Muro


Onde éramos uma pedra de calçada, passámos a ser muro. Nós mesmo o muro. Não um que fizeram, ou nos levantaram no caminho que entretanto, descansadamente, seguíamos. Não. Também os há. Esses que se interpõem entre o melhor de nós e para nós, e o menos bom do nosso passado. Mas este muro somos nós mesmos. Ou somos parte dele. Vamos lá a ver. Deixemos estes plurais, mesmo que um muro, desses tradicionais fortes, de pedra, seja de várias de nós feito. Falemos como se deve. Eu sou parte desse mesmo muro, intransponível. Porque ele é feito de mim, e não é material. Sou a barreira de mim mesmo. Que não me permite avançar. Se fosse um desses normais, que alguém me tinha interposto…seria, como ali atrás se diz. Um que se poderia vencer. Ou na pior situação, ficar à espera. Esperar. Que esse tal tempo, de que todos falam, que tanto e tudo resolve, me viesse também, a mim, que sou igual a tantos e tantas, tirar este muro feio, este muro doloroso, da minha frente. E seguiria o meu caminho. Pois. Mas eu sou muro. Estão a ver o problema? E se sou o muro, sou o problema. Nem mais. E, assim, não me desfaço a mim mesmo. Aliás, por isso mesmo é que não me esfumo, ou desvaneço. Sou eu. E sou imaterial. Queria eu seguir caminho. Queria eu ir por onde havia traçado as minhas linhas de futuro, ou alguém, esse outro ente misterioso, a quem, no limite do seu inexplicável, alguns de nós chamam destino, traçou por mim. Predistinado. Ou pré-destino, que presumo ser o destino, antes do destino, ou antes dele mesmo. Enfim. Alguma coisa será, ou não teria tantos fiéis. Mas agora, não há destino. Nem passado. Porque estou aqui inanimado, nesta clausura deste muro meu. Feito por mim, não sei. Mas feito de mim. Se o fizeste, aguenta-te! Outra lei dos que não sabem o que é sentir-se muro, ou barreira de si mesmo. Não haverá caminho, se eu mesmo não me desintegrar. Ou não sou eu mesmo o meu muro? E se me desintegrar, como retomar o caminho? Ora, entendem-me.... Não há mais caminho! Ou há eu, ou há muro. Ou, dizem vocês, tu que dizes ser imaterial, materializas-te! Ah! Mas estes muros assim, mais duros são que a mais dura das matérias. Porque não existem. Mas estão cá.

…não há mais caminho? Antes ser pedra da calçada, mesmo fora dela.




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