Abril: 1974, 2008


Tal como já aqui deixei um breve testemunho, vivi o 25 de Abril de 1974, de forma muito intensa, porque, nesse dias, se me revelaram dois mundos. O do meu país, que se libertava de um regime não só totalitário, policial, vigilante da vida do quotidiano e castrador de iniciativas e inteligências mais libertas, como também cultural, social e economicamente anacrónico. O outro mundo que se me revelou, foi o meu próprio interesse pelas coisas à minha volta, por um país ao qual pertencia, um mundo no qual vivia. Um interesse que não mais cessou.

Mas passados estes trinta e quatro anos, verifica-se a mesma onda de tomada de posse pelo '25 de Abril', por parte um Partido Comunista que, ortodoxamente, se recusa a viver o tempo que temos, o Século XXI. Passados estes anos, o PC sente-se proprietário do movimento que, afinal era constituído maioritariamente por militares não comunistas, se é que havia algum comunista no momento desse dia. E surgem-nos de novo as ditas ‘figuras’ do 25 de Abril. Zeca Afonso, de quem nunca apreciei música alguma, e não o passaria a fazer por opção política se fosse o caso, mas tão só por escolha artística, de estética ou mero gosto pessoal e nunca entendi a sua importância sobre o 25 de Abril. Porque uma coisa vos garanto, tal como vivi esse dia: Zeca Afonso, nada teve a ver com o 25 de Abril e, se vivesse, hoje seria mais um homem desinserido da realidade. Ora, por mim, um homem inteligente, activo e com as suas capacidades deve ter todos os seus dias como dias da sua vida. Não há, comigo, expressões do tipo ‘no meu tempo’. Os comunistas vivem um tempo com mais de sessenta anos. Criticam uma Igreja Católica por ser anacrónica e padecem do mesmo mal. Isso aconteceria com Zeca Afonso, tal como sucede actualmente com Otelo. Vivem da nostalgia do passado, mas de um passado nada glorioso.

Os capitães de Abril fizeram o 25 de Abril, como expressão do descontentamento nacional generalizado. Mas generalizado entre as elites. Nos meios intelectuais da sociedade portuguesa. O 25 de Abril não foi um movimento popular e só foi militar, por ter sido a única expressão possível e forma prática e eficiente de concretizar o movimento de oposição descontente ao regiam de parido único de Salazar e Caetano.
Mas, na realidade por detrás dos militares havia muito mais do que apenas um grupo de pessoas, de inegável valor (os militares envolvidos no golpe). Havia todo um conjunto de intelectuais e políticos (ou candidatos a tal, como Mário Soares, ou já com provas dadas, como Sá Carneiro e Cunhal). Os militares nunca teriam sido capazes por si mesmos de iniciar tal movimento, por desprovidos de qualquer intelectualidade ou ideário político. Mas tinham um grande mote que os movia: terminar a guerra no ultramar.

Hoje, após todos estes anos, o país evoluiu muito do ponto de vista económico e social, mas muitíssimo pouco se analisarmos isto na óptica da educação e da cultura. Um povo nunca é livre enquanto não é informado, ou minimamente culto. Não há caminho de libertação individual ou colectivo que chegue a algum lado, sem interesse pelo saber, pela informação e pelo, assim subsequente, espírito crítico informado. E neste aspecto muitíssimo pouco evoluímos. E responsabilidade, de que agora pouco nos serve lamentarmo-nos, vem de muito antes, pois temos mais de oitocentos e sessenta e cinco anos de história, já praticamente com estas fronteira. Estabilidade que não nos permitiu sermos outro povo, em termos culturais. Mas temos essa admiração por uma cultura sólida noutros povos e países, como o norueguês, finlandês ou francês…

Comemorar o 25 de Abril com a mesma histeria de há trinta e quatro anos, neste clima de iliteracia nacional generalizado, é ao contrário de um motivo de alegria, motivo de profunda tristeza e, quase diria, de uma pessimista resignação.
Temos sido anestesiados por uma incompetência associada a um discurso fluido mas de pobre qualidade de um Sócrates. Fomos desiludidos por líderes de um PSD rico de valores que não têm corajosamente assumido responsabilidade, deixando caminho aberto a outras incompetências a juntar-se à do Governo, quando gente como Durão Barroso, Santana Lopes ou Luís Filipe Menezes conseguem a desgraça que conseguiram, liderando um partido importante na nossa cena política. E agora procura apressadamente corrigir erros do passado recente, vindo talvez tarde para o país, mas a tempo para o próprio PSD. A irresponsabilidade á tal, que no tempo perdido não se prepararam para derrotar um Sócrates incompetente, narcisista, arrogante e medíocre, perfeitamente derrotável, com um líder forte e com ideias próprias. Um António Borges que sempre fica como promessa. Só duas vezes o PSD teve líderes de coragem que deram um passo em frente pensado no país em primeiro lugar: Sá Carneiro e Cavaco Silva. Mas o PS não teve nenhum. Agora, talvez o PSD volte a ter, mesmo que não queira ou não possa vir a ser Primeiro-ministro. E o PS continuará a não ter. Mas o povo não irá saber 'ler' isto...
Quem não é informado nunca é livre e quem não é livre não escolhe bem.

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