Pedra, apenas


Talhada para fazer parte de uma calçada. De uma estrada que, como norma, deve conduzir a algum lado. Cortada como tantas outras. Parecia bem. Perfeita até. Tentaram enquadrá-la, combiná-la inserindo-a, entre as outras na calçada.. Não foi possível. Podia ser perfeita, ou parecer, mas não serviria para aquela calçada. Puseram-na de lado, empilhada num monte com outras. Anónima. Acompanhada mas solitária. Uma pedra mais, apenas. Voltaram a experimentá-la, ajustando-a o melhor que conseguiam mas ela recusava-se a ficar bem. Algo não a compatibilizava com as pedras ao seu redor na calçada que iam, pouco a pouco, construindo. Mas a estrada de pedras, todas iguais (bem, o mais possível iguais) teria de continuar.



Rejeitaram-na. Foi atirada para longe dali, para um campo adjacente. Ela parecia mesmo sobrar. Estar a mais. Atirada sem mais escrúpulos para o prado ao lado da estrada, ali ficaria oculta nas ervas. Por muito tempo.



A estrada concluída com as outras pedras. Todas excepto ela. Todas cortadas do mesmo bloco rochoso. Da mesma massa. Da mesma origem, ou família. Esta pedra, no entanto, ficara de lado.



Um dia, uma criança encontrou-a e recolheu-a, encantada. Olhava os seus minerais a brilharem ao sol e comparava-a a um céu de estrelas mágicas. E aquela seria a maior pedra na sua colecção. Preta, mas com essa beleza subtil, de minerais, cintilando, comunicando consigo.



Era a pedra mais importante da sua colecção. A que se sobressaía das demais. Pelo porte, pela presença e beleza subtil. Era, porém, necessário saber ver o seu valor. E nem todos o sabiam.



As pedras na estrada haviam sabido encontrar a sua utilidade. Constituíram uma calçada, de uma estrada , aparentemente bem feita, que podia ou não, levar a bom termo. Ou a sítio algum.



A rejeitada não cumpriu a função para a qual havia sido talhada. Mas era agora o orgulho da colecção de uma criança. Por ela era acarinhada e podia levar um pouco mais de felicidade a essa criança.



As pedras têm muito pouca vontade própria, mas conseguem mais ou menos cumprir com a sua missão. Ou função. Delas veio a terra e o pó. Os solos onde germinam sementes e nascem germes e larvas. Delas as estradas, boas ou não. Com funcionalidade ou não.



Até uma criança pode delas tirar utilidade e ser, assim, mais feliz.



E nós?






Comentários

alguem complexo disse…
wooow... que texto... tu puxas por coisas muito interessantes de dentro do pensamento mais profundo das pessoas :P muito bem... mais um texto daqueles que faz pensar e que... deixa as pessoas sem palavras de tanto pensar :p (pelo menos a mim, volto a dizê-lo) mas é que... coiso!
inte^^
Obrigado mais uma vez pelo teu comentário. É generosidade tua! Mas enfim, tento usar a cabeça, nos meus limitados percentis. E se puder lever uma mensagem com conteúdo a alguém, é gratificante.
Volta sempre.

Mensagens populares deste blogue

Leituras recomendadas

Parece normal

Nenhum dia é suficiente para conter toda a luz