18.10.04

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Li o artigo de Clara Ferreira Alves, como sempre costumo, na revista "Única", do Expresso. Esta semana intitulava-se: "A leitora de Alexandria". Parece que o nosso passado, ocidental já foi mais "iluminado", para fazer referência ao tal "século das Luzes", ou mais florescente, prometedor, se pensarmos em termos da cultura, como veículo principal do desenvolvimento humano. Há muitas referências a esse passado, em que não se inibia, para não dizer censurava, uma parte da humanidade, uma parte das sociedades ocidentais. Precisamente a parte feminina. As mulheres que, por via da actuação de fanatismos religiosos, muito provavelmente ilegítimos em termos da sua fidelidade ao projecto inicial de diversas religiões -cristianismo, islamismo, principalmente – foram impedidas do acesso à aprendizagem, ao conhecimento, à cultura. No entanto, como atesta a menina de Alexandria, com cerca de 2200 anos isto não foi sempre assim. O que me deixa perplexo quanto à nossa actual cegueira, numa certa forma de complacência com as actuais religiões... Não terão sido, melhor, não continuam a ser elas, religiões, ocidentais, orientais, todas ou quase, as grandes, as principais responsáveis pelo nosso ainda incipiente desenvolvimento social e humano? Tantos foram os que já aludiram a isto... e tantos os que assim ficaram condenados ao esquecimento... E nada disto tem que ver com a crença, ou não, individual, interior em um Deus, ou algo que se queira superior e criador, que, afinal, esteja para além de explicações científicas (elas próprias auto limitantes). Mas tudo isto me conduz, cada vez mais à insistência numa ideia – a da liberdade intelectual, que tantos "intelectuais" se prestam, hoje como ontem, a comprometerem, eles próprios, pela filiação em ideias ou conceitos, políticos e religiosos... Um manancial de inteligência subaproveitada.

14.10.04

Scolari, Santana, o Ovo e o Gelo quente

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Tudo à mistura. Assim mesmo. No fundo todos estes assuntos, ou abordagem a diversos assuntos, um de futebol, outro sobre a presença, hoje, do Primeiro-ministro na Assembleia da República, têm mais a ver uns com os outros do que à partida se imagina.

Têm a ver com a personalidade, com o profissionalismo, com saber fazer a destrinça entre o importante e o acessório, entre a árvore e a floresta.

Scolari fica indignando com certas atitudes de certa comunicação social. Tem razão. Teve razão no passado recente em relação a Vítor Baía (e sou dos que pensam que Baía ainda tem valor, mas...para 'prima-donas' não há paciência!). Teve e tem razão em relação nas escolhas que tem feito. Este homem, de H maiúsculo, tem de merecer o nosso respeito, de todos. E nem sequer mostrou, uma única vez, que o seu profissionalismo fosse obscurecido pela popularidade, pelo êxito. Tem modéstia bastante, e nem precisava de a mostrar. Parabéns pela atitude, grande Scolari.

Santana, tem demonstrado que se esforça, mesmo que de quando em quando, se denote que talvez, talvez, não encha muito o lugar onde está. Mas... em quem poderíamos nós confiar? No senhor Sócrates, do gelo quente, que de tanta eficiência, nem gelo conseguiria fazer. O PS, pelo que já demonstrou (e teve seis anos, seis, para o mostrar) o melhor que conseguiria era de um frigorífico fazer uma torradeira, que queimava o pão todo. E para isso teria de nomear uma comissão de amigos e companheiros coitados que não têm outro emprego...- para estudar o assunto e dois anos depois, sugerir uma outra comissão instaladora do frigorífico, que nada refrigeraria. E do qual sairiam torradas todas pretinhas, para dar ao povo.

E disse uma coisa interessante, espantosa mesmo, o senhor Sócrates: que o senhor Santana nunca ganhou nada numas eleições legislativas...espanto!? Nem foi candidato, homem! E o senhor, senhor Sócrates, quantas ganhou???

Ou ganhar no PS tem alguma relação com o país, senhor Sócrates?! Acha mesmo? Interessante! Arguto, caro senhor! Começa bem...

O ovo do senhor Louçã, o chato de serviço da nossa classe política, nunca provou nada a ninguém em matéria de trabalho feito. Mas de ovos entende ele, lá isso é verdade. Ovos... de Colombo. É vê-lo na sua ginástica malabarista a inventar casos, a tentar fazer-nos esquecer o importante, em relação ao acessório.

Não confundamos a árvore com a floresta. E cuidado, para não escorregarmos num cubo de gelo quente, do senhor Sócrates, e nos estatelarmos num belo ovo, das galinhas do senhor Louçã.

Boa noite.

9.10.04

"Se ha dicho que todos los hombres nacen aristotélicos o platónicos. Ello equivale a declarar que no hay debate de carácter abstracto que no sea un momento de la polémica de Aristóteles y Platón; a través de los siglos y latitudes, canbiam los nombres, los dialectos, las caras, pero no los eternos antagonistas. Tambbién la história de los pueblos registra una continuidad secreta. Arminio, cuando degolló en una ciénaga las legiones de Varo, no se sabía precursor de un Imperio Alemán; Lutero, traductor de la Biblia, no sospechaba que su fin era forjar un pueblo que destruyera para siempre la Biblia; Christph zur Linde, a quién mató una bala moscovita en 1758, preparó de algún modo las victorias de 1914; Hitler creyó luchar por un país, pero luchó por todos, aun por aquellos que agredió y detestó. No importa que su yo lo ignorara; lo sabían su sangre, su voluntad."
El Aleph, Jorge Luis Borges Posted by Hello
Last night I stayed watching the debate Bush-Kerry: One man was fighting for to give a positive image of the things he have done- or the things he have not. The other one was trying to clearly explain the ideas and plans he has for his country and the world. One man was replying questions. The other one, proposing projects, programs, plans. One was constantly rising from the chair, nervously, unstable, trying to appear calm, smiling. The other was calm, confident, advancing each time new subjects and matters, not only replying. Guess the names of each one? Posted by Hello
No regresso a casa, começou. A chuva. Que anuncia o Outono. Lembrei-me, lembro-me sempre, é reincidente, todos os anos, por estas alturas, por estas primeiras chuvas, de um filme esplêndido do Ingmar Bergmann: Sonata de Outono. A música, as leituras, a serenidade dos espaços interiores, conjugavam-se, na perfeição com a chuva que no exterior visível diversas vezes no filme através de grandes janelas, marcava aquele tempo, aquela época. Uma verdadeira sonata. É desse ambiente, desses espaços que me apetece falar, ou não falar e guardar para mim, quando chegam estas chuvas. Quando, na convulsão da confusão criada, talvez um tanto artificialmente, por políticos e meios de comunicação, me apetece, compulsivamente recolher-me...apreciando e deliciando-me com a chuva lá fora, com a música e a leitura cá dentro. Hummm, o cheiro da terra húmida (dos actinomicetas- bactérias filamentosas, que com tal designação tão hermética são de facto os organismos responsáveis pelo aroma a terra molhada, por estas ocasiões), as cores que transparecem com o seu brilho especial e próprio, intensificadas pela limpidez que a chuva vai deixando pela sua passagem, a luz, tão apropriada ao recolhimento, à reflexão. Ciclicamente é tão fundamental e urgente, retirarmo-nos, silenciarmo-nos para respirar de novo e ganhar novas energias e vontades! Para não "passar cartão" a notícias sem relevância, como as dos últimos dias!

8.10.04

Gongar pela manhã?



Chegar ao café perto do local de trabalho e ter logo um recital de pires e chávenas que alguém ia recolhendo da máquina e emparelhando...já é quase insuportável, não estivesse já um tanto acostumado a esta típica poluição portuguesa que, entre outras coisas, bloqueia totalmente a audição de uma chamada por telemóvel.

Agora... ainda ter, para além dos pratos, chávenas e talheres com ruídos e faíscas, um indivíduo com ar indolente, tipo, que hei-de fazer hoje do meu dia, a gongar uma qualquer melodia (ou anti-melodia), entre o inaudível e o irritante...!?

Os cinco minutos, no máximo, que esta operação de ingestão de cafeína demorou, foram uma colherada a mais, no stress que se iniciava, após uma meia hora de voltas com o carro na busca de estacionamento. Tudo se alterou apenas, quando voltei à rua, e regressei ao espantoso sol lisboeta, de intensa luz branca, temperado, embora, com um vento em crescente que anuncia já o Outono.

Enfim, bendita Sexta-feira. Com "gongo" e tudo.

Ninguém fala do verdadeiramente essencial – daquilo que diferencia os povos e os países, que faz a destrinça entre os que asseguraram o seu futuro, através de uma sociedade criativa, informada, culta evolutiva, e os que são levados na onda comandada pelos primeiros. Ninguém fala da nossa falta de cultura, pior da nossa falta de amor por ela, pela vontade de aprender, evoluir, de criarmos gerações informadas, com capacidade de se auto -regenerarem e renovarem em tempos mais difíceis. Não há cultura. Não se lê, não escreve, excepto sobre coisas comezinhas, sobre "casos" tipo Marcelo R. Sousa, etc. As coisas são o que são. Estas coisas. Não as eternizemos, mas do que merecem. Pior mesmo é a nossa classe dirigente – política e empresarial, esta ainda pior do que aquela, acreditem. Que chova este fim-de-semana e lave tudo isto. A todos nós! Uma boa chuvada e música e leituras, das boas, já agora... que para Records e Bolas já temos de sobra...Bolas!!!
À espera de um Outono cujos primeiros sinais parecem anunciar-se para este fim-de-semana, apetece pôr-me a pensar que este é O país que se inventou, com o propósito de nos permitir, à falta de melhor entretenimento, escrever umas quantas coisas nos nossos blogues domésticos...

7.10.04

Isto sim. Tem conteúdo. Existe. Tem espessura. Não é sensaborão.

Sem sal.

Não sabe a nada.

Este Governo não sabe a nada.
O Santana Lopes não sabe a nada (ou...não sabe nada, dizem-me). Está muito longe dos tempos de irreverência -quase a roçar uma irresponsabilidade pueril, que lhe davam uma frescura política promissora. Mas isto já começou algum tempo antes de ir para onde está agora. Já antes prometia tirar a paciência que ainda íamos encontrando para o aturar, quando chegava aos Congressos do PSD e agitava as hostes.

Já não sabe a nada. É sensaborão. Mas até pode ser perigoso, um pouco de sal é preferível. Melhor ter sal e risco de tensão alta, do que já nem sentir nada. Não há tensão, nem alta nem baixa.

O PS não sabe a nada.
O Sócrates que vá lá para o Brasil – coitados deles que não fizeram mal ao mundo, mas víamo-nos livres dele. Vá para a Cochinchina! Não tem graça, nem conteúdo. Só tem arrogância, ambição, vaidade, narcisismo. E é sensaborão. E sabe o quê, de quê!? Bahhh!

A comunicação social...bahhh a nada nos sabe. Só cria "casos". Os casos Casa Pia, casos casas de ministros e ex-ministros e ministeriáveis. Casos de epidemias que não chegam a sê-lo (meningites, etc.) casos de atentados à democracia, do défice democrático, da falta de liberdade de expressão. Se ao menos fossem mesmo coisas autênticas. Só "casos". Casos. Casos de casos. De disse, e diz-que-disse. Bahhh. Sem sabor. Sem sal.

Nada acontece. De facto. DE FACTO!!!!

Mexam-se!
Ponham SAL.

6.10.04

De novo com o pé...no pântano? Ou de corpo inteiro sem salvação

Lembramo-nos todos do pântano de Guterres, não é? Parece que foi há muito tempo, que o ouvimos declarar que se ia embora – qual significativa declaração de quem sente que chegou ao fim de uma "missão cumprida" – porque o país se encontrava num pântano político (e económico e social). Depois, foi o que sabemos. Uma tentativa quase desesperada e reconhecidamente apressada, mas não atabalhoada (e parcialmente conseguida) de um governo de Durão Barroso para nos atirar a todos a vara a que nos devíamos agarrar para sairmos de tal lamaçal que nos puxava insistentemente para as profundezas até à asfixia total.

Mas com Durão infelizmente a coisa não durou o suficiente, pois outros valores (inquestionavelmente tão ou mais altos o levariam para longe dos nossos destinos imediatos - aliás o próprio António Costa, seu adversário na política reconhecia no tempo certo a importância e a honra do cargo para Portugal).

Tudo isto é, penso, para quem queira ser justo com a sua honestidade mental, indesmentível.

Ou devia ser.

Mas agora, o recém eleito líder do PS, de bem falante e, talvez (?) bem estruturada mas, seguramente desonesta atitude, vem dizer-nos, quase, que urge regressar a esse pântano, perdão, a esse tempo onde tudo parecia, melhor, se dizia ir bem...até começar a cheirar mal (o pântano não devia ser de areias nem de argilas, mas de algo mais pastoso e mal cheiroso, porque microbiologicamente impróprio: a famosa merda, meus amigos! Tal como a todos nos apetecia dizer, a todos, quando, bem à portuguesa, nos era perguntado como estávamos: "na merda", claro! E nem todos o sabíamos. Mas o Sr. Sócrates - só o nome é igual ao do famoso sábio-modesto, "só sei que nada sei" da antiguidade. Este sabe tudo. E já não é o primeiro que nunca tem dúvidas, mas o outro, um Senhor de verdade, que a pouco e pouco nos tem vindo a demonstrar a saudade que nos provocaria, pela sua temporária ausência da política, o Dr. Cavaco Silva, ao menos não usava de (in)disfarçada modéstia ao afirmar a sua segurança sobre o caminho que teríamos, todos, de percorrer.

Afinal...a grande diferença entre quem sabe mesmo e quem só sabe... falar!

Apenas...falar. E falar é pouco. Já nos chegou o Soares, o Almeida Santos (Almeida Tantos) Guterres e, recuando muito mais no tempo, o grande Cícero, que na Roma antiga era o mais famoso e bem-falante tribuno. Só que nesses tempos, a palavra tinha mais peso do que as acções e estas também não tinham o carácter de urgência de que hoje se revestem, pois essa Roma era a grande potência dominadora do mundo!

Hoje, falar bem, é muito pouco. Mas parece que, no nosso querido país, de gente anónima e ignorante, onde tem mais relevo a romaria estúpida e degradante à suposta cena de um crime, perpetrado contra uma infeliz criança, onde ganha mais espaço no nosso diminuto e comezinho quotidiano, um concurso (nome fino: "reality show") sobre outro estilo e tipo de gente estúpida e ignorante, neste país, o pântano pastoso e muito mal cheiroso continua a alastrar e a todos nos há-de arrastar.

E não me parece que um Santana nos vá conseguir salvar, nem do seu próprio governo, que também já tem "outro" odor (...?!), nem do abominável homem dos pântanos que um dia nos poderá fazer regressar a tal massa pastosa, sugadora e asfixiante. Nem já há Marcelo que nos alerte, nem Cavaco que nos desperte, desta sonolência inexorável, desta apatia patológica.

Os nossos carrascos da vizinhança, que muito bem têm sabido usar e quase abusar da nossa subserviência e dos nossos medos colectivos, podem agora começar a preparar as cordas para nos salvar a alguns, desta nova maré pantanosa, ou então... finalmente...comprar as tais terras da raia, que um dia estarão com vista sobre as praias, directamente para o mar...

Que se salve quem agarrar as cordas ou souber nadar!