28.4.06

Elogiar ou comentar o que está correcto

1.Ontem o Governo anunciou o novo pacote que vai alterar profundamente as reformas dos portugueses.
Uma medida impopular e muito desagradável, para todos, mas infelizmente será muito improvável poder fazer-se de outra forma.

O que isto significa é, uma vez mais, a medida da nossa injustiça social, provocada não por este Governo ou por outro, mas talvez acentuada por vários, mas seguramente devido aos tais nossos geniais gestores, administradores e patrões que andam há dezenas de anos a sugar o Estado (que somos todos nós).

2. Sócrates anunciou que tem intenção de lançar a discussão nacional sobre a nergia nuclear. Depois das precipitadas afirmações do Ministro da Economia, não etnho dúvidas de que acertar de agulhas será bem mais vantajoso para o futuro energético e económico de Portugal. Lançar a discussão não e assumir nada. Mas calar seria discussão é um erro crasso.
As energias alternativas, no bom caminho e graças a este Governo, não contribuirão em mais do que 20 a 25% para a redução da nossa factura energética (85 % dependente do exterior). Espanha exporta energia para Portugal e tem nergia nuclear. A produção de energia é uma actividade económica e poderemos pensar, porque não, em exportar para Espanha.

Dois casos, para além do programa da administração pública que, sendo implementados, merecem o meu aplauso.

26.4.06

O Fosso português

Em Portugal aumenta o fosso entre ricos e pobres.
Em Portugal aumenta o fosso entre homens e mulheres, no que aos vencimentos diz respeito
Em Portugal tem vindo a aumentar o fosso entre gestores e os seus colaboradores, ou trabalhadores.

Portugal cria mais injustiça social.

Sócrates revê-se no modelo sueco e nos modelos nórdicos de desenvolvimento. Precisamente os países onde o fosso, as diferenças entre ricos e pobres, dirigentes e dirigidos, homens e mulheres é menor, em todo o mundo!

Portugal é o país do Fosso, o campeão do fosso das desigualdades.

Ando pessoalmente a dizer isto mesmo a todos os que conheço, a familiares, amigos e conhecidos. Este é um problema estrutural gravíssimo que, a acentuar-se, nos vai tornar mais pobres, mais incultos mais escravizados (nomeadamente de espanhóis e de multinacionais em geral). Cunhal falou disto milhares de vezes e, mesmo querendo distanciar-se das ideias de Cunhal, é preciso ter a clarividência para perceber que ele tinha razão.
Estas diferenças não são as diferenças entre os mais capazes e os menos qualificados e capazes, ou inteligentes. Não são as diferenças entre os que se julgam superiores e os que serão inferiores, segundo opinião dos primeiros.
Mas precisamente e muito frequentemente o contrário! Conheço dezenas de exemplos disso mesmo.

Não conheço um só caso que justifique um Director ou Administrador ganhar mensalmente cinco, dez, vinte ou cinquenta mil euros e um seu colaborador próximos auferir dez, vinte,c cinquenta ou cem vezes menos!

Estas diferenças, o fosso, vai matar a nossa economia e subalternizá-la. Porque muitos dos precisamente melhor formados, mais capazes e até inteligentes escolheram o curso errado, ou nem o tiraram, escolheram a profissão errada e esqueceram-se de usar a cunha...

A descapitalização da classe média e a consequente dormência da economia, por não permitir criação de mais e inovadoras empresas (o segredo do sucesso da Alemanha, no pós guerra, esteve nas empresas familiares que ainda hoje subsistem) e a regeneração não vai acontecer. Nunca aconteceu baseada em grandes empresas, muito responsáveis pelo fosso.

Só conheço uma forma de mudar isto: a revolta silenciosa e a recusa individual em persistirem os baixos salários de quadros técnicos, superiores ou não. Porque as diferenças não estão nas classes não qualificadas apenas e acentuam-se nos licenciados que não tendo a cunha não chegam a gestores, ou dirigentes.

Somos o país da vergonha social e este Governo tem acentuado este fosso.

E as diferenças aumentam não só cá dentro, como entre nós e os outros países, obviamente. E seremos mais subalternizados, mas igualmente formados e inteligentes, só não seremos respeitados.

A começar por eles mesmo, quando ministros se recusam publicamente a prescindir de múltiplas reformas e vencimentos, auferidos sem mérito ou merecimento, pelo que agora, também publicamente se pode comprovar pela incompetência atroz crescentemente demonstrada, de quase todos eles.

Somos o país da injustiça e da vergonha, do fosso que os que queremos imitar...não têm.

Já aqui havia escrito isto por diversas vezes e outras tantas verifico que tudo piora e vem confirmar aquilo que digo

25 de Abril

Este ano regressei ao 25 de Abril de forma um tanto inesperada. Estava em casa com os meus filhos a ler um pouco e a dada altura, na tradição de zapping de cá de casa (menos minha e mais dos filhotes, que vejo muito pouca televisão, em dias de semana) passámos pela RTP 1 e demos com o filme da Maria de Medeiros, já visto em tempo, sobre o 25 de Abril.

A minha filha mais crescida tem treze anos e o pai dela, com as suas habituais prelecções pedagógicas (e chatas!) lembrou-se de 'educar' um pouco as miúdas (a de treze e a de dez... porque não?) sobre o antigo regime, a revolução de 1974, o que vivi com os meus catorze anos nessa data...

Não resultou em muito e, rapidamente, as miúdas logo se maçaram de ver o filme.
Resultou em que, nostalgicamente me lembrei desses catorze anos, dessa data, dos acontecimentos subsequentes... de estar junto à rádio, com o meu pai e os meus irmãos a ouvir tudo, tudo o que desse sobre a Revolução...

Nesse dia nasci para a política, sentindo e querendo sentir novas experiências, querer entender tudo, sobre o que terminava e sobre o que nascia para todos nós. Queria, excitantemente, viver tudo aquilo, sentir-me responsável, queria participar!

Dias depois saía à rua no 1º de Maio, entre tanta gente de todas as ideologias e orientações políticas... isto passou-se, para mim, no Funchal, donde venho e nada se compararia com o vivido em Lisboa. Mas para mim, adolescente com manias de me sentir útil e importante, foi um dia, dias, semanas...meses importantes e marcantes, pouco depois desiludidos com a confusão geral criada nos anos de 75 e 76. Mas agora recorda-se com prazer o que aquela Abril de 1974 nos trouxe e permitiu.

Ficou-me uma profunda nostalgia e tristeza insanável da falta do meu pai, que naquele 74 fez exactamente o que eu tentei fazer este ano com os meus filhos...

Cavaco Silva veio lembrar as preocupações sociais que temos todos de ter e a responsabilidade colectiva. Ouvi-o e pareceu-me estar a ouvir o meu próprio pai, nessa preocupação e nesse respeito pelos que mais sentem a nossa desgraça nacional. O meu pai também era do mesmo partido de onde vem Cavaco.

E, por isto tudo, pelo que vivi, pelo que senti, pelo que ouvi, não permito a propriedade exclusiva, nem a prioridade, do 25 de Abril e do AMOR PELA LIBERDADE INDIVIDUAL E COLECTIVA a ninguém, nem à esquerda nem à direita!

23.4.06

Chaconne da Partita nº2 BWV 1004 de J.S. Bach



Hoje, na Festa da Música no CCB, assisti a um recital fantástico:

Régis Pasquier, violonista francês já frequente na Festa da Música, presenteou o público com uma actuação genial da Sonata para violino solo nº 1 em Sol menor BWV 1001 e com a Partita para violino solo nº2 em Ré menor BWV 1004 de Johann Sebastian Bach.

Esta Partita é um das mais famosas de Bach e deve parte da sua fama, não apenas à genialidade da obra em si mesma, mas também às transcrições para piano, que no meu anterior texto referi também ter assistido, ontem em Belém, sendo a mais conhecida a de Busoni, depois a de Brahms, para mão esquerda, e quase desconhecida a de Lutz - que foi professor da intérprete de ontem, Edna Stern, uma pianista que não terá muito mais de vinte anos, mas já de uma virtuosidade e inspiração notáveis.

Uma Chaconne, ou ciaconna no seu original, é um estilo de música inspirado num dança, de origem espanhola e que remonta à Idade Média. A dança original é, tal como o 'andamento' frequentemente adoptado no Barroco, rica em variações e harmónicas e de cadência segura e magistral. É um estilo musical rico e nobre, tanto lento como variando para ritmo muito rápido e exigente, que muito solicita à virtuosidade de um intérprete. O mais famoso dos Bach foi um dos mais geniais compositores (embora estivesse votado ao esquecimento em salas de espectáculos, durante mais de 1oo anos) e também neste género, tal como em suites para violoncelo solo, ou muito distintamente em obras sacras de grande vulto e dimensão, Bach foi dos compositores que melhor soube escrever com base em danças ou melodias de raiz popular, ou de palaciana, elevando-as a um patamar tão elevado que, não raramente exclui um imenso número de intérpretes da possibilidade de as apresentarem em público. Pela sua dificuldade, pelo exigente nível artístico e destreza mecânica.

Edna Stern gravou magistralmente, num disco único as três transcrições para piano da Chaconne mais famosa de Bach, mas teve no final do recital de ontem um muito dissimulado lapso, na de Busoni, após uns bons quarenta minutos de interpretação consecutiva das outras duas, e numa sala mal climatizada, onde o público mostrava a sua impaciência e a sua ignorância, na forma de fru-frus e tosses totalmente despropositadas. Edna Stern teve três execuções tão diferencidas quanto envolventes, plenas de sentimento, de envolvência, em todas elas nos permitindo sonhar com um regresso inaudito ao Barroco, através de três composições que são posteriores àquela época. Totalmente justificado o milionésimo lapso na esplêndida pianista belga. Que me maravilhou, tal como hoje, Régis Pasquier com o seu violino setecentista, Guarneri del Gesú. Um violino de valor incalculável. Mas é Pasquier que o faz vibrar e nos encantar e inebriar.

As transcrições para piano da peça original de Bach são das mais belas obras que nos podemos dar ao prazer de ouvir e são das poucas obras pianísticas que se aproximam, na minha modesta opinião, da genialidade das obras magistrais e de elevado grau de dificuldade interpretativa de Liszt. São cada uma delas uns belos quinze minutos que podemos oferecer às nossas vidas, de beleza, intelectualidade artística ao mais alto nível (perdoem-me o galicismo). Com obras destas pode-se viver melhor e até morrer mais feliz!

Com intérpretes destes podemos enriquecer a nossa insignificante passagem por uma vida cada dia mais dura num país de culturalmente deserto.

Um amigo meu costuma dizer que Bach era o único compositor que tinha a certeza de escolher se pudesse e se soubesse que iria parar a um ilha deserta. Eu digo que Bach se leva até ao fim, até à morte e com ele estas transcrições maravilhosas de Busoni e Lutz, mas também de Brahms.

Bach para Piano e Tosse

Posted by Picasa

A Festa da Música é sempre um acontecimento que me mobiliza sempre, anualmente, percorrendo várias salas do CCB, durante dois dias, de manhã à noite.

Este ano dedicada ao Barroco através da Europa, dedicada a J.S. Bach, na sua maioria, mas também a Telemann, Vivaldi, Rameau, Soler, Seixas e outros, numa espécie de corrente de união artística através da Europa, perfeitamente caracterizada pelo lema atribuído pelo seu mentor e organizador, René Martin: "Harmonia das Nações".

O público acorre a este acontecimento cultural numa afluência que não tem comparação a este nível e género. Apenas para festivais rock se podem estabelecer comparações de semelhante ou ainda maior dimensão.

Mas o público que ali se desloca, como em tantas outras ocasiões, nem sempre sabe a que vai assistir, nem, por isso mesmo, como deve estar.

Assim, em recitais de piano, violino ou violoncelo, ou generalizando a recitais solistas ou mesmo concertos, há um fenómeno que se repete insistentemente: este público português adora participar nos concertos com a sua própria ...tosse!

Num recital de piano, de obras de Bach, a tosse, frequentemente não em Lá Menor ou em Ré, ou outra tonalidade qualquer, e nem ensaias convenientemente antes dos mesmos... destoando da excelente interpretação de solistas como um Jean-Fréderic Neuburger, de vinte anos, ou Edna Stern, que nos brindaram com grandes momentos, próprios de virtuosos com muitos mais anos e experiência, mas num recital do nível destes, a que hoje, como em tantas outras ocasiões tive a sorte de poder assitir, o público não se consegue conter, ou melhor à sua persistente tosse. E aos 'fru-frus' das roupas e dos papéis...

Porque reagimos assim nos concertos? Será, simplesmente, pela falta de educação artística de que padecemos? Ou será de impaciência social básica? Somo básicos não somos?

Mas estes recitais e concertos, de piano e tosse, violino e tosse, tosse e orquestra deixam-me a mim impaciente. má cultura musical a minha...

Um dia ainda hão-de fazer os avisos habituais desta forma:

"Agradecemos que desliguem os telemóveis e é proibido efectuar tomada de imagem ou som. Quem não tiver ensaiado a sua tosse com o solista, por favor, abstenha-se de participar!"

Agora tenho de ir... ensaiar a minha tosse para os concertos de amanhã...
...um deles com a Chaconne da Partita nº2 para violino solo BWV 1004
de J.S. Bach, de que hoje ouvi três transcrições para piano, falubolsas, de diferentes compositores (de Brahms, de Lutz e de Busonni, esta já a conhecia e é uma das minhas peças preferidas.

Bach foi sempre uma fonte de inspiração para tantos outros compositores também eles geniais e taé para as tosses do público luso

13.4.06

O eternos campeões da lama

Temos a electricidade mais cara da Europa.
O gás mais caro da Europa.
Os telefones mais caros da Europa.
As taxas de cartões de crédito mais caros da Europa.
As casas mais caras da Europa.
Os carros mais caros da Europa.
As escolas mais caras da Europa.
Os transportes de mercadorias mais caros da Europa.
Os impostos mais elevados da Europa.
Os supermercados mais caros da Europa.

Só escapam, que me lembre, as bebidas simples, como café, água, cerveja...

..ah! e os vencimentos, de gente normal, claro. Não dos grandes gestores de merda (os mais bem pagos da Europa!) que temos e que nem conseguem ter estratégia para crescer fora do país, consistentemente, mas julgam-se muito bons.

E temos os piores governantes, nos governos de merda que temos tido, sendo este o piro de todos. Todos, mas todos os indicadores deste governito de segunda categoria são negativos, excepto numa coisa: se conseguirem, de facto, sem maquilhagens quem socialistas são tão pródigos, reduzir a estrutura e o peso do Estado, serei o primeiro a reconhecer-lhes o mérito, mas não bastará, ainda assim, que por aí se fiquem.

Agora vai o fisco, penhorar bens (automóveis, por exemplo) de quem tem dívidas à Segurança Social (S.S.). E fazem muito bem. Só não se entende como levaram tanto tempo a reagir. Sabem que a BMW subiu as vendas em mais de 40% em dois segmentos, Série 5 principalmente, entre Janeiro e Março deste ano? Ainda bem para eles, mas não lhes vão ser pagos os carrinhos...

Sobre esses carros convém dizer que o estado arrecada logo no acto de compra entre 20 e 40, 50 ou mais mil Euros! E sobre uma casa de 400.000 Euros, outros 40.000 só na compra, e ianda mais, muito mais, depois. Até no momento da herança, continua o nosso Estado (quase sse podia chamar de estado terrorista ou bandido, se não fosse legal...) a arrecadar!

Mas, afinal, não será que a fuga a pagar à S.S. não tem também que ver com as elevadíssimos encargos que têm todos os empresários que acarretar, num mercado tantas vezes diminuto e sem crescimento, e mal pagador?

Mas com tanta mediocridade eleita pela maioria, que faz isto tudo de nós?
Estúpidos e broncos desinformados?
Pois faz!

É o Estado lamacento de Guterres!

E nunca há dinheiro do lado do Estado, para termos as estruturas e infra-estruturas decentes, com as piores estradas, ruas, escolas, etc...

Boa Páscoa com os chocolates e amêndoas mais caras da Europa!