Pintar ou escrever



Há pouco pensava qual o processo que me leva a escrever e as razões para tal, tal como o processo que leva a pintar. Não sei se consegui uma imagem clara.

A corrente da escrita surge em muitas pessoas como necessidade de comunicar, logo por terem ouvido alguém, ou observado alguma coisa que lhes pareceu destacar-se do restante ao seu redor. Também comigo, por vezes. Ou por que em dados momentos, de tristeza ou de alegria, há esse impulso incontrolável de comunicar sentimentos.

Mas por vezes é do vazio que surgem as coisas. Do profundo e aterrador vazio. Desse lugar da solidão que nos rouba o ar, nos tira o ânimo, nos derruba os sonhos. È o espelho e é para pintar o reflexo desse buraco negro que nos traz um peso ao peito. Do cinzento mais carregado de nós mesmos. Que nos torna cativos do nosso lado mais negro.

Outras vezes, vem da euforia que nos trouxe alguma alegria imensa. De uma felicidade que se solta e rasga do peito para fora de nós. Um vulcão de energia que alguém ou algum acontecimento fez explodir em nós. Pode vir de uma paixão que nos enche e nos faz sonhar, ou de um sucesso pessoal que seria inesperado mas que se procurava.

As razões para deixarmos registo do que nos vai por dentro são muitas e muito diversas e, também, apenas, uma forma de organizarmos os nossos ficheiros da nossa mente complexa, de forma consciente, tal como fazemos todos os dias durante o sono, sem termos consciência do processo. É um rearranjo da mente, quando a mente tem essa necessidade e se quer preparar para novos acontecimentos.

A pintura é, pelo menos comigo algo de muito mais exigente e profundo. Um processo criativo que exige muito mais de mim. Pode surgir de forma espontânea, como ideia. Mas a sua criação, ou concretização, nada tem de espontâneo e exige disciplina, concentração, abstracção do mundo à minha volta. É um momento egoísta, em que me volto para dentro. Em que quase não dou conta do que se passa em redor. É também muito exigente e solicita muita energia mental e física e do qual, frequentemente saio, após uma sessão, extremamente esgotado. Como se de um extenuante exercício físico que apela a toda a minha energia. Vem de muito de dentro de mim e o mundo, nesses momentos, quase não existe fora de mim.

Escrever é muitas vezes um processo compulsivo, quer o faça com alguma criatividade ou quase nenhuma. Com qualidade ou com ausência dela. Como quando estou muito triste, ou apenas sinto necessidade de comunicar, nem sei com quem. Pintar é, de forma distinta da escrita, algo que se tem de desenvolver pouco a pouco, em dias ou semanas, primeiro dentro, depois na tela, mas nunca como processo de registo de tristezas ou sentimentos negativos.



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