimas´dessa que nos torna os dias mais leves e de valor, e permitiu, no limite a continuação da raça, porque precisamente pomos em causa esta fé especial já não o fazendo pela outra, num Deus que ninguém viu.
Mas viu…o humano que lhe solicita o amor…
Mas se, quando o amor existe, existe fé, quando ele não é correspondido, a própria fé no ser humano se pode desvanecer.
E como é com a amizade? Será muito diferente? E a lealdade?

Engraçados somos nós humanos. Um ‘case study’ parece-me…de um estudo interminável.

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