A sombra de Salazar


Estamos em Abril. O mês da Revolução de 1974. Lembro-me bem desse dia. Ouvia na BBC as primeiras notícias sobre o Movimento nas Forças Armadas e do que se passava em Lisboa. No quartel do Carmo, onde estava Marcello Caetano.

Tinha 14 anos e vivi o dia, como uma das grandes novidades da minha vida, do meu crescimento. Nesse dia, para além de, para o país se terem aberto novos e desconhecidos horizontes, abriu-se para mim um mundo novo. Descobri a política, a vida social a responsabilidade, pessoal e para com os outros. Descobri que havia uma forma de fazermos algo pelos outros, através de, precisamente vida e combate políticos.

Saí no 1º de Maio de 1974 na primeira grande manifestação livre de há muitos anos em Portugal. Estava eu na Madeira, a minha terra. Ao meu lado na manifestação (berrava-se de punho no ar “o povo está como o MFA” e outras coisas mais) ia o dirigente regional da FEC-ML. Era meu professor na altura. Desde esses momentos sempre acompanhei e nossa vida política e muitas vezes a vivi com o coração. Primeira desilusão pessoal, porque não era a minha simpatia política: vitória do PS nas eleições para a Assembleia Constituinte que levou à Constituição de 1976. E foi também a minha primeira grande lição de democracia. Saber respeitar resultados adversos à formação partidária das minhas simpatias, por respeito à vontade dos eleitores.

Passados trinta e quatro anos, como está a nossa democracia? E que evolução se vê no país e no seu povo? Como são os políticos actuais? Que diferenças encontramos nas nossas vidas, e na nossa sociedade?

Não há dúvidas de que o país mudou e muito. O país cresceu económica e socialmente. Mas não muito, culturalmente. A economia cresceu e modernizou-se. Tudo é hoje mais moderno, mais rápido e , em muitas áreas demos grandes passos que nos colocam no mesmo patamar de países tradicionalmente mais avançados. E em algumas áreas mesmo, bem mais avançados (Banca mais moderna, algumas facilidades em telecomunicações também, estradas e auto-estradas, empresas de serviços muito modernas, etc.). Nestes trinta e quatro anos, Portugal transformou-se, por mérito e por falta de alternativa, num país de agricultura e industria (sectores primário e secundário) num país de serviços, que é o que claramente somos hoje em dia. Mesmo com interpretações erradas e incompreensíveis por parte de partidos como o PS e ministros como o das Finanças ou da Economia. E outras tantos.

Nestes anos todos, porém os nossos políticos não evoluíram tanto assim. Continuamos com o velho hábito do ‘Senhor Doutor senhor Engenheiro’. O hábito clássico e fora de tempo das gravatas e poses doutorais. Mas enfim isso seria o menos.

O pior que se pode verificar neste tempo é mesmo a atitude da Administração do Estado, da Justiça, das polícias, dos Governos. E a ainda salazarista postura e promiscuidade entre políticos e algumas empresas. Isto sempre sucedeu, desde 1974. Desde Salazar. Ininterruptamente. Só foram mudando os actores. E regressando outros.

Houve sempre empresas que se sustentaram no Estado e do Estado e outras que sempre fizeram questão de ser independentes. Há que dizer nomes. A única forma de mudarmos coisas no nosso país é chamá-las pelos nomes. E todos sabemos quais os nomes. No grupo das primeiras estão o gripo e família Espírito Santo, Mello, Champalimaud e outros mais. Depois surgiram novos actores. Amorim, Belmiro de Azevedo, Mota, Teixeira Duarte. E empresas, como BCP, BPI, Cimpor (como novos donos e mais dinâmica). E muitos mais. Alguns destes novos agentes económicos souberam, profissional e responsavelmente, manter-se independentes do poder. Outros fizeram questão de seguir os passos do passado. Este foi e é o caso dos Amorim, e de quase todas as construtoras. Souberam viver em independência, a Sonae, o BCP (agora pervertido indecorosamente pelo poder socialista, bem à moda dos tempos de Salazar) Santos Silva do BPI e tantos outros.

Agora, assiste-se a um desavergonhado controlo de empresas privadas por parte de antigos e actuais membros do PS e do Governo. Já se havia assistido a actos idênticos como o PSD, mas nunca como agora se viu tal indecoro. Como se sabe que não é ilegal um ex-ministro ser convidado para presidir a uma empresa privada, mesmo tendo ministro da pasta do sector onde essa empresa actua, então vale tudo. Mas, se nos interrogarmos, no caso de Jorge Coelho por exemplo (agora dignificado, pelo distanciamento da vida política activa, o homem que dizia “quem se mete com o PS, leva”), o que leva uma empresa privada a convidar um homem de formação jurídica com experiência e habilidade nulas como gestor? Se nos pusermos no lugar do presidente e fundador do grupo, só conseguimos pensar no interesse, precisamente, na promiscuidade entre política e a empresa. Ou não? Ou espera a empresa Mota-Engil que Jorge Coelho lhes leve novas ideias de gestão? Inovadoras ideias? O seu mercado de já líder nacional no sector será solidificado? Irá crescer a sua quota de mercado? Ou será….Importante numa época de megalómanas obras, consumidoras de recursos nacionais, ganhar a todo o custo os concursos que aí vêm?

Vêm grandes diferenças entre este Governo e o de Salazar? Só falta mesmo a ilegalização dos outros partidos e a criação de nova policia política. Passos que, valha-nos isso, não conseguirá dar. Mas já nem precisam. Com um povo que permanece, trinta e quatro anos após 1974 obscuramente inculto, não será difícil este Sócrates movimentar-se e tentar instituir o seu império.
O país continua fechado, na economia, na cultura, socialmente. Continuamos na mesma estrutura económica e empresarial dos tempos do Prof de Finanças de Coimbra, desde há mais de setenta anos. Continuamos obscuros e toda a modernidade e iniciativa tem de ser sufocada por individualidades e grandes grupos empresariais. Nada pode sobrar para empresas familiares ou de média dimensão. Temos ainda demasiados monopólios ou oligopólios, controlados pelo poder ou por quem ja conseguiu triunfar neste ambiente adverso, só favorável aos que se aliaram ao poder, agora ou no passado recente.

Quando mudamos? Quando alguem independente e corajoso surgir? Ou tivermos um povo que se insurja. Ou revolte.

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