Tibete: O sofrimento de um povo sereno



Se há povos serenos e pacíficos, que nos merecem respeito ou até veneração, um deles é, sem dúvida, o tibetano. Ao longo de milhares de anos este povo desenvolveu uma forma de vida positiva, serena, conseguindo aquilo que muitos outros, nós ocidentais e europeus em especial, procuramos, ou pelo menos, andamos a enganar-nos, dizendo que o procuramos.
A vida sem sentir as necessidades de que nós europeus, tão obsessivamente, dependemos, encontra-se ali nos vales altos desse país belo e mágico, que até na geografia parece aproximar-se dos deuses, mesmo sem se discutir se estes existem. No Tibete acredita-se na vida serena. Na vida com respeito pelos outros. Por todos os outros. Sem excepção. E, essencialmente, na vida como bem único e insubstituível, mesmo tratando-se de um povo cuja religião acredita na vida além morte.
O respeito pelos outros e pela vida é superior a todos os outros bens humanos e reais. A morte dos outros é aceite, como passagem, para uma outra vida, mas a morte provocada é rejeitada, por todos os meios. E, ainda assim, não se condena, como no ocidente, a quem tira a vida a outros. Pelo menos, tradicionalmente, ainda que nos dias de hoje, já existam outros cambiantes desta interpretação.
Este país encantador, de humanidade e de respeito sereno pelo próximo, tem sido alvo, desde Mao Tsé Tung, das maiores atrocidades, talvez, precisamente, por ser facilmente a inveja de uma sociedade plana e descolorida, sem alegria e sem energia, sem rumo, afinal, como a chinesa.
Nos dias de hoje, em que a China se prepara, de forma acelerada realizar o Jogos Olímpicos de 2008, e em que os USA retiraram aquele país da lista dos países atentatórios dos direitos humanos, o Tibete está a ferro e fogo, lutando, o mais pacificamente que pode, pela sua independência cultural. E politica, já uma sem a outra já não será mais possível. Este país exemplar, na sua serenidade em que as expectativas de vida de cada nunca são tão altas que, logradas, constituam sofrimento, está a sofrer e a sangrar.
Mas a hipocrisia política internacional, não permite, antes de se ter verificado um desastre humanitário de consequências imprevisíveis, uma condenação aberta da China e da sua política, numa atitude não só condenável como repudiável. Países defensores e subscritores dos Direitos Humanos, têm de tomar uma posição inequívoca, mesmo que passe pela recusa em participarem nos Jogos Olímpicos, à imagem do que se passou com os Jogos de Berlim, no tempo de Hitler.

Dos Estados Unidos da América não se pode, nestes tempos, esperar por uma atitude que não esteja comprometida com interesses económicos. Muito menos agora, em momento de crescente crise financeira e, já, económica.

Mas da União Europeia, apesar de andar há muito a viver na base da mesma hipocrisia político-económica, as tradições culturais e políticas exigem que se tome outra posição. Mais dura para com a China, menos equívoca.

E propor, ou forçar a China a negociar com o Governo do Tibete, com a moeda de troca de não se participar nos Jogos Olímpicos, é uma medida que pode conduzir a algumas abertura por parte dos chineses.

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