Histórias de encantar- A pequena história dos três gatos- história da típica empresa familiar portuguesa

Eram três. O gato pai e dois filhinhos. Ou um filhinho e uma linda filhinha, não interessando aqui qual sexo do bichano. Quando ainda pequeninos (há quem diga que serão sempre) ocupavam-se a correr, ameaçar-se um ao outro, que eu te arranho, tu vê lá, dizia um, que eu te roubo o leitinho, dizia o outro. O pai, sem dúvida, que era quem mandava. Mas apenas isso, coitados dos gatinhos.
Mais tarde, crescidinhos (há quem diga que não verdadeiros gatos adultos, não é importante também, afinal) continuam, agora com mais manha (típica de gatos, diz-se) a tentar arranhar-se e ainda persistindo um em ir ao pratinho do leitinho do outro. O pai, que sabia, não só deixava, como incentivava, umas vezes a um, outras a outro, que vencesse o mais forte (não é essa natureza das coisas? Não é assim que tudo deve ser e acontecer? Em tudo, na vida. Só o mais forte vencerá!).
Mas não havia modo de aparecer um mais forte do que o outro. Em lugar da força, crescia a manha, a verdadeira e genuína manha de gato, perdão, gatinho, que a todos à volta encantava, pensavam eles (e não apenas dentro dos limites do seu pequenino reino, mas também, ao mundo, sim porque não encantar todo o mundo, se eram tão ágeis no uso e ebuso da sua principal arma secreta, a manha, a suprema arte do faz-de-conta ) como sinónimo de destreza intelectual (inteligência, até, talvez). Todo o bicho que andava lá pelas bandas do seu pequeno beco, ou recantos do seu lindo quintal, ou se entendia com a subtileza refinada daquela manha, daquela refinada vida nas sombras, daquela arte, é isso.
Os gatos têm sete vidas, todos sabemos, e por isso, todo o mundo teria de entender com eles, melhor, teria de se resignar ao seu poderio, por muito e muito tempo, o mesmo é dizer por uma eternidade.
Mas mesmo com sete vidas, pois sete não oito, o gato pai um dia havia de se finar. Que aconteceria aos gatinhos, tão cuidadosamente educados na sua suprema arte de a todos encantar e, desculpem-me enganar...
Mas não, essa parte da história ainda terá de ser contada, muito provavelmente por outros bichos que ainda sobrevivam. Não tem lugar aqui, agora.
Miauuuuu!

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