Ideias anacrónicas


 

Ando há tanto tempo a insistir que as análises políticas são irrealistas e anacrónicas quando se prendem e tentam, depois, catalogar os partidos e suas personalidades, como de direita, esquerda, ou mesmo de socialistas, comunistas, sociais-democratas, liberais, conservadores, democratas-cristãos, populistas, etc.

 

O conceito de Direita e de Esquerda vem da Revolução francesa! 1789! Por favor…há tanta evolução tecnológica, ideológica e, não tanto como devia haver, mas enfim, sociológica, no mundo e ainda se agrupam as pessoas à direita ou à esquerda! E não se pensa, que antes da dita Revolução, já havia a gestação das mesmas ideias, e que foram melhor clarificadas ou, até, elaboradas por Voltaire, Rousseau, Montesquieu, Diderot, Locke, Kant.

 

Por outro lado, podia parecer que a catalogação das organizações políticas nas ideologias políticas ou filosóficas mais comuns, seria mais legítimo e aceitável. E, para mim, já nem isso faz sentido. Um exemplo é vermos um Partido Socialista a perverter a sua dita ideologia fundacional, usando de práticas ditas de liberalismo. Qual o espanto, afinal? A ideologia ainda faz sentido, Ou melhor, as ideologias ‘tradicionais’. Ou não se olha bem para as mais recentes bases filosóficas, ou se quer insistir nesta decadente e falida critica política ainda herdeira das grandes guerras mundiais e das posteriores crises políticas e sociais, umas sérias outras empoladas, como a ‘cortina de ferro’ a crise da baía dos porcos, a guerra fria, o Vietname, a encíclica Humanae Vitae de Paulo VI, Martin Luther King, Kennedy, Salazar…

 

O mundo muda todos os dias. Bem sei que mais individualmente, economicamente e pouco, muito pouco social, ou culturalmente (ainda menos). Estes conceitos e livros de cromos e catálogos têm de ser revistos.

 

A preocupação recente de saber-se se o PSD é social-democrata, se é Liberal, se é keynesiano…é tão estapafúrdia que escapa aos melhores críticos e intelectuais portugueses. Simplesmente lhe parece impossível e inverosímil que um parido possa ser, primeiro credível, depois eficiente, se não puder ser bem e claramente catalogado. Encaixe-se um Blair, numa ideologia, ou um Sarkozy, ou uma Merkel (há quem ache que sabe metê-los numa ideologia)…

 

O PSD vai ter eleições internas directas e há três candidatos melhor colocados para as disputar.

 

Vasco Pulido Valente, como sempre, faz uma análise inteligente sobre cada um deles, mas susceptível às mesmas críticas que qualquer um de nós pode estar.

 

Manuela Ferreira Leite é uma senhora respeitável, mas segundo Pulido Valente é herdeira do mesmo autoritarismo de Salazar, de Sá Carneiro e de Cavaco Silva (esqueceu-se de Sócrates desta vez). E concordo com ele. O resto já se sabe: é competente, é honesta e meticulosa. É prestigiada, inteligente e capaz. Pode unificar o partido, que, como o povo português, se revê nestas figuras autoritárias.

 

Santana Lopes…diz que mudou. E não consigo fugir a uma análise fazendo o paralelismo com um namorado que, tendo sido posto fora de casa pela sua querida, vem depois dizer que mudou, que agora é outra pessoa, que aprendeu…Mas usa de um discurso, ele bem mais perigoso e degradante: de que há um grupo antipartido, como se ele fosse o repositório e digno herdeiro dos tais ideais fundacionais do PSD. E nem vê ser por isto, que há clivagens que fazem o PS rir-se do seu partido, sendo mais triste, ainda  por o PS ser um partido de incompetentes e de tristes figuras medíocres.

 

Pedro Passos Coelho, segundo Pulido Valente, é um homem que nada tem que ver como o futuro ou com ideias novas, mas sim com o passado e, nem sempre o melhor passado. Será, segundo o ilustre analista que muito respeito, uma mistura de coisas boas e más dos anteriores líderes do PSD. No que eu não concordo.

 

Passos Coelho, que fui ouvir pessoalmente é, precisamente o único político que nos últimos anos me trouxe algum discurso inovador e razoável. Competente e responsável. Ouvi dele o que nunca ouvi de um Sócrates oco de ideias e de pensamentos sequer. Ouvi dele o que nem ouvira de Cavaco.

 

Passos Coelho ainda tem alguma coisa por resolver no seu discurso já eloquente. Não deve, em concreto, deixar-se prender e levar por justificações sobre si mesmo, como para passar a ideia de que a sua inexperiência como governante fosse uma mácula e uma barreira. Deve expor as suas ideias bem alto e bem firme. Deve mostrar-se e expor-se bem pela sua diferença, modernidade, criatividade ideológica. Dever afirmar-se já, nestas eleições internas e não deixar para uma hipotética contenda com um Sócrates vazio e falhado. Não deve temer os experientes Ferreira Leite ou Santana Lopes.

 

Passos Coelho pode ser um dia o nosso Primeiro-ministro. Para nosso bem.

 

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